Direita não é sinônimo de desvio moral

Por que virei à direita?

João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield

 

Coutinho, Pondé e Rosenfield tem em comum o fato de serem intelectuais de lingua portuguesa. Além disso, dividem o fardo de não serem de esquerda, o que automaticamente os colocam como de direita, considerando a direita sempre como um bloco único. É engraçado, a esquerda sempre tem uma infinidade de divisões, mas a esquerda é sempre única! Vai entender!

Outra coisa em comum entre eles, é que todos foram de esquerda em algum momento da vida, e terminaram por virar a direita, pelos mais variados motivos; o que implica que ir para a direita, se é que cabe ainda essa distinção, pode ser uma decisão racional e não um desvio moral como muita gente pensa.

Coutinho concentra seus argumentos em uma  longa tradição de pensadores conservadores como Edmund Burke, Oakeshott, Raymond Aron. Para ele, ser de direita é uma condição natural do cepticismo e pluralismo de suas idéias mais básicas. Ele duvida que a razão humana possa ser capaz de levar o mundo para uma situação de perfeição e usa os termos propostos por Oakeshott para diferenciar a esquerda (política da fé, uma crença em um ideal de perfeição fruto do uso da razão) da direita (política do ceticismo, dúvida da capacidade do governo de solucionar os principais problemas humanos). O governo é visto como uma necessidade e não como uma fonte de solução, por isso deve ser resumido a um papel mínimo. O plurarismo é consequência de uma visão que diferencia valores primários, como a integridade da pessoa humana, de valores secundários.

Pondé vai mais a fundo no aspecto filosófico, recorrendo muitas vezes aos símbolos bíblicos para explicar a c0ndição humana, o que é surpreendente considerando que é um filósofo ateu. Independente da origem sagrada da Bíblia, considera que trata-se do livro que melhor captou a condicão do ser humano e por isso é de uma riqueza incomparável. O homem tem uma inveja natural de Deus, por seu potencial criador e imortalidade. Restata uma idéia de Burque em que a sociedade é uma comunidade de almas, reúne vivos, mortos e os que ainda não nasceram. A tradição é a comunicação dos mortos com os viventes. A democracia é uma tensão contínua entre liberdade e igualdade; considerando que os homens não são iguais, a busca de sua igualdade absoluta contraria a sua própria natureza. No certe do pensamento da esquerda está a fuga da responsabilidade moral do homem, a fuga de sua própria condição. Ser de direita é estar do lado da sociologia das virtudes e se opôr à ideologia da razão, como defendia Himmelfarb. A política moderna nada mais é do que um delírio da razão.

Finalmente Rosenfield mostra que sua guinada para a direita teve sua origem na aplicação prática do pensamento da esquerda, particularmente na experiência que teve ao acompanhar o orçamento participativo implantado pela prefeitura petista de Porto Alegre. O que viu foi, sob o argumento de participação direta da sociedade, um grupo reduzido de militantes reunindo-se para decidir o emprego dos recursos públicos como se fossem representantes da sociedade, e não os vereadores eleitos para este fim. As ligações do PT com o narcotráfego, a idolatria de Fidel Castro e Hugo Chávez, as práticas cada vez mais autoritárias dos petistas no poder, tudo isso contribuiu para mostrar a imensa distância do discurso com a prática. Não se pode nem dizer que é um fenômeno brasileiro, tendo em vista a atração dos intelectuais do mundo inteiro com os praticantes da violência como Stálin, Mao, Khomeini, Guevara, e tantos outros que mataram em nome de um ideal político.

Estes três intelectuais mostram nas poucos páginas do livro que existe uma fundamentação racional pela opção de estar a esquerda do debate político. Não se trata simplesmente de uma queda moral, ou um desvio de caráter. O pensamento de direita tem princípios e podem ser defendidos em qualquer debate, mesmo que muitas vezes não tenha o apelo emocional que muitos argumentos da esquerda possui. Como disse Coutinho, ser de esquerda é tentador e muito mais fácil. O problema é a tal realidade.

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