Um pitaco nas cotas da universidade

A discussão sobre as cotas na universidade parece que está só começando.

Um lado argumenta que os alunos mais pobres frequentam _ em sua maioria pois há exceções _  as escolas públicas, geralmente de pior qualidade, como evidencia bem o relatório divulgado ontem. Dessa forma, para promover a igualdade, é preciso estabelecer cotas para os alunos oriundos destas escolas. Ao mesmo tempo, sabe-se que há uma representação desigual de negros entre os mais pobres. Para resolver dois problemas de injustiças históricas, deve-se conceder a cota para a escola pública e, dentro dessa cota, estabelecer outra pela cor da pele.

O outro lado argumenta que as cotas vão provocar uma entrada em massa de alunos não qualificados o que resultará na queda do nível de ensino ou em uma reprovação em massa no primeiro ano, gerando um déficit de profissionais no futuro.

Leibnitz dizia que em uma discussão as pessoas geralmente estão certas no que acreditam, o problema é a pressa em rejeitar o que não acreditam, o que nem sempre está em conflito com suas próprias idéias.

Mais uma vez estão discutindo as consequências e não as causas. Qual o quadro universitário brasileiro? De maneira geral:

  1. alunos de maior renda estudam nas melhores universidades, normalmente públicas e pagas pelo contribuinte;
  2. alunos de baixa renda, quando estudam, optam por cursos pouco procurados em universidades públicas, com remotas possibilidade de aplicação, ou pagam os olhos da cara pelo ensino particular;
  3.  as universidades particulares dividem-se em dois grandes grupos: um voltado para um ensino de elite, primando pela excelência, e outro, em número bem maior, oferecendo cursos de baixa exigência para atender os alunos da classe C, que normalmente trabalham para pagar os estudos e só estão interessados no diploma;
  4. aliás, em geral o aluno universitário só se interessa pelo diploma;
  5. boa parte, principalmente os alunos de maior renda, encaram a universidade como um caminho para o concurso público. O curso é um detalhe. E um diploma;
  6. quem trabalha só consegue estudar em universidade particular pois, por questões ideológicas, as universidades públicas fazem de tudo para atrapalhar a vida do aluno neste sentido;
  7. curso noturno, apenas particular pelo mesmo motivo anterior.

Em resumo: aluno rico tem os estudos custeados pelo contribuinte, aluno pobre se vira para pagar o seu.

Se os melhores alunos são os de maior renda, só há três opções:

1 – acabar com a gratuidade nas universidades públicas e substituir por bolsas para os alunos mais pobres mantendo a meritocracia, ou seja, aluno rico paga sua faculdade, privada ou pública.

2 – melhorar o ensino público para que os alunos de baixa renda tenham melhores condições de competição;

3 – forçar os alunos de maior renda para as universidades particulares, reservando as públicas para os mais pobres.

O governo simplesmente optou pela terceira. A primeira, que seria a mais lógica, mexe com os ideológicos de esquerda e a segunda dá muito trabalho e exige competência.

Quer saber? Estou achando muito divertido essa estória de cotas. No médio prazo vai melhorar as universidades particulares pois vão enfim receber melhores alunos para trabalhar e vai cair o nível das públicas, que se mantém nesse patamar apenas porque competem em condições desleais com as particulares. O bom aluno tem que decidir se paga milão para estudar na particular ou zerão na pública. Assim fica fácil, né?

Sobre a parte das cotas para cor da pele, acho uma discriminação contra os negros. Pior, no longo prazo vai colocar um rótulo que nunca tiveram.  Esse é o verdadeiro racismo.

O que não pode é um assalariado pagar imposto para custear os estudos de quem não precisa ser custeado. O resto é conversa.

O governo vai acabar acertando. Sem querer, lógico.

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2 comentários sobre “Um pitaco nas cotas da universidade

  1. Jr,
    vc desenvolveu a “tese” criada pela Wal (my baby) essa semana. Ela está no primeiro científico, ou seja… vestibular passou a fazer parte do seu dia a dia.
    E ela concluiu isso (item 3 – final), que dentro em breve estaríamos iguais aos americanos, com a classe média economizando para pagar o curso superior dos filhos. A diferença é que durante todo período escolar (ensino fundamental e médio) os americanos possuem ensino público de qualidade, e nós pagamos escolas particulares desde o maternal dos nossos…
    Temos sim boas universidades particulares, cito no momento as PUCs, mas… estamos longe de ter uma Harvard ou Yale.
    Enfim, para classe alta… toda discussão de cotas é indiferente.
    Para a classe média… significa mais custos, afinal que me lembre os impostos que pagamos é que sustentam o país e consequentemente as universidades federais.
    E os pobres… bem, devido ao baixo nível nas escolas públicas, o que antevejo é a destruição lenta e gradual das universidades públicas, devido ao baixo nível educacional.
    Pode apostar que logo vai surgir “aprovação automática” nos cursos mais difíceis para os cotistas… espere só.
    No chute, aposto 20 anos, uma geração completa, para que nossas universidades federais se tornem… fábricas de canudos em massa.
    Ter um diploma universitário público e nada… será a mesma coisa, pouco importa a cor da pele de quem possui essa porcaria.
    Os que investiram na criação de faculdades privadas no país (o boooom se deu após o Fernando Henrique e virou o melhor negócio nacional – depois de ser dono de bancos – no governo Lulesco) agradecem penhoradamente a toda esquerda festiva. Chega a ser engraçado ver esses pseudo-socialistas fazendo a alegria financeira da iniciativa privada, rs.

  2. Pois é Geísa, com certeza significará mais custos para a classe média. De minha parte já estou guardando dinheiro para a faculdade dos meus filhos, independente dessa questão de cotas. Sinceramente, não faço a menor força para meus filhos estudarem em uma universidade pública, principalmente aqui em Brasília. O ambiente está péssimo, desde a pregação ideológica até as verdadeiras gangues que se formaram lá dentro. Não é o tipo de lugar que gostaria de ver um filho adolescente.

    Temos que considerar também que não existe almoço grátis, como ensinava Milton Friedman; o que implica que não existe universidade gratuita. Pode ser grátis para quem estuda, mas alguém está pagando e esse alguém é o tal de contribuinte. O que inclui, e pesadamente, os mais pobres. Tudo porque nosso modelo tributário incide principalmente sobre o consumo e justamente os mais pobres comprometem mais suas rendas em consumo. Pouca gente sabe, mas até sobre empréstimo você paga juros.

    O problema continua. Basta ver o estacionamento de alunos do curso de medicina de uma grande universidade pública. É inacreditável o que você vê ali. Como pode um assalariado custear o estudo de um aluno que chega de carro de luxo e que ainda protesta contra… o capitalismo! É muita hipocrisia!
    Eu tenho um exemplo aqui em casa. Minha empregada faz faculdade de biologia. Particular! Eu vejo o tamanho do sacrifício que ela faz para conseguir pagar o curso. Simplesmente não tem lógica!

    Acho que as mensalidades poderiam ser mais baratas, mas isso depende do mercado, de uma livre concorrência, que não ocorre hoje porque o estado faz uma concorrência desleal com as universidades particulares.

    Não sei qual é a solução, mas o que fazemos no Brasil está muito errado. Nosso modelo é exclusivista e contribui para aumentar ainda mais o abismo entre ricos e pobres no país. As cotas ainda vão bagunçar ainda mais o coreto.

    Mas talvez o coreto precise mesmo de uma boa bagunça.

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