Uma jornada de redenção

A Fraternidade é Vermelha

Valentina é uma jovem modelo que tenta ocupar sua vida enquanto o namorado está em viagem. Acredita no papel da sorte em nossas vidas e tenta ter uma visão otimista sobre tudo.

Um juiz aposentado  vive isolado em uma casa de uma pequena vila, nos arredores de Paris. Seu passatempo é espionar seus vizinhos, principalmente pela intercepção telefônica. É um homem amargurado, que não acredita na bondade humana.

O destino os coloca frente à frente e uma improvável amizade começa. Um confronto de duas formas opostas de ver a vida se estabelece, uma própria da desilusão e outra própria de quem ainda tem muita esperança na humanidade.

O que teria levado o juiz a um estado de completa desesperança pelo ser humano? Seria o contato constante com tudo que é ruim na sociedade por sua profissão? Ou talvez tenha lhe faltado um contraponto adequando em sua vida para contrabalançar com tudo que viu nos tribunais?

Em um dos primeiros diálogos ente eles, conta a Valentina que se dedica agora a conhecer a verdade e não mais decidir o que seria a verdade. Mas será este o real motivo que move o juiz a espionar seus vizinhos.

Ao mesmo tempo, existe Auguste, um jovem que parece ter uma vida quase que se cruzando com a de Valentina. Trata-se de Auguste, que estuda para uma prova de magistratura e namora uma das vizinhas do juiz. Valentina vê na conversa captada uma celebração do amor; o juiz afirma que a mulher o abandonará logo.

O que move Valentina? De onde extrai seu otimismo pela vida? Separada do namorado, leva uma vida solitária, intercortada apenas pelas ligações telefônicas com o namorado. Possui um irmão envolvido com drogas e o próprio relacionamento dá sinais de fadiga. No entanto, nada disso parece abalar suas convicções. Aberta para uma relação com o mundo, mostra-se acima de tudo solidária com o próximo, seja a cadela que atropela no início do filme ou o próprio juiz. Trata-se da fraternidade, tema do filme, a conexão que temos com outro que nos compele a ajudar, independente do interesse.

O cineasta polonês Krzysztof Kieślowsk fez um filme principalmente de sentimentos e algumas situações aos poucos se mostram mais metafóricas que reais. Os símbolos são inúmeros. Além do óbvio vermelho, presente em quase todas as cenas, temos o telefone, representando a conexão entre as pessoas, o abandono de cachorros, que pode significar o abandono da vida (o que Valentina não faz, ao contrário, cuida de um), até mesmo uma bateria arriada (desilusão?). O telefone sem fio, uma inovação que ganhava força na época do filme, é uma metáfora para uma maior fluidez do relacionamento da modernidade. Não por acaso o filme começa com uma ligação de Valentina para o namorado, que acaba no sinal de ocupado, mostrando que ele poderia estar fechado para ela.

O juiz percebe que necessita de um processo de expurgo, de admissão e penalização por seus pecados. Só assim poderá alcançar a redenção e a paz para enfrentar o final de sua vida. Valentina é a possibilidade que surge para ele, através de Auguste. Mas quem de fato é Auguste? É real ou uma projeção do próprio juiz? São perguntas que Kieślowsk deixa para o espectador.

O filme é belíssimo e intrigante, com uma espetacular atuação de Trintignant como o juiz aposentado. Um filme carregado de emoções contidas e coincidências (milagres?), que nos colocam no caminho da redenção de nossos pecados. Uma redenção que vem através da solidariedade do nosso semelhante, da fraternidade. Um filme sobre moral sem ser moralista. Uma verdadeira obra de arte.

 

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