O problema moral

Existem várias formas de ver o debate político ao invés do tradicional esquerda x direita. Aliás, este conceito é por si só complicado, tendo em vista que a direita só existe por oposição à esquerda. Na prática, é de direita todo mundo que não é de esquerda, o que transforma o conceito de direita um tanto quanto elástico. Só assim para considerar gente com Hitler e Mussolini como de direita, quando na verdade eram primos-irmãos-siameses dos totalitários comunistas.

A questão é que a esquerda considera que sua posição não é decorrente de uma melhor compreensão sobre a realidade do mundo, mas sobre uma superioridade moral. Eles se preocupam com o mundo, com as pessoas mais pobres, com a tal justiça social. O resultado é que o confronto político para eles é realmente uma luta do bem contra o mal. Um direitista, ou um não-esquerdista, é essencialmente uma pessoa muito ruim que deseja perpetuar a pobreza no mundo porque tem interesses mesquinhos junto à riqueza.  Não há tons cinzas para a esquerda, apenas preto e branco.

Antes de analisar qualquer discussão ou confronto a esquerda usa uma técnica bem simples: que representa a esquerda no confronto? Quem está do nosso lado? Pois esse pessoal está certo, independente do que está sendo debatido.

Só assim para explicar tanta hipocrisia e paradoxos. A polícia está sempre errada? Depende. Quem mandou a polícia, foi do nosso lado ou do deles? Se foi do nosso, melhor não comentar. Se foi deles, então necessariamente foi expressão da truculência. Por isso o uso da polícia no Piauí é aceitável e em São Paulo, não. Por isso um caso de corrupção em um governa da esquerda é um caso isolado e na direita é sempre um sintoma de contaminação no governo inteiro.

Basta fazer um exercício simples, imaginem se FHC tivesse que demitir meio ministério por corrupção, o que vocês acham que aconteceria? O mundo iria abaixo! Haveria editorial em página frontal de jornal clamando pela renúncia do governo. No caso da Dilma, que é uma das nossas, as demissões mostram a força de uma presidente intolerante com a corrupção, embora naturalmente nenhum dos demitidos seja corrupto de fato, afinal, são do nosso time. A esquerda inventou uma estranha corrupção sem corruptos.

O maior exemplo talvez seja a forma como foram tratados os casos Collor e Lula. O que foi feito pelo segundo foi infinitamente pior e mais nocivo que o primeiro. O mensalão foi além de um caso clássico de corrupção, tratou-se de desviar recursos públicos para garantir uma base parlamentar. Depois de descoberto, o esquema apenas mudou de figura: entregou-se os ministérios e as estatais aos companheiros, como era o desejo de patriotas como Roberto Jefferson desde o início. Sob aplausos dos intelectuais brasileiros que vêem isso apenas habilidade política e a tal “governabilidade”.

Enquanto a esquerda, que está no poder, não só no governo mas o que é infinitamente pior, nas universidades e imprensa, considerar que sua posição é fruto de uma superioridade moral, de uma bondade intrínseca para com seu semelhante, o debate público será essa miséria que vemos todos os dias, um falso confronto do bem e do mal.

Para que a sociedade realmente evolua, é preciso que a esquerda entenda que é possível defender os ideais da direita de boa fé. Não estou dizendo aqui que a direita esteja certa nos seus pontos, isso é outra história, mas que ambos os lados devem acreditar que o outro está errado por falta de compreensão adequada da realidade e tentar convencer que sua visão está mais próxima da verdade. O resultado será realmente o confronto de idéias e a descoberta dos consensos que levam a idéias cada vez melhores.

Isso é a verdadeira dialética, não aquela bruxaria demoníaca proposta por Hegel e, posteriormente, por Marx. Enquanto isso não acontecer ficamos com o “beautiful people” defendendo o povo e vivendo as custas do dinheiro desse mesmo povo através de seus contracheques do estado.

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