Discurso político em Aristóteles

Em retórica, Aristóteles ensina que um dos tipos de discurso é o político ou deliberativo. Trata-se das discussões que tem por finalidade decidir sobre uma ação prática a realizar. Nesse caso, o principal parâmentro de julgamento é a utilidade, e não o que é bom.

Isso faz toda a diferença e mostra um dos problemas das discussões econômicas de hoje. Existem pessoas que pretendem decidir as ações a serem tomadas por sua bondade e não pela utilidade. Bastiat talvez tenha sido o primeiro economista a chamar atenção para o fato, não exatamente nos parâmetros de Aristóteles, mas com sentido semelhante. No caso ele colocava “o que se vê” (bom) diante do ” que não se vê” (utilidade).

Um exemplo simples seria uma medida que aumentasse todos os salários em 10%. A primeira vista, para muita gente, seria uma excelente decisão pois é bom ter o salário aumentado. Aumenta a renda da família, pode-se comprar mais, etc. Só que como fica a questão da utilidade?

No mundo real, as pessoas que rendem no limite de seu próprio salário ficariam sem emprego, pois não mais compensaria para seus empregadores permanecer com seu trabalho. Aliás, alguns empregadores talvez fechassem as portas, pois não conseguiria mais arcar com seus custos. Possivelmente os preços poderiam aumentar pelo aumento da demanda (mais dinheiro no bolso de todo mundo), e pelos custos de produção (maiores salários). O resultado já se viu na história, principalmente na América Latina: inflação. Em outras palavras, o próprio salário aumentado seria corroído pela desvalorização do dinheiro.

Um dos problemas do mundo pós-moderno, ou do mundo de hoje, é que a mídia onipresente e cada vez menos culta, só consegue ver esse primeiro nível, ou seja, só consegue julgar as opções econômicas pelo critério do bom. Aumentar impostos dos ricos é bom, deixar uma empresa quebrar é ruim, proteger a indústria nacional é bom, assim por diante. Poucos conseguem julgar essas opções pela sua utilidade. Aumentar impostos dos ricos é útil? Vai aumentar a arrecadação? Vai solucionar problema de déficit? Terá efeitos colaterais?

São essas as perguntas que se deve fazer em um discurso político e não se é justo tal medida. A questão da justiça tem a ver com outro tipo de discurso, apropriadamente chamado de discurso jurídico. No político, o que vale é a utilidade. O que não implica que os fins justifiquem os meios, como alguns loucos pensam nos últimos séculos. O crivo moral continua a existir. Implica que algumas medidas, embora justas no princípio, podem se revelar inúteis ou pior, gerar exatamente o efeito contrário.

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2 comentários sobre “Discurso político em Aristóteles

  1. Rapaz, eu li a obra. Ele diz que ao discurso político importa o “bom” e “viável”. Essa questão de utilidade não lembro ser falado lá. Ainda, Aristóteles fala em virtudes e vícios, os quais permeiam todas suas obras. Não deixou a política fora desse paradigma. Essa questão de utilidade parece-me ser mais moderna.

  2. No Capítulo 6, Aristóteles coloca: “a meta do orador deliberativo ou político é a utilidade. A deliberação procura determinar não os fins, mas o significado dos fins, isto é, o que é mais útil de se fazer. Ademais, a utilidade é uma coisa boa. Portando, devemos estar certos dos principais fatos da Bondade e Utilidade em geral”.

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