Juros também são um preço

Na década de 30, Chesterton comentou que a imprensa não mais fazia seu papel de segurar um espelho para o mundo; ela simplesmente tinha passado a mostrar uma espécie de imagem maluca do mundo, um pastiche de centenas de imagens do nada e do tudo, a maior parte mal pintada e mal escolhida.

Pouco sei sobre a imprensa da década de 30, mas sou testemunha da atual. Se mudou alguma coisa, foi para pior.

Muito se falou sobre o fato do governo ter baixado a taxa de juros básica, a selic. Dilma ficou brava com a Febraban que ousou, veja que democracia que vivemos!, contestar a pressão do governo para que os bancos privados baixassem suas respectivas taxas de juros para empréstimo, que não é a mesma coisa que a taxa selic. Vivemos um tempo tão estranho, que uma entidade civil se retratou, embora sua nota técnica tenha espelhado a verdade. Socialistas, principalmente com poder, não convivem muito bem com críticas, mas isso já é bem sabido.

A imprensa noticiou tudo isso. O que não noticiou, ou melhor explicou, é que a taxa de juros cobrada pelos bancos é também um preço, e como qualquer preço é regulado, ou deveria ser, pelo mercado. Em um regime de perfeita liberdade (utopia das utopias), uma baixa taxa de juros faz com que muitas pessoas e empresas busquem empréstimos pois o custo de capital baixou. O problema é que muito pouca gente quer emprestar, pois o retorno será pouco. Quando os juros sobem, mais pessoas ficam dispostas a emprestar e menos a tomar empréstimos. Não é difícil ver que existe um preço de equilíbrio, onde a mesma quantidade de pessoas, na verdade a mesma quantidade de dinheiro, fica disponível para ser emprestado e para ser investido. Esse preço é a taxa de juros de mercado, e é representado na interseção das duas curvas abaixo.

 

Isso quer dizer que para a taxa de juros cair, é necessário que existam mais pessoas querendo emprestar do que querendo tomar empréstimos, por isso que simplesmente reduzir a taxa selic não funciona diretamente. O melhor que o governo poderia fazer para que o mercado abaixo as taxas é deixar mais dinheiro nas mãos da sociedade (reduzindo impostos) ou aumentar a poupança interna (diminuindo gastos). Reduzir na força, como quer fazer, não é possível porque ao mesmo tempo que há uma corrida dos buscadores de crédito, há uma fuga dos emprestadores. Ao contrário da imaginação popular, a margem de lucro do banco no empréstimo é o mesmo de uma empresa em geral, cerca de 8%. O restante do tal spread, a diferença da taxa cobrada no empréstimo, é composta de custos administrativos, inadimplência (sua maior parte), custo dos compulsórios, taxas e impostos.

Mas alguém na imprensa explicou isso?

Eu não vi.

 

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