Manual do fabricante

Uma vez um grande amigo meu definiu a Bíblica como o manual do fabricante. Nunca esqueci essa definição, que por sinal veio a minha mente várias vezes enquanto lia o primeiro de seus livros, Gênesis.

Nos últimos anos tenho me dedicado algum tempo à leitura da Bíblia. Não estou lendo os livros na ordem, nem segundo alguma indicação. Nem mesmo aleatoriamente. Na verdade meu método é simples, leio os livros à medida que algo me inspira a ler um livro em particular. No caso da Gênesis, foi uma explicação do Olavo de Carvalho sobre a árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

Dos livros que li, talvez a Gênesis seja o que mais se aproximou da definição do meu dileto amigo. É simplesmente uma coletânea sobre a condição humana. Já escutei argumentos que a Bíblia não pode ser considerado um livro religioso porque tem tudo de ruim que um homem pode fazer. Pois eu inverto a questão, talvez seja um livro religioso, até mesmo santo, por justamente conter tudo de ruim que um homem pode fazer. Só que não justifica nenhum desses pecados, pelo contrário, há uma nítida pedagogia moral que caminha no sentido das virtudes, culminando nas chamadas virtudes cristãs.

Mas o Gênesis ainda está muito longe da chegada de Cristo; ainda temos o homem em seus primórdios.

Boa parte da incompreensão de sua leitura está no aspecto literal da coisa, esquecendo que trata-se de um livro de experiências de fé e religiosidade. A preocupação com a exatidão histórica e científica não é seu principal foco, embora haja uma nítida preocupação com um esboço de sequência histórica, algo talvez inédito na humanidade.

No Gênesis temos de tudo um pouco: assassinatos, incestos, prostituição, vingança, fanatismo, poligamia, estupro, e por aí vai. Desde a queda de Adão, passando pela morte de Abel, terminando com José, poderoso no Egito. Aliás, é interessante que em troca dos alimentos que por sua atuação o governo egípcio guardara para os sete anos de carestia, José tenha escravizado quase todo o país. Talvez seja a primeira mostra do quanto custa a ajuda do Estado!

Comprou assim José, para o Faraó, todos os terrenos do Egito, pois os egípcios venderam, cada qual, o seu campo, tanto os impelia a fome, o país passou às mãos do Faraó. Quantos aos homens, ele os reduziu à servidão, de uma extremidade a outra do território egípcio.

O Gênesis é interessante porque realmente retrata a condição humana. Praticamente não escapa ninguém, todos têm seus pecados, mas conseguem se sobressair ao meio em que vivem, mostrando que o homem sempre pode superar a si mesmo e ao mundo ao seu redor. O próprio José que chega ao Egito como escravo, consegue se tornar o segundo homem do país, atrás apenas do Faraó. Um dos seus méritos foi nunca ter se revoltado, ao contrário ter no próprio esforço, e na abertura para a intervenção divina, encontrado os meios para superar sua condição. Mais ainda, mesmo em uma época rude, como todo poder que tinha, foi capaz de perdoar os irmãos que o tinham vendido.

Olhando para os tempos de hoje, onde se procura a toda hora colocar nos outros ou na situação a culpa pelos próprios fracassos, o Gênesis é um sonoro tapa na cara. Outro exemplo de perdão, o de Esaú a seu irmão Jacó, que o enganara obtendo junto ao pai os direitos de primogenitura.

Não se pode esquecer que esses fatos narrados no Gênesis, e na Bíblia, não são defendidos pela religião cristã ou judaica, ao contrário, são muitas vezes punidas por Deus. Daí seu aspecto pedagógico, Deus vai através da história realizando o ensino moral. Se no início a poligamia era tolerada, logo se torna uma anátema. Assim como o olho por olho de origem babilônica se torna o evangelho do perdão.

Os livros da Bíblica são tão ricos, e com tantos significados, que podem ser lidos dos mais variados pontos de vista. Um livro religiosos, um livro de sabedoria, um livro histórico (ainda que imperfeito), um livro pedagógico, uma coleção de estórias e arquétipos da condição humana. Quem vive no Ocidente e nunca parou para ler seriamente suas páginas, não tem como compreender a verdadeira natureza da sua própria cultura.

O Gênesis é o começo dessa estranha estória, como definiu com muita propriedade Chesterton. A mais estranha estória já contada sobre a terra. Uma estória que começa com a aliança entre um Deus único com o homem, representado por Abraão e o povo hebreu. A eles foi dada a missão de conduzir o homem para o caminho do bem, para junto de Deus.

E mais uma vez os homem falhariam. Mas essa é outra estória.

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