Começa o segundo turno

Começou o turno derradeiro do brasileirão 2012. Promessa de fortes emoções.

Na ponta de cima, os grandes vitoriosos foram Grêmio e São Paulo. Fluminense e Atlético mostraram que não é possível manter o nível de aproveitamento do primeiro turno (ambos com mais de 75%). Os três últimos campeões tiveram 62% ou menos. Não há razão para ser diferente este ano.

O São Paulo está entrando definitivamente na briga. Vasco e Botafogo vêm caindo de rendimento há algum tempo.

No lado do meio, o Flamengo mostrou mais uma vez seus limites. Poderia ter ganho a partida, Magrão fez excelentes defesas, mas não chegou a realmente se impor ao esforçado Sport, que mostrou que  a turma de baixo vai jogar sempre no limite.

Na parte de baixo, destaque para a chinelada que o Palmeiras tomou da lusa. Sinal vermelho para o clube, a coisa tá preta.

 

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Um nome a ser resgatado

Lições de Corção

Marta Braga

 

É interessante que talvez o curso que talvez tenha tido maior impacto em minha vida foi um curso livre, sem valor acadêmico, de filosofia do homem. Aconteceu na época em que eu fazia mestrado em engenharia de transportes e de certa forma mudou a forma com que me relacionava com a cultura. De duração de um ano, o curso tinha duas horas semanais; uma iniciativa de um professor de mecânica, apaixonado por filosofia.

A lista de leitura que montei na época, a relação de autores que conheci no curso, são meus companheiros já há 5 anos. Volta e meia volta a minhas anotações e a apostila do curso por indicação de mais leituras. O curso foi um imenso índice para entrada em uma vida de cultura superior, coisa que nenhuma universidade meu deu até hoje. Dá para refletir um pouco sobre o ensino acadêmico, não?

Um dos autores que escutei falar a primeira vez nesse curso foi Gustavo Corção. Chamou-me atenção o fato de ter sido professor do IME e ser completamente desconhecido nessa mesma instituição. Naquele momento, representava para mim um homem de ciências que tardiamente decidira penetrar no vasto mundo da filosofia; justamente o que eu começava a fazer. Neste sentido, tinha nele um protótipo.

Li vários de seus livros e considero-o um dos melhores, se não o melhor, prosador do nosso país. Que figura! Que cultura! Que clarea! Gustavo Corção foi sem dúvida um dos nossos maiores pensadores e seu único romance, Lições de Abismo, digno de figurar na lista dos maiores da lingua portuguesa.

Marta braga nos apresenta essa pequena biografia de Gustavo Corção, fruto de sua tese de doutorado (que algumas vezes serve para alguma coisa!), apresentando o escritor para as novas gerações. Retratando-o desde a infância, suas tentações materialistas da juventude, o mergulho na técnica, a conversão ao catolicismo e o novo mergulho, agora na filosofia e teologia, sua atuação pública, a partir do Centro Don Vital, suas obras e sua partida deste mundo, no ano do início do papado de João Paulo II.

Acima de tudo, Corção era um homem profundamente interessado na natureza humana e sua relação com o mundo. Sua mente era de uma clareza chestertoniana; seu raciocínio, rápido e criativo. Para ele, a questão da verdade era fundamental:

O desprezo pela verdade, eis o nome do maior veneno do mundo.

Infelizmente, Corção foi escondido, esse é o termo, pela nova elite cultural que surgiu com o fim do regime militar. Tinha dois pecados, era um católico sincero e um conservador, um verdadeiro homem de direita. Na verdade, não precisou nem do fim do regime, o que mostra que a esquerda tinha vencido a guerra cultural ainda no tempo dos generais, que nunca se interessaram por essa parte. Esse livro de Marta Braga talvez seja a única coisa sobre Corcão que tenha sido publicado nas últimas décadas. As últimas edições de seus livros são de mais de 20, talvez 30 anos!

Por mais que se discorde das idéias de um autor, não se pode ignorá-lo desta forma, ainda mais quando foi um dos maiores ensaistas de seu tempo. Um homem que conseguiu ser elogiado por gente como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Nelson Rodrigues, Oswald de Andrade, os próprios Papas, não pode ser esquecido dessa maneira de jeito nenhum. Urge uma reedição de sua obras e uma apresentação para nossa sociedade. Ele faz parte de nossa cultura, queiram ou não.

Parabéns a Marta Braga pelo feliz livro e a contribuição para um possível resgate de um grande mestre. Salve Corção!

Para o individualista, o casamento é o epílogo de uma história de amor; para nós, é o prólogo de uma história de amor. No primeiro caso, o amor é exigente e se acerca do guichê nucpcial para receber os juros; no segundo caso, o amor é paciente e fecundo, e não procura o seu próprio interesse. (Gustavo Corção, Claro Escuro)

Repetindo o que deu errado!

Em 2010, o PSDB lançou a chapa que reunia o marqueteiro derrotado em 2006 (L Gonzales), com o candidato derrotado em 2002 (Serra) para enfrentar nas urnas um governo popular. Deu no que deu.

Disposto a inovar, resolveu repetir a dobradinha para as eleições municipais deste ano. Serra e Gonzales. Se era para o Serra se enterrar, vai fazer com estilo.

O baixíssimo índice de aprovação da prefeitura Kassabista mostrava que a única chance de vitória do PSDB era lançar um candidato que não pudesse ser associado com o atual prefeito. Fez o contrário, lançou o único candidato que jamais poderá alegar não ser associado ao Kassab. Uma candidatura que já nasceu morta na origem, o que mostra que o planejamento estratégico do PSDB é uma lástima, e por isso toma banho do PT.

O voto útil já começou a migrar para o Russomano. Serra não vai nem para o segundo turno. Acabou.

Seu tempo já passou.

Nem 2010 era para ele. O grande erro do PSDB me parece foi não lança-lo em 2006, aceitando a pressão de Alckmin. Talvez a estória fosse diferente.

Apenas talvez.

Foi real, em uma universidade

Aconteceu em uma Universidade brasileira, contada por um amigo. Ele é professor do curso de ciência da computação.

_ Bem, o que eu quero de vocês é o seguinte: um algorítmo que o usuário entre com um número qualquer e se faça uma verificação deste número. Se o número for negativo, retorna o seu absoluto. Alguma dúvida?

_ Professor, o que é absoluto?

_ É o valor do módulo do número, o valor sem o sinal.

Outro aluno interrompe tentando esclarecer o colega:

_ É o número sem a vírgula. Só pegar tudo que tem antes da vírgula.

_ Não, isso é número inteiro. Valor absoluto é o número sem considerar o sinal.

Depois de um breve silêncio, uma aluna resolve participar.

_ E como eu sei se um número é negativo?

Felizmente as coisas vão melhorar com as cotas!

Algumas boas idéias, outras nem tanto.

Quem disse que não tem discussão?

Alberto Carlos Almeida, 2012

 

Baseado no aforisma que não se discute política, religião e futebol, Alberto Carlos Almeida se propõe a discutir exatamente isso, tendo como base os vários dados empíricos disponíveis sobre os mais variados assuntos.

Na parte política, toma como tese básica que o principal fator para eleição de um político é a avaliação do governo. A partir de uma série de dados existentes, mostra que o que aconteceu com Dilma estava longe de ser uma novidade na política brasileira. Um governo bem avaliado, e o de Lula inegavelmente era, consegue sim eleger qualquer poste.

Coloca o PT como um legítimo herdeiro da social democracia européia, cujos partidos começaram radicais e foram se alinhando na centro-esquerda quando começaram a ganhar votos e eleições. Segundo ele, o PT já ocupou esse espaço na política brasileira e de lá não mais sairá.

O maior partido de oposição, o PSDB, só tem uma saída. Assumir a posição de centro-direita, tornando-se o partido conservador que a esmagadora maioria dos seus eleitores imagina que seja. Para isso, deveria ter como maior bandeira a redução de impostos para aumento do poder aquisitivo de todos os brasileiros, justamente uma idéia que desagrada seu principal nome, o ex-candidato José Serra.

Se no campo político o livro é muito interessante de ler, no religioso é próximo de um desastre. Alberto Almeida se prende a suas próprias idéias estreitas do que seja religião e principalmente o catolicismo. O que se lê é uma coleção de clichês e desconhecimento, principalmente sobre a Idade Média. Chesterton estava certo, o pior cristão, aquele que tem a imagem mais errada da fé, é justamente aquele que se criou na margem do catolicismo. Almeida se define como católico não praticante, justamente o que Chesterton estava tentando dizer.

Por fim, o futebol não compromete, mas mostra que foi só um apêndice para justificar o título, e talvez a inclusão de sua crítica ao catolicismo.

O livro vale pela sua parte política e econômica, por evidenciar determinados aspectos das eleições e da política no Brasil. Poderia ter terminado por aí e seria um excelente livro. Como se estendeu mais do que devia, fica apenas como um bom livro.

Mensalão: avanço?

Hoje se define o destino do primeiro político acusado no mensalão: João Paulo Cunha. Na hierarquia do petismo, seria um peixe grande, mas não graúdo. Já foram condenados um ex-diretor do Banco do Brasil, aquele banco de todos os brasileiros, um publicitário especializado em lavagem de dinheiro e seus sócios. Uma das questões que se coloca desde o início do julgamento é o que caracterizaria um marco contra a impunidade? A condenação de José Dirceu? A condenação de políticos mas sem a inclusão do mais graúdo? A condenação de pelo menos alguns?

Alguns defendem que se não forem todos condenados será caracterizada a “pizza suprema”. Sem a cabeça de Dirceu, nada feito. Parece que os advogados do petismo dentro do STF _ e já ficou óbvio quem são _ trabalha com essa hipótese: joga-se os bagrinhos ao sacrifício para salvar os sacerdotes. Joga-se fora os anéis para preservar os dedos.

Outros defendem que apenas o fato de haver o julgamento já é uma vitória contra a impunidade. Afinal, nunca se viu um esquema de corrupção desse ser julgado com tanta exposição. Mesmo o julgamento do ex-presidente Collor se deu de forma muito mais discreta, fora dos holofotes. Nesse caso não, o julgamento está em cada esquina. O próprio Ali Babá ex-presidente Lula teve que se defender no New York Times.

E você leitor, o que acha? Existe um resultado aceitável para o julgamento? Qual seria?

A metamorfose da ideologia

Existem diversas interpretações para “A Metamorfose” de Kafka. Muitas partem da constatação que o estranho episódio de Gregory Samsa, que inicia o livro recém transformado em um inseto, é uma alegoria que pode significar muita coisa. Pode ser uma doença terminal de um membro da família, um crime cometido que transforme esse membro em criminoso, uma mudança brusca que mude sua condição; enfim, não há limites para a imaginação.

Lendo as páginas desta obra Kafka escreveu aos 29 anos, algo me soou estranhamente familiar mas não soube precisar exatamente o que. Refletindo, cheguei a conclusão que essa alegoria estaria baseado em alguns pontos:

  1. Algum membro da família sofre uma brusca transformação;
  2. essa transformação o deixa irreconhecível;
  3. de provedor da família, se torna um peso que deve ser sustentado por todos;
  4. a família nutre alguma esperança que volte a ser o mesmo de antes;
  5. a família reduz o contato ao mínimo e não quer expô-lo na sociedade;
  6. esse membro que sofreu a transformação não questiona seu estado, acha tudo muito natural;
  7. finalmente, convencido que esse estado é irreversível, desejam sua partida por não reconhecer mais na criatura o membro perdido.

Baseado nessas idéias, procurei algo que se encaixasse nesse esquema mental. Que transformação alguém poderia sofrer para gerar este estado de perturbação no seio de uma família? Uma das respostas possíveis me ocorreu de imediato: a ideologia. Seu principal exemplo, o marxismo, mas serve o nazismo tamanho a semelhança entre eles.

Imaginem uma pessoa da família que de uma hora para outra se converte _ e uso esse termo sem metáfora _ ao credo marxista. Passa a repudiar todos os valores que foram cultuados em seu lar, em sua sociedade. Fala coisas estranhas sobre teoria do mais valia, luta de classes, dialética materialista, teoria do valor-trabalho. Como Gregory, o que lhe parece claro é para sua família incompreensível. Suas roupas, seu modo de vestir, barba, talvez até a falta de banho, tudo contribui para que não o reconheçam mais. Onde está aquele filho, aquele irmão?

Passa a gritar contra a exploração do homem pelo homem, muitas vezes abandona o emprego burguês e se recusa a fazer parte da sociedade. A família tem que sustentá-lo enquanto aguarda que retome o juízo. Tentam não contrariá-lo, mas não desejam que apareça na sociedade, querem escondê-lo. Esse membro, por seu lado, não vê nada de errado com sua transformação. No fundo, como Gregory, continua a mesma pessoa, pelo menos acredita assim. Passa a ter gostos diferentes, se comportar de outra maneira, mas nada que não seja adequado à sua nova condição.

A família sofre, quer vê-lo de volta. Depois de um tempo, se acomodam, começam a perder a esperança. Conversam em segredo, Gregory só consegue ouvir partes sussurradas e breves. Por fim, uma crise, um confronto. Passam a ter medo dele. É nesse momento que alguém da família, como a Greta do livro, levanta o ponto que todos temem em reconhecer: nosso erro foi achar que essa criatura é nosso Gregory. Não é. Gregory já morreu e quanto mais depressa nos convencermos disso, mais rápido poderemos prosseguir com nossas vidas. Precisamos nos livrar dele.

Essa narrativa aconteceu com muitas famílias ao redor do mundo, e pode se encaixar com muitas correntes ideológicas: marxismo, nazismo, totalitarismos de toda espécie, até mesmo o ateísmo militante. Quando um membro da família abraça uma dessas causas que limitam a capacidade do pensamento humano, e por consequência, a própria condição humana, a metamorfose está feita. Voegelin alertava que um dos problemas da ideologia é que seu mundo se torna extremamente limitado e tudo na realidade que não se encaixa no novo credo é excluído do mundo, como se não existisse.

A vantagem da vida real sobre a alegoria de Kafka é que alguns metamorfosiados acabam acordando e retomando o sentido de realidade. Outros levam seus delírios para o túmulo, passando o resto de suas vidas como insetos, rejeitando parte importante do que nos torna humanos.

Não sei se Kafka quiz dizer algo remotamente parecido com isso, mas que para mim faz todo o sentido, hora se faz!

De todos os fragelos da humanidade, naturais ou não, a ideologia socialista foi a pior de todas. Basta contar os cadáveres. E mesmo com tudo isso, sua força é tão poderosa, que há ainda uma multidão que consciente ou não a defende. Incapazes de romper a metamorfose que sofreram.