O calvário e os intelectuais

Jesus Cristo exerceu diversos papéis para a humanidade. Nesse dia, que lembramos de sua crucificação, trato aqui de um papel muito especial, o de filósofo. Sim, além de tudo Jesus foi um filósofo pois expôs todo um conjunto do que também pode se chamar de filosofia. É muito comum nos atermos no caráter de revelação do cristianismo, mas ele também foi um produto filosófico à medida que o próprio Cristo utilizou a razão para dar suas lições e muitas vezes ele fez esse apelo a seus discípulos e seguidores: usem a razão!

Na verdade, o Cristo filósofo é apenas uma ponte para tratar de um assunto muito atual, o do intelectual. Particularmente de seu papel, sua missão. E a esse respeito o mestre nos deu mais do que lições, deu o exemplo de sua própria vida. Sim, pois entre outras coisas que o calvário representa, há o testemunho de um filósofo fiel à sua missão, a maior de todas, a de compreender e ensinar a verdade.

Não era de modo nenhum uma novidade para a humanidade; séculos antes um outro filósofo tinha dado sua vida pela verdade. A diferença entre o grego e o hebreu era que este era mais do que um homem, era um Deus, um Deus muito especial na história humana, um Deus que não só fez-se homem (coisa que os inúmeros deuses gregos faziam constantemente), mas sofreu como um homem. Aliás, sofreu mais do que qualquer homem.

Um verdadeiro filósofo tem como seu norte, como sua razão de vida, um compromisso com a verdade, seja ela o que for. Isso não quer dizer absolutamente que esteja sempre certo, mas sim que estará disposto a reconhecer seus erros quando se aproximar da verdade que está buscando. Mais do que disposto, ficará feliz, quase que em êxtase, pois a verdade é mais importante do que sua própria inteligência.

Jesus foi tentado, e o filósofo que existia nele também. Foi-lhe oferecido o poder sobre os homens, as riquezas, a visão do futuro. O preço era apenas renunciar a verdade e esse é o verdadeiro sentido de adorar satanás, ter a mentira como guia. Quando nos afastamos da verdade, nos afastamos de Deus, pois Deus é a verdade e a vida. Jesus recusou, assim como o grego ilustre, pois a verdade é um imperativo para quem a ama; para quem ama a Deus.

Cristo, o filósofo, foi contra toda a corrente de sua época, principalmente dos seus, das autoridades judaicas. Em nenhum momento buscou sua aprovação, apenas expôs a verdade. A preocupação em ser aprovado por seus pares era-lhe algo completamente indiferente. Se buscava alguma aprovação era com a verdade em si mesma e como vimos a verdade é Deus.

O que temos hoje? A partir da modernidade um novo papel para o intelectual surgiu, um falso papel que desvirtuava a razão de sua própria existência. Que essas pessoas ainda sejam chamadas de intelectuais é um dos mistérios desse mundo tão confuso e cheio de brumas. A maioria das pessoas que utilizam esse título hoje aceitaram a proposta de satanás. Diante das riquezas, do poder de influenciar, da aprovação de seus pares, trocaram o amor pela verdade pela vaidade, pelo amor a suas próprias idéias. A verdade surge como um inimigo que pode revelar o próprio erro e por isso torna-se alvo do ódio do falso intelectual. Nas palavras de Terêncio “veritas odium paritat” , a verdade gera o ódio.

Não é à toa que tantos falsos intelectuais afirmam a inexistência da verdade, ou sua relatividade, que é ainda pior. Chegaram a construir filosofias tendo como base a inexistência da verdade, o que é essencial para ficarem livres para defender qualquer coisa, mesmo suas próprias ignorâncias.

O grande problema da vaidade é que ela não tem limites. Já não basta o papel de mostrar o caminho para os homens de ação, é preciso ter sua parcela de glória nas mudanças, na nova sociedade que está se construindo. Daí para a traição dos intelectuais ser completa restou um pulo, os intelectuais se tornaram homens práticos. O casamento do intelectual com o ativismo político é o verdadeiro pacto com satanás pois é o casamento com a mentira.

Nesse dia tão importante para a cristandade, onde lembramos até que ponto Jesus foi para, entre outras coisas, mostrar a absoluta fidelidade que o filósofo tem que ter com a verdade, não podemos deixar de lamentar o fracasso, de fundo evidentemente moral, de tantas mentes brilhantes que se colocaram à serviço da mentira em nome da sua própria vaidade ou por medo de seus pares. O fato de alguns conseguirem exercer o seu papel com dignidade mostra que é possível defender a verdade. Mas quantos estão dispostos a tal sacrifício?

Que a imagem de Jesus na cruz, fiel à verdade, possa iluminar a mente endurecida e orgulhosa dos homens e mulheres que deveriam nos guiar nesses tempos difíceis e não colaborarem para a criação de um mundo baseado na mentira, no afastamento de Deus.

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