Datashow, o professor do novo século

A minha vida inteira estive na sala de aula, ou sentado ou em pé, na posição de aluno ou na posição de professor. Não lembro de um ano em que não estivesse em uma das situações, ou nas duas. Estive dos dois lados no uso do quadro-negro, transparência, quadro-branco, datashow. Posso dizer de cadeira, o maior motivo para o uso do datashow, na forma como usamos hoje em dia, é por comodidade do professor. É a oficialização de nossa muleta, nossa tranquilidade de ter nossa " cola " a mão e não precisar esquentar muito a cabeça. Melhor ainda, ficamos com a aula pronta para usar em outras ocasiões. Melhor impossível.

Mas e o aluno nessa estória toda? O que ele realmente acha do uso do datashow? Minha reflexão começa com a constatação de um aluno.

Estou iniciando minha carreira como professor universitário. Por problemas diversos, tenho dado minhas aulas no velho quadro e giz. Nem é o branco, é o verdão mesmo. Muito bom por sinal, quadriculado, novo, bem visível (tenho o hábito de ir constantemente ao final da sala para ter a visão de quem está mais distante). Leciono duas disciplinas: gerenciamento de obras civis e saneamento básico.

Depois de três semanas de aula, uma aluno comentou em sala:" professor, aula no quadro é bem melhor. O datashow deveria ser banido da universidade" . Detalhe, recebeu apoio empolgado dos demais colegas. E acrescentou: "essa semana teve um professor que apresentou 132 telas. Foi um massacre!". Comentaram que na maioria das vezes ficam dormindo, não conseguem manter a atenção, dedicam-se a outras coisas. O que tudo isso nos revela?

De toda a baboseira que a pedagogia moderna nos ensina, e coloca bobagem nisso, uma das coisas eu realmente concordo: o aluno não pode ficar em uma situação passiva. Mas não é isso que o datashow faz na maioria das vezes? O aluno não tem nem a preocupação de anotar, pois pode pegar a apresentação depois. Aliás, muitas vezes o próprio professor recomenda que não precisam anotar, como se no anotar estivessem desviando a atenção do assunto. O fato de não precisar, não significa que não devam. Anotar o que quer que seja implica em organizar os pensamentos, separar o mais importante, significa ter uma atitude mais ativa diante do que está sendo exposto.

É certo que determinadas aulas necessitam de um uso maior dessa tecnologia, principalmente quando é necessário o uso de imagens, como na medicina, odontologia, alguns assuntos da engenharia como tecnologia das construções, patologia. Mas o que vemos é um meio auxiliar de ensino se transformar no próprio ensino. Quase podemos substituir o professor e colocar a apresentação no automático já que muitas vezes se limitam a ler o que está escrito na tela.

Quer mostrar um gráfico? Por que não desenhá-lo na tela? O fato de construí-lo junto com os alunos é muito mais didático do que apresentá-lo de cara. Resolução de equações eu digo de cadeira, o velho quadro é muito mais eficaz pois coloca o aluno junto com o professor no desenvolvimento do raciocínio. Outra vantagem é poder colocar o próprio aluno no quadro e ver como estão entendendo a matéria. Quer mostrar um esquema? Desenhe-o. Não é exatamente isso que aquele indiano está fazendo com tanto sucesso na internet? Sua aula é exatamente o velho quadro, com sucesso estrondoso.

Alguém comentou comigo, mas quando eu tenho um texto teórico para apresentar? Uma lei por exemplo? Não dá para escrevê-la no quadro! O datashow é indicado para esse caso. Será? Afinal, por que se deve apresentar um texto que o próprio aluno poderia ler por si próprio no papel? Mas eles não lêem retruca ele, sem perceber que está na verdade usando o datashow como ferramenta para escrever um resumo para seu aluno preguiçoso. Um resumo, diga-se de passagem, que o aluno não vai ler nem assim pois estará esperando aquela tortura passar para cuidar dos seus assuntos.

O datashow tem muitas utilidades na sala de aula, mas na maioria das vezes deve ser usado como meio auxiliar, não como muleta para que o professor possa dar sua aula no piloto automático.

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