Em busca do geral

Precisamos conseguir que nossas intenções coincidam sempre com nossos gostos e com nossa vocação, e levar cada intenção até o ponto último, ou seja, até o absoluto. (…) O único meio de ser forte é jamais subordinar o que se é, ou seja, o que se pensa, o que se diz ou o que se faz, a uma preocupação particular ou a um fim temporal. Eles é que devem seguir-me, e não eu a eles.

Louis Lavelle, Regras para a vida cotidiana

Uma das características da modernidade é a completa inversão de meios e fins. Muitas vezes o instrumento é considerado como um fim em si mesmo e o verdadeiro fim se desvaloriza até se perder por completo. Não é à toa que o consumismo se tornou uma das marcas de nossa era e o resultado é uma acúmulo de esteiras de corrida, bicicletas, computadores, ferramentas manuais, roupas, etc. Basta fazer um inventário dentro de casa: quantos objetos estão há mais de 2 anos sem ser utilizados? A resposta pode surpreender. A imagem que vejo é daquela esteira de corrida usada como cabide de roupas.

Lavelle chama atenção primeiramente para a necessidade de que nossas intenções combinem com nossos gostos e vocações. Isso não quer dizer que devemos fazer apenas o que gostamos, mas que temos que gostar do que temos que fazer. Se minha profissão exige um constante estudo para manter-me atualizado, devo gostar de estudar e não fugir dele com qualquer desculpa ou encará-lo com sofrimento. Talvez tenha escolhido a profissão errada, talvez tenha escolhido pelos motivos errados, pode ser, mas ou passo a gostar do que escolhi ou chego a conclusão que estou no lugar errado. Isso acontece muito com aqueles que escolheram a profissão pelo salário, muito comum nos concursos públicos no Brasil. Trata-se de outro exemplo da inversão, o dinheiro visto como um fim e não como um instrumento para atingir um objetivo.

Ganhar dinheiro, comprar esteiras ergométricas, computador, tudo isso são intenções particulares. Deve-se perguntar é para que se precisa dessas coisas? Não se trata apenas de bens materiais não. Pode ser uma promoção na empresa. Muitas vezes se faz de tudo para obter uma promoção sem nunca se perguntar por que essa promoção é importante? O resultado pode ser um salário melhor mas muita dor de cabeça, principalmente quando não se quer dedicar tanto tempo ao trabalho.

Em nossa vida temos que ter objetivos gerais, que se traduz em atitudes gerais. O que pretendemos? O que desejamos ser em nossa vida? O que gostaria de atingir para poder dizer que posso morrer satisfeito com o que realizei? Não precisa muito. Lavelle sugere que bastam 2 ou 3 pensamentos gerais para orientar toda a nossa vida.

Tudo o resto são intenções particulares e essas devem estar alinhadas com esses pensamentos. Se desejo dedicar minha vida a construir relacionamentos duráveis, a relacionar-me com amor à minha família e colocar-me como uma pessoa útil para as demais, talvez um emprego de alto salário, muitas viagens, responsabilidade e incertezas não seja o adequado. Se não quero usar parte do meu tempo para manter um condicionamento físico de atleta, talvez a esteira seja dispensável.

Justamente pela perda do sentido do geral, desses objetivos permanentes e atemporais, que devem nortear nossa vida é que o homem moderno parece tão perdido, sem objetivos e inconstante. Na cultura de hoje parece até proibido meditar sobre sentidos gerais. O que vale é o aqui e agora, o tão falado ” carpe diem “, que é muito mais antigo do que se parece.

Louis Lavelle inverte a equação e mostra que aproveitar o dia, carpe diem, só tem sentido quando voltado para esses objetivos gerais. Por isso o homem moderno precisa tanto parar e começar a refletir.

Pelo menos a tralha dentro de casa diminuiria bastante.

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