Divisões ideológicas

Esquerda e Direita: perspectivas para a liberdade
Murray N. Rothbard
Instituto Liberal e Instituto Mises Brasil, 2010

Murray Rothbard foi um dos principais economistas da escola libertária no século XX. Esse termo não é muito comum no Brasil, onde se considera que tudo que não é de esquerda é necessariamente de direita. De certa forma, isso também acontece nos EUA, onde o sistema bipartidário coloca conservadores e libertários no mesmo partido, embora tenham alguns princípios radicalmente opostos entre si, como está evidenciando a candidatura de Ron Paul no Partido Republicano.

Rothbard escreveu uma série de artigos na década de 60 justamente sobre a divisão esquerda e direita, colocando uma maior fluidez aos conceitos e dividindo mais o espectro ideológico.

Para ele a coisa começa com dois polos iniciais clássicos, fruto das revoluções dos séculos XVII e XVIII. De um lado, na “direita” , haveria a velha ordem, que identifica com o conservadorismo. Defensora dos privilégios de classe, do mercantilismo, do militarismo, da submissão do indivíduo. De outro, o liberalismo clássico, de caráter anárquico, libertário, centrado no indivíduo, pacifista, anti-intervensionista. O primeiro teria visão pessimista do progresso da humanidade, enquanto que o segundo teria caráter otimista.

O socialismo teria surgida como um intermediário entre esses dois polos, onde por um lado teria um caráter de liberdade e reação ao antigo regime, representado pelos conservadores e por outro lado teria um caráter anti-libertário de fortalecimento do estado. Dessa forma, o socialismo seria um movimento de centro, hora se voltando mais a esquerda, com Marx, hora mais a direita com Stalin.

Pode-se dividir os artigos em três partes, a primeira analisando essa divisão ao longo do século XIX, apogeu do liberalismo, até seu declínio na primeira parte do século XX, ao se guiar mais à direita em busca de uma proteção no estado. A época de crises das guerras mundiais e sobretudo na política do New Deal, que coloca como um movimento conservador de esquerda, fruto de uma traição dos ideais libertários. Por fim o período da guerra fria em que esquerda e direita se tornaram essencialmente militaristas, sepultando definitivamente esses ideais.

O problema do pensamento de Rothbard talvez seja a compreensão do que seja conservadorismo. Identificá-lo com o antigo regime, colocando seu ideal no retorno do absolutismo e mercantilismo parece-me um equívoco e tanto. O problema é que sua visão é essencialmente materialista e é impossível analisar o conservadorismo tendo em vista apenas seus pressupostos materiais. A visão da transcendência é essencial para um conservador pois a busca da preservação, e restauração, de valores morais eternos oriundos de uma revelação divina é talvez a própria base do movimento. O conservador não defende a volta de algum absolutismo, mas a conservação de alguns valores como a sacralização da vida, a caridade como eixo de atuação social, a defesa de um ideal mais elevado.

Outro problema de Rothbard e dos libertários á a fé no pacifismo como a melhor forma de evitar os conflitos bélicos que tantos recursos custam à uma nação. A história mostrou muitas vezes que o pacifismo talvez seja o caminho mais rápido para uma guerra. Não há como dissociar o pacifismo da década de 30 com a eclosão da II Guerra Mundial. Faltou quem estivesse realmente disposto a parar a máquina de Hitler quando ainda estava em formação. Ironicamente a França sozinha teria sido capaz de fazê-lo se tivesse agido um ano antes, poupando milhões de vida.

O mérito dos artigos é forçar o leitor para fora da caixinha de uma divisão fixa entre esquerda e direita. O problema talvez seja a perspectiva materialista com que faz essa divisão, fazendo que não perceba essencialmente do que o conservadorismo se trata. Ao colocar tudo na perspectiva econômica, ignorando outros planos de compreensão, Rothbard acaba preso aos mesmos princípios que levaram ao marxismo. Não por acaso ele mostra no livro uma simpatia maior com o socialismo, com que considera um desvio do liberalismo, do que com o conservadorismo que vê apenas como o fim da liberdade individual.

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