Entrega o que promete

São Tomás de Aquino – As Complexidades da Razão

G. K. Chesterton

Desde que li o verdadeiro assombro com que Etienne Gilson, talvez o maior tomista do século 20, recebeu o despretensioso livro de um polêmico jornalista (?!) inglês, grande e meio desengonçado, conhecido como Chesterton. Conta a lenda que Gilson não conseguiu conter palavras para expressar sua admiração:

considero-o, sem a menor possibilidade de comparação, o melhor livro jamais escrito sobre Santo Tomás… Chesterton foi um dos pensadores mais profundos de todos os tempos…

Pois terminei de ler o dito livro de Chesterton sobre São Tomás. Na verdade, li duas vezes em seguida e meu livro já está cheio de post its  com anotações e linhas marcadas. O que dizer? Simplesmente uma obra fantástica do início ao fim. Não há como não entrar no universo de São Tomás e se deixar impregnar com todo aquele universo da idade média, e tudo isso em menos de 200 páginas! Só os grandes conseguem tal feito com tanta economia de palavras, ainda mais quando o retratado é uma figura tão complexa e que produziu tanto como Aquino. Chesterton conseguiu simplesmente deixar o pensamento do doutor angélico ao alcance de quem quiser entendê-lo; e quem assim o quiser sairá maravilhado de uma experiência única.

Sao Tomás não estava anos luz a frente de sua época; ele está anos luz a nossa frente! Na verdade ele previu com assombroso acerto a cilada intelectual que nós cairíamos e se penitenciou por isso. Sua filosofia não só estava certa, mas é a única que pode ser chamada de certa. Os grandes filósofos que vieram depois se perderam em coisas pueris, em abstrações desconectas da realidade, pois se afastaram da única coisa que jamais poderiam duvidar, não sem contradizer a si próprios, se afastaram da saudável sabedoria do homem comum, daquela que diz que o que é, é.

Ao longo das 200 páginas, de forma não linear, Chesterton nos conduz por episódios decisivos da vida de São Tomás, faz uma inusitada comparação com São Francisco de Assis, mostra seu combate com os maniqueus, como compreendermos mal o casamento dele com Aristóteles, o nominalismo, sua filosofia, enfim, uma introdução completa à obra desse monstro. E no fim terminei prostrado, reverenciando-o com talvez jamais tenha feito com um pensador antes.

Existem obras que nos impactam profundamente. Essa é uma delas. A forma como olhei para o mundo hoje, em minha contemplação, foi diferente da forma como o fiz até ontem. É impossível olhar as coisas da mesma maneira depois que se começa a penetrar na mente de Tomás de Aquino, uma mente que nunca caiu nas armadilhas do intelecto pelo simples motivo de que foi fiel ao que lhe dava sanidade, segurando como uma rocha o fato triunfante que o mundo é real e estamos nele. Tudo se resume nisso e quando a realidade é colocada de lado, mesmo que por um segundo, a tragédia acontece e nós nos perdemos.

Hoje começou uma longa jornada. Agora que Chesterton me mostrou o que é São Tomás, estou pronto para começar a aprender com ele. Pois São Tomás dedicou sua vida a isso, a nos mostrar o que vemos todos os dias e que não percebemos. É uma jornada que vale a pena trilhar.

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Hoje não!

 

Enfim o Real Madrid venceu, e com autoridade, o Barcelona em seu próprio campo.

Dessa vez o time merengue jogou realmente de igual para igual,pressionando o Barcelona e saindo nos contra-ataques quando esteve em vantagem. Perdeu alguns gols incríveis e excelentes contra-ataque. O Barça não conseguiu em nenhum momento mostrar aquela sequência de toques que costuma fazer e teve finalmente uma adversário a altura.

Mas hoje era o dia do Real Madrid, que praticamente garantiu o campeonato espanhol ao abrir 7 pontos de vantagem sobre o rival. Se o empate já era bom, a vitória serviu para deixar a situação inquestionável e fica a pergunta, se o Barcelona é de outro mundo como gostam de dizer, como pode estar 7 pontos atrás de seu rival?

Talvez agora passem a ver o time como realmente é. Um bom time, mais até, um excelente time, mas que não joga nada mais do que outros grandes times da história tenham jogado. A diferença é que costuma enfrentar adversários muito inferiores. A classificação do campeonato espanhol deixa bem claro a diferença de nível entre Real e Barcelona e os demais. Nunca foi assim.

A moderna intolerância religiosa.

Talvez o grande problema não tenha sido a decisão do supremo em si, mas sim os argumentos que a maioria usou para justificar o assassinato dos anencéfalos. Acho perfeitamente possível que uma pessoa seja a favor da medida, e que consiga argumentar de forma razoável sobre sua posição. Posso não concordar, mas reconheço a dificuldade da questão e lembro que durante muito tempo eu tive dúvidas a respeito. O lamentável, e grotesco, foi usar a intolerância religiosa como argumento para permitir mais esse crime contra as leis naturais.

Quando gente como Marco Aurélio Melo, de quem já tive admiração um dia, coloca que um cristão está impossibilitado de colocar-se diante do estado como cristão, e defender suas idéias de moralidades, temos um intolerância. Sim, o ministro não é obrigado, e nem deve, aceitar nenhum argumento de fé de um cristão, mas se conhecesse um pouco de Tomás de Aquino saberia que tem sim que escutar com atenção os argumentos de razão pois o cristianismo não foi construído apenas por questão de fé, mas por longos e metódicos raciocínios filosóficos e ao longo de séculos.

A religião não é uma supertição que podemos deixar de lado sempre que quisermos como querem os intolerantes, mas sim uma visão de mundo, uma chave interpretativa que nos dá um ponto seguro para refletirmos sobre nossa própria existência. Não quer dizer que seja infalível, longe disso, como o próprio Aquino demonstrou inúmeras vezes e foi incisivo ao afirmar que poderíamos sempre estar errados em questão de fé; mas que poderíamos estar certo também. Em sua ânsia de provar uma pretensa superioridade sobre as pessoas comuns, como um arauto do saber, o ministro deixou de lado o tratamento justo que se espera de um magistrato e simplesmente usou a causa como pretexto para um ataque fortuito contra o sentimento religioso das pessoas, sem perceber que sua própria postura foi exatamente do sectarismo religiosos que imaginava estar combatendo. Marco Aurélio pretendeu seu portador da luz, só conseguiu mergulhar nas trevas.

Alguns ministros e muita gente boa foram pelo mesmo caminho, exaltando a cultura da morte. Tenho uma amiga que trabalha com saúde pública; menos de 48 horas depois da sentença já tínhamos hospitais públicos prontos para abortar essas crianças. Falta oxigênio para as coisas mais simples, mas nunca faltam meios para tirar um vida. A cultura da morte é de uma eficiência verdadeiramente demoníaca.

Acho que uma pessoa de bom senso, poderia levantar muitas dúvidas sobre essas questões. O que caracteriza uma anencéfalo? Mesmo que sua expectativa de vida seja reduzida, quem pode decidir sobre a vida de outra pessoa? É possível dizer que um anencéfalo não tem vida? Por que? É possível uma pessoa, ou grupo de pessoas, definir o que é vida? Como ficam as mães depois da decisão tomada, não estão sujeitas a arrependimentos terríveis? A quem pertence a vida de um ser humano? Como fica o pai?

Talvez a maior pergunta de todas seja simplesmente: diante de tudo que se sabe, e principalmente, do que não se sabe, qual a postura que deve ser adotada, a de permitir ou não permitir o aborto?

Um dos princípios do próprio direito que os ministros dizem defender tanto diz que na dúvida deve-se votar pró-réu. O que é ser pró-réu quando se refere a uma vida?

A cultura da morte pode ter ganho essa; e ainda aberto o caminho para novas vitórias. Mas ninguém contraria a lei natural impunimente. Podem aguardar.

Um último comentário. Que democracia é essa em que 11 pessoas podem decidir sobre a vida do restante? Como podem 11 pessoas definir um direito á vida? Os que estão comemorando hoje, cuidado!, ninguém garante o que esses mesmos 11 podem estar decidindo a seu respeito amanhã.

Marcas

Uma das marcas que uma civilização está em decadência é quando cada vez mais pessoas ocupam espaço que não deveriam estar ocupando; o que se traduz também em uma certa vulgaridade no exercício do poder.

Quando vejo a argumentação de boa parte de nossos ministros do STF, e certos pontos do inacreditável discurso de ontem de Ayres Brito, fico a pensar se não estaremos em marcha irreversível para o desastre.

Uma das coisas que me chamou atenção, no meio de poesias, terceiro-olho, etc, foi uma exortação para que a constituição seja defendida. Se ele reconhece que ela está sendo atacada, e mais que isso, que o STF precisa protegê-la, então o próprio STF, que ele faz parte, está se ocupando dessa atividade. Isso ficou patente no grande exemplo de intolerância religiosa da semana passada, que a VEJA colocou como vitória das luzes sobre a escuridão, o que mostra que a tese das pessoas incapazes vale também para a imprensa.

Não há dúvidas que vivemos em tempos difíceis, esse sim de escuridão.

E vai piorar.

Exemplo?

Hillary Clinton elogiou Dilma pelo exemplo de como combater a corrupção. Parece que o novo paradigma é nomear políticos corruptos para cargos públicos, sabendo que são corruptos; se espantar porque praticaram “malfeitos” ou porque foram pegos, o que me parece mais provável; demiti-los porque a imprensa (atual nome da Veja) não quer parar de lembrar do fato; e despedir-se com direito a elogios e lágrimas?

Esse elogio revela mais sobre a americana do que sobre a brasileira. E que Darwin estava errado. Mais uma vez.

O calvário e os intelectuais

Jesus Cristo exerceu diversos papéis para a humanidade. Nesse dia, que lembramos de sua crucificação, trato aqui de um papel muito especial, o de filósofo. Sim, além de tudo Jesus foi um filósofo pois expôs todo um conjunto do que também pode se chamar de filosofia. É muito comum nos atermos no caráter de revelação do cristianismo, mas ele também foi um produto filosófico à medida que o próprio Cristo utilizou a razão para dar suas lições e muitas vezes ele fez esse apelo a seus discípulos e seguidores: usem a razão!

Na verdade, o Cristo filósofo é apenas uma ponte para tratar de um assunto muito atual, o do intelectual. Particularmente de seu papel, sua missão. E a esse respeito o mestre nos deu mais do que lições, deu o exemplo de sua própria vida. Sim, pois entre outras coisas que o calvário representa, há o testemunho de um filósofo fiel à sua missão, a maior de todas, a de compreender e ensinar a verdade.

Não era de modo nenhum uma novidade para a humanidade; séculos antes um outro filósofo tinha dado sua vida pela verdade. A diferença entre o grego e o hebreu era que este era mais do que um homem, era um Deus, um Deus muito especial na história humana, um Deus que não só fez-se homem (coisa que os inúmeros deuses gregos faziam constantemente), mas sofreu como um homem. Aliás, sofreu mais do que qualquer homem.

Um verdadeiro filósofo tem como seu norte, como sua razão de vida, um compromisso com a verdade, seja ela o que for. Isso não quer dizer absolutamente que esteja sempre certo, mas sim que estará disposto a reconhecer seus erros quando se aproximar da verdade que está buscando. Mais do que disposto, ficará feliz, quase que em êxtase, pois a verdade é mais importante do que sua própria inteligência.

Jesus foi tentado, e o filósofo que existia nele também. Foi-lhe oferecido o poder sobre os homens, as riquezas, a visão do futuro. O preço era apenas renunciar a verdade e esse é o verdadeiro sentido de adorar satanás, ter a mentira como guia. Quando nos afastamos da verdade, nos afastamos de Deus, pois Deus é a verdade e a vida. Jesus recusou, assim como o grego ilustre, pois a verdade é um imperativo para quem a ama; para quem ama a Deus.

Cristo, o filósofo, foi contra toda a corrente de sua época, principalmente dos seus, das autoridades judaicas. Em nenhum momento buscou sua aprovação, apenas expôs a verdade. A preocupação em ser aprovado por seus pares era-lhe algo completamente indiferente. Se buscava alguma aprovação era com a verdade em si mesma e como vimos a verdade é Deus.

O que temos hoje? A partir da modernidade um novo papel para o intelectual surgiu, um falso papel que desvirtuava a razão de sua própria existência. Que essas pessoas ainda sejam chamadas de intelectuais é um dos mistérios desse mundo tão confuso e cheio de brumas. A maioria das pessoas que utilizam esse título hoje aceitaram a proposta de satanás. Diante das riquezas, do poder de influenciar, da aprovação de seus pares, trocaram o amor pela verdade pela vaidade, pelo amor a suas próprias idéias. A verdade surge como um inimigo que pode revelar o próprio erro e por isso torna-se alvo do ódio do falso intelectual. Nas palavras de Terêncio “veritas odium paritat” , a verdade gera o ódio.

Não é à toa que tantos falsos intelectuais afirmam a inexistência da verdade, ou sua relatividade, que é ainda pior. Chegaram a construir filosofias tendo como base a inexistência da verdade, o que é essencial para ficarem livres para defender qualquer coisa, mesmo suas próprias ignorâncias.

O grande problema da vaidade é que ela não tem limites. Já não basta o papel de mostrar o caminho para os homens de ação, é preciso ter sua parcela de glória nas mudanças, na nova sociedade que está se construindo. Daí para a traição dos intelectuais ser completa restou um pulo, os intelectuais se tornaram homens práticos. O casamento do intelectual com o ativismo político é o verdadeiro pacto com satanás pois é o casamento com a mentira.

Nesse dia tão importante para a cristandade, onde lembramos até que ponto Jesus foi para, entre outras coisas, mostrar a absoluta fidelidade que o filósofo tem que ter com a verdade, não podemos deixar de lamentar o fracasso, de fundo evidentemente moral, de tantas mentes brilhantes que se colocaram à serviço da mentira em nome da sua própria vaidade ou por medo de seus pares. O fato de alguns conseguirem exercer o seu papel com dignidade mostra que é possível defender a verdade. Mas quantos estão dispostos a tal sacrifício?

Que a imagem de Jesus na cruz, fiel à verdade, possa iluminar a mente endurecida e orgulhosa dos homens e mulheres que deveriam nos guiar nesses tempos difíceis e não colaborarem para a criação de um mundo baseado na mentira, no afastamento de Deus.

Pobre São Paulo

Mais uma vez estou em São Paulo. A diferença é que dessa vez estou hospedado na casa de amigos, no centro antigo da cidade. O que me fez ver muitas coisas que antes não tinha reparado.

Primeiro a grande quantidade de moradores de rua espalhados pelo centro; a grande maioria usando crack ou coisas do gênero. Me disseram que foi efeito da desativação da cracolândia, que concentrava essas pessoas em um lugar só. Se foi mesmo, acho que já estava mais que na hora. Esconder o problema é o primeiro passo para não resolvê-lo. Agora pelo menos está bem nítido que a maior cidade do Brasil, nossa capital econômica, tem problemas seríssimos. Sim, isso já se sabia; mas é diferente quando se vê.

Não sei como resolver um problema dessa natureza, apenas intuo que não deve ser de simples solução. Aliás, um dos grandes problemas talvez sejam as pessoas que acham que basta a tal "vontade política" e a aplicação de alguma solução mágica, normalmente isolada de outras possíveis, para resolver o problema. Começam os mantras da políticas sociais, tolerância zero, assistência, etc. Acho até que todas elas podem ajudar na resolução do problema, mas os partidários de uma solução costumam colocar a outra como oposta quando poderiam ser muito bem complementares. Leibnitz dizia sabiamente que as pessoas normalmente estão certas no que acreditam, o grande problema é a rapidez de negar as alternativas sem ter o cuidado de verificar se são compatíveis.

Talvez a melhor solução seja dar a essas pessoas, que hoje estão jogadas pelas ruas, uma opção melhor do que possuem hoje. Isso é diferente de dar dinheiro, cobertores, ou outros bens materiais que no fim só servem para sustentar o vício ou aumentar o conforto na miséria. Será que nossos planejadores não conseguem imaginar alguma maneira de criar opções reais para que essas pessoas saiam das ruas? Acho até que alguma tentativa está sendo feita nesse sentido, vejo que pessoas estão trabalhando como auxiliares de semáforo. Sim, verdade! Na hora que o sinal fecha, duas pessoas em cada lado da pista estendem uma bandeira pedindo que os motoristas respeitem os pedestres. Trata-se obviamente de uma tentativa de gerar empregos, mas será que é eficiente criar empregos inúteis para justificar um salário? Não teria algo mais de realmente produtivo que essas pessoas pudessem fazer?

Outro problema, e associado à miséria espalhada pelo centro é a inacreditável sujeira do centro de São Paulo. Por que digo associado? Porque não vejo como enfrentar um problema sem enfrentar o outro. Não sei quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, mas a pobreza gera sujeira e a sujeira gera pobreza. Não é possível que uma cidade que gera a riqueza que São Paulo gera não consiga pelo menos encaminhar a resolução desses problemas.

Não vou entrar na questão política de PSDB e PT, que fizeram da capital um grande ringue político, talvez o lugar onde a disputa entre os dois seja mais feroz. Independente do partido no poder, e na oposição, algum pacto em torno de uma direção tem que haver e só quem pode exigir isso é o próprio habitante de São Paulo. Mais do que um partido, e um governo, acho que a solução tem que partir de toda a sociedade paulistana, de uma tomada de consciência do problema e de sua gravidade, do desenvolvimento de um real sentido de comunidade, do estabelecimento de uma ligação real e efetiva entre seus habitantes. O que vejo hoje é uma cidade cheia de indivíduos, cada um cuidando de seu problema. Não é o suficiente. É preciso pelo menos estender a mão para a pessoa que está do lado, nem precisa ir longe.

Mas isso tem nome não é?
Um nome com cada vez menos espaço nesse estranho mundo moderno.