Fernando Rodrigues não gosta de constituições

Um artigo para se guardar na história como exemplo de péssimo jornalismo e da tese de Julian Benda, do intelectual traidor. Fernando Rodrigues não quis investigar a realidade, quis mostrar que tinha razão e fazer um desabafo sobre a deposição de Lugo no Paraguai. Em artigo no seu blog defende o seguinte:

  1. O que aconteceu no Paraguai foi um golpe no estilo chavista, ou seja, dentro da lei.
  2. A retirada de trabalhadores sem-terra, com mortes, não é razão para depor um presidente em 36 horas.
  3. Os paraguaios deveriam aguardar as eleições de 2013 para trocar seu presidente.
  4. O Brasil deixou de dizer o que pensa para não parecer imperialista.
  5. O Brasil é visto na região como os EUA são vistos no México e na América Central.
  6. A deposição do presidente foi feito dentro da lei da mesma forma como existia a escravidão no Brasil. Eram legais, mas imorais.
  7. Tratou-se na verdade de um golpe de estado politicamente correto, dentro da lei, pois a realidade do século XXI não permite mais o golpe pelas armas.
  8. O Brasil deveria atuar como mediador para evitar a deposição do presidente paraguaio.

Separando os argumentos de Rodrigues, não posso deixar de levar em conta as três leis máximas de um jornalista:

  1. Sabem muito menos do que acham que sabem;
  2. Frequentemente erram; e
  3. Nunca são responsabilizados por seus erros.

No caso de Rodrigues me parece que não se trata de erro, mas da deformação ideológica agindo na cabeça de um perfeito idiota latino-americano.

Para princípio de conversa, comparar o que aconteceu no Paraguai com o chavismo é completamente sem cabimento. Hoje se sabe que o caudilho venezuelano insuflou uma pseudo revolta contra ele para centralizar o poder e tomar as medidas necessárias para se permitir perpetuar no poder. A constituição venezuelana foi estuprada, o supremo de lá corrompido e a oposição cometeu um erro estúpido de permanecer uma legislação fora do Congresso, o suficiente para se aprovar leis especiais para o bufão de Caracas. Nada do que aconteceu lá foi dentro da lei, como Rodrigues afirmou.

Lugo também não foi deposto por causa da “retirada de trabalhadores sem-terra com mortes”, uma razão que seria insuficiente para ma deposição segundo o jornalista. O acontecimento foi resultado de três anos de promoção de insegurança jurídica, apoio explícito aos sem-terras, uso de instalações militares para fins políticos, enfim, tudo que contribui para um clima de violência. Nada parecia indicar que pararia por ali. Deixar Lugo no poder, continuando com essas políticas, seria um ato de irresponsabilidade que poderia culminar em conflitos ainda mais graves.

Quanto ao argumento que os paraguaios deveriam aguardar as eleições, dá para imaginar o que Rodrigues pensa do mensalão, não é? No Brasil o Congresso se omitiu e não deu início a um processo de impedimento daquele psicopata que governava o país e o resultado foi o uso da máquina pública para comprar votos e garantir mais 4 anos no poder. Com auxílio precioso do TSE e do STF que não permitiram que se falasse e nem usasse imagens da CPI dos Correios durante a campanha de 2006. Para Rodrigues, o Brasil deu um exemplo de democracia ao permitir a sobrevida de seu presidente chefe de quadrilha.

O Brasil deixou de dizer o que pensa? O Brasil não podia ter sido mais explícito! Todas as manifestações oficiais foram de repúdio ao Congresso paraguaio pela deposição de Lugo. Quem mais Rodrigues queria? Quem mandássemos tanques?

Quanto à comparação com os EUA, trata-se de argumento de um boçal. Ainda vez uma piadinha sobre a anexação do Texas, Arizona, etc. O que anexamos do Paraguai? Ao contrário, o Brasil foi invadido pelo louco do Solano Lopez, ganhou a guerra, ocupou o Paraguai e caiu fora! O Brasil praticamente não tem problemas de fronteiras com nenhum vizinho.

Pior ainda é quando Rodrigues compara o impeachment com a escravidão no Brasil! Meu Jesus Cristo! O homem não tem vergonha? Qual é a imoralidade do processo de impeachment? Uma constituição é mais do que um conjunto de leis, são os limites ao exercício do poder em nome do povo. Por isso presidentes costumam jurar o texto constitucional antes de tomar posse. Lá estão as coisas que ele não pode fazer. E os mecanismos para retirá-los quando resolvem se exceder. O processo no Paraguai tem que ser rápido pois ao contrário do que acontece no Brasil, lá o presidente NÃO É afastado do cargo durante o processo. Essa informação deixou de ser citada pelo jornalista. Por que?

Sobre usar a expressão “tudo foi feito dentro da lei” como um mantra, muito maior é o mantra “eleito democraticamente” para justificar qualquer ato do governante. É a tese de que o voto absolve qualquer crime. Lugo não foi eleito democraticamente para fazer o que fez, do mesmo modo que Lula não foi eleito em 2002 para comprar votos no Congresso. Infelizmente nossa democracia não foi tão forte quanto à paraguaia e deixamos que a popularidade do presidente o protegesse do devido processo legal e político. Rodrigues deve ter sido um dos que repetiram mil vezes que o presidente estava “blindado”. Goebbels explica.

Por fim, argumenta que o Brasil deveria atuar como mediador para garantir a permanência do presidente. Um mediador deve ser neutro e imparcial. Se o Brasil entra em uma mediação para garantir a posição de uma das partes, não é mais mediador coisa nenhuma. 

Não, Fernando Rodrigues não gosta de constituições, nem a nossa nem a do Paraguai. Para o Brasil, defende explicitamente que deveríamos intervir em assuntos internos do Paraguai. Para o Paraguai que deveria ignorar sua constituição e aguardar as eleições do ano que vem, ignorando o quadro de insegurança que o ex-bispo safado e pedófilo criou. 

Infelizmente Rodrigues é apenas um dos infinitos exemplos da falta de rigor dos nossos jornalistas. Ainda vai levar tempo para essa geração sair do poder e da mídia, mas um dia sairá.

A verdade é filha do tempo como já dizia São Tomás. 

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