O coração do homem

Odisséia

Homero

Tradução de Frederico Lourenço, Editora Penguin

É impressionante que a Odisseia tenha sido escrito a tanto tempo. Mais do que uma narrativa das aventuras de Ulisses, em seu longo retorno após a vitória em Tróia, trata-se de uma verdadeira jornada no coração do homem, e uma celebração da família. Ulisses tem que literalmente ir ao inferno e voltar para restituir sua família; Penélope tem que usar do possível e impossível para manter sua fidelidade e Telêmaco mostra que a ligação com um pai que nunca conheceu é real, transcende o espaço e tempo.

As inversões temporais e quebras narrativas, tão em voga no cinema de hoje, tido como algo bem moderno, na verdade já estava presente nessa obra que talvez seja a mais antiga que temos notícia. Nesse sentido, e em muitos outros, Homero já era moderno. Ou melhor, era eterno e por isso sua obra soa tão nova e tão impressionante.

O poema começa com Telêmaco, desesperado em ver um bando de pretendentes à mão de sua mãe vivendo em seu palácio e destruindo todo o patrimônio de Ulisses. No meio de palabras de bajulação, não deixa de perceber as reais intenções daqueles homens aproveitadores e rudes. Decide partir para tentar encontrar notícias de seu pai, que já estava ausente há vinte anos, praticamente sua idade. A Guerra acabara há dez e tudo indicava que morrera na jornada; mas para um filho a morte do pai só se confirma com a certeza.

A segunda parte trata do próprio Ulisses. Mais precisamente na intervenção da deusa Atenas,que resolve determinar a ninfa Calypso que deixe Ulisses partir da ilha onde ele se encontrava há 7 anos. Sem alternativas, ela o orienta na construção de uma pequena embarcação. Ulisses parte, mas Poseidon intervém com uma tempestade e ele escapa da morte chegando a terra dos Feácios, onde é encontrado por Nausica, filha do rei. Finalmente na corte, Ulisses começa a contar sua aventura depois do fim da guerra de Tróia.

É na recordação de Ulisses que ficamos sabendo de suas aventuras até ser salvo por Calypso. O Cíclope, as sereias, Cila, a ida ao inferno onde encontra a alma dos guerreiros de Tróia, que explicam que o inferno é pior do que se imagina. Durante todo o percurso vemos a prudência de um homem prático, que toma as melhores decisões no momento para resolver os problemas, não por acaso chamado de Ulisses dos mil ardis.

Finalmente, a quarta parte narra o retorno do herói à Itaca. Sabendo que seria morto pelos pretendentes se chegasse sozinho e desarmado, com a ajuda de Atenas e do filho Telâmaco, se transforma em um idoso mendigo e passa a frequentar a corte, avaliando os pretendentes e do próprio pessoal do palácio, particularmente das servas. Homero já tinha a perspicácia para saber que a melhor forma de se conhecer uma pessoa era se colocar abaixo deles.

De certa forma, a Odisséia é uma jornada de reunião de uma família, que aparece como a estabilidade possível em um mundo de iniquidades. A vida teria sido muito mais fácil se Penélope aceitasse a morte do marido e escolhesse um pretendente, mas quem disse que a vida deve ser fácil? Ulisses poderia ter passado o resto de sua vida com Calypso, a mais bela das ninfas, tratado como um rei. O próprio rei dos feácios lhe ofereceu o próprio reino como herança, mas o grego recusou qualquer glória. Como qualquer soldado, só queria voltar para sua família. Telêmaco viu o pai partir quando bebê, mas cresceu amando-o pelo coração da mãe, preparando-se para quando chegasse o momento colocar seu amor à prova. Como fez.

A Odisséia é um dos tesouros da humanidade, um livro de certa forma jamais superado em seu estilo. É interessante que o primeiro poema épico que temos notícia seja também o melhor deles. Homero estabeleceu um padrão que definiu um estilo. Apenas Camões chegou em seu nível com os Lusíadas, não por acaso um espelho da Odisséia, com a intervenção dos deuses gregos e tudo.

Só para terem uma idéia da atualidade de Homero, esse estrofe reproduz uma fala de Calypso, diante de um desconfiado Ulisses após a ninfa tê-lo informado que lhe daria os meios para construir uma jangada e permitiria que partisse. O herói sabia que a ninfa o amava e perguntou se não haveria algum ardil. A ninfa responde:

Não, o que penso e aconselho é aquilo que pensaria

em proveito próprio, se tal necessidade se abatesse sobre mim.

As milhas intenções são bondosas; no peito não tenho

um coração de ferro. Também sei sentir compaixão.

A Odisséia é muito mais do que um livro de aventuras. É um estudo sobre a natureza humana.

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Um comentário sobre “O coração do homem

  1. Muito bom, davvero. Só esqueceu que esse conto de Homero faz também (e principalmente) a passagem formal do matriarcado para o patriarcado. Já que é a primeira vez que um filho deixa de ter o direito a posse via sangue materno (Penélope) e o recebe pelo pai, Ulisses. Sei não, mas sempre vi a apaixonada e fiel matrona como uma traidora da causa, rs. É o amoooooooooooooor…

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