A pobreza intelectual brasileira

Se querem um exemplo da pobreza intelectual brasileira, escutem o debate entre Dinesh D’Souza e Susan Jacoby no Kings College sobre o papel da religião na política. O tema do debate foi “o cristianismo é bom para a política americana?“.

O que se viu foi um debate de alto nível entre Dinesh, que defende o direito da religião fazer parte do debate político como todo o resto e Jacoby, que defende que a religião deve ser um assunto eminentemente privado pois o espaço público deve ser secular.

Durante duas horas eles discutem a intenção dos fundadores do estado americano, papel da religião na história, limites, crenças, símbolos religiosos, a religião nas escolas, etc. Discordem em praticamente tudo. A fórmula do debate também mostra porque nossos debates políticos, que se resumem em eleições, são ridículos e desestimulantes. Sim, existiam as regras básicas, mas eram flexíveis o bastante para permitir que volta e meia ambos se aguissem sobre vários assuntos.

Quem tiver paciência de anotar os argumentos de parte a parte terá uma excelente base para realizar um estudo dialético sobre o tema. Não vou tratar neste post sobre o que acho do assunto, o tema na verdade é o profundo sentimento de inveja em escutar um debate nesse nível. No Brasil é algo impensável pois temos raríssimos intelectuais que fazem jus ao nome. Como debater em um país onde Chico Buarque, Emir Sáder, Rodrigo Constantino e etc são considerados intelectuais? Em um país onde debater significa vencer o adversário em uma luta?

A coisa mais próxima de debate que temos por aqui ainda está no nível factual. Se o governo deve aumentar os recursos para educação, se o mensalão existiu, o que o PSDB deve fazer para ganhar eleição, quem deve ser o candidato tal, e por aí vai. Nunca vi uma discussão nesse nível sobre os limites do estado, o papel do governo, o que carateriza um regime democrático, o papel da religião na política brasileira, a legitimidade da questão do aborto em um debate político, e por aí vai. Ao contrário, a crença é que não se discute futebol, política e religião.

Parabéns aos dois debatedores, independente das convicções de cada um, pela civilidade e clareza de argumentação. Quem sabe ainda teremos condições de chegar nesse nível.

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Um comentário sobre “A pobreza intelectual brasileira

  1. Interessei-me pelo seu texto, pois, compartilho dos mesmos princípios. Escrevi algo que não sei se conseguirei publicar, mas, dei chance (a minha individualidade) escrever uma breve reflexão a este respeito. Acabei por citar o seu nome e trabalho numa publicação no face (público e nos grupos privados).

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