A moderna intolerância religiosa.

Talvez o grande problema não tenha sido a decisão do supremo em si, mas sim os argumentos que a maioria usou para justificar o assassinato dos anencéfalos. Acho perfeitamente possível que uma pessoa seja a favor da medida, e que consiga argumentar de forma razoável sobre sua posição. Posso não concordar, mas reconheço a dificuldade da questão e lembro que durante muito tempo eu tive dúvidas a respeito. O lamentável, e grotesco, foi usar a intolerância religiosa como argumento para permitir mais esse crime contra as leis naturais.

Quando gente como Marco Aurélio Melo, de quem já tive admiração um dia, coloca que um cristão está impossibilitado de colocar-se diante do estado como cristão, e defender suas idéias de moralidades, temos um intolerância. Sim, o ministro não é obrigado, e nem deve, aceitar nenhum argumento de fé de um cristão, mas se conhecesse um pouco de Tomás de Aquino saberia que tem sim que escutar com atenção os argumentos de razão pois o cristianismo não foi construído apenas por questão de fé, mas por longos e metódicos raciocínios filosóficos e ao longo de séculos.

A religião não é uma supertição que podemos deixar de lado sempre que quisermos como querem os intolerantes, mas sim uma visão de mundo, uma chave interpretativa que nos dá um ponto seguro para refletirmos sobre nossa própria existência. Não quer dizer que seja infalível, longe disso, como o próprio Aquino demonstrou inúmeras vezes e foi incisivo ao afirmar que poderíamos sempre estar errados em questão de fé; mas que poderíamos estar certo também. Em sua ânsia de provar uma pretensa superioridade sobre as pessoas comuns, como um arauto do saber, o ministro deixou de lado o tratamento justo que se espera de um magistrato e simplesmente usou a causa como pretexto para um ataque fortuito contra o sentimento religioso das pessoas, sem perceber que sua própria postura foi exatamente do sectarismo religiosos que imaginava estar combatendo. Marco Aurélio pretendeu seu portador da luz, só conseguiu mergulhar nas trevas.

Alguns ministros e muita gente boa foram pelo mesmo caminho, exaltando a cultura da morte. Tenho uma amiga que trabalha com saúde pública; menos de 48 horas depois da sentença já tínhamos hospitais públicos prontos para abortar essas crianças. Falta oxigênio para as coisas mais simples, mas nunca faltam meios para tirar um vida. A cultura da morte é de uma eficiência verdadeiramente demoníaca.

Acho que uma pessoa de bom senso, poderia levantar muitas dúvidas sobre essas questões. O que caracteriza uma anencéfalo? Mesmo que sua expectativa de vida seja reduzida, quem pode decidir sobre a vida de outra pessoa? É possível dizer que um anencéfalo não tem vida? Por que? É possível uma pessoa, ou grupo de pessoas, definir o que é vida? Como ficam as mães depois da decisão tomada, não estão sujeitas a arrependimentos terríveis? A quem pertence a vida de um ser humano? Como fica o pai?

Talvez a maior pergunta de todas seja simplesmente: diante de tudo que se sabe, e principalmente, do que não se sabe, qual a postura que deve ser adotada, a de permitir ou não permitir o aborto?

Um dos princípios do próprio direito que os ministros dizem defender tanto diz que na dúvida deve-se votar pró-réu. O que é ser pró-réu quando se refere a uma vida?

A cultura da morte pode ter ganho essa; e ainda aberto o caminho para novas vitórias. Mas ninguém contraria a lei natural impunimente. Podem aguardar.

Um último comentário. Que democracia é essa em que 11 pessoas podem decidir sobre a vida do restante? Como podem 11 pessoas definir um direito á vida? Os que estão comemorando hoje, cuidado!, ninguém garante o que esses mesmos 11 podem estar decidindo a seu respeito amanhã.

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