O Trivium: uma arte perdida?

As artes liberais denotam os sete ramos do conhecimento que iniciam o jovem numa vida de aprendizagem.

Um conceito que foi formulado no período clássico, mas que foi sistematizado na Idade Média, foi de que haveria a necessidade de se preparar para o ensino realmente superior. Essa preparação teria como base as 7 artes liberais, três voltadas para a mente e quatro para a matéria. Neste post, trato das três primeiras, conhecidas simplesmente como trivium.

Aristóteles, e depois os escolásticos, acreditava que antes de iniciar qualquer estudo superior, o estudante deveria aprender três ramos do conhecimento, que seriam básico para tudo que viria depois. Hoje alguns pedagogos concluíram que com as rápidas mudanças produzidas pela tecnologia, é preciso ter um núcleo (core)  de conhecimentos que possibilitaria aprender todo o resto por esforço próprio. Depois de alguns séculos de muito estudo os pedagogos descobriram o que Aristóteles já sabia há mais de dois mil anos! Só falta agora descobrirem que é justamente o trivium, que balizou todo o estudo da Idade Média, os bárbaros!

Começando com a mente, o conhecimento começa com a própria arte de pensar, assunto pertinente à lógica. Simultaneamente, é preciso representar o pensamento através de símbolos, a gramática. Por fim, é preciso comunicar o pensamento, temos a retórica.

Ou seja, para estudar qualquer assunto a sério, é preciso ter conhecimentos de lógica, gramática e retórica. Sem esses conhecimentos temos um fenômeno muito típico do Brasil, o analfabetismo funcional. Em outras palavras, o brasileiro lê mas não entende o que lê. Tudo que nosso sistema de ensino consegue produzir ao longo de 11 anos na escola são rudimentos da gramática, operações mecânicas com números e algo parecido com uma redação. Em resumo, o produto do sistema educacional brasileiro é um aluno incapaz para o verdadeiro ensino superior.

Quantos alunos universitários no Brasil conseguem entender as nuances da famosa frase de José Dirceu sobre o mensalão: estou cada vez mais convencido de minha inocência. Boa parte seria capaz de perguntar o que está errado com ela! Como perceber uma ironia, uma metáfora, a diferença de um substantivo de um adjetivo!, sem um conhecimento de gramática?

Aliás, nunca na escola me ensinaram a associação da gramática com a realidade, justamente o principal fundamento de toda esta ciência! Vomitaram substantivos, adjetivos, artigos, verbos, etc, e nunca ninguém explicou a ligação de um substantivo com substância, de adjetivos com acidentes, os predicados de uma substância!

E lógica? Anos de ensino de matemática, física, química, geometria e praticamente nada sobre lógica. Como um aluno vai perguntar como a reunião de pontos, que não tem dimensão, pode gerar uma reta, que incrivelmente tem dimensão? Como vai conseguir identificar uma contradição lógica em um discurso como a famosa e vazia de significado frase tudo é relativo?

Retórica então é até pior, pois é vista como algo pejorativo, de enganação, quando em seu sentido original, conforme proposto por Aristóteles, significa simplesmente a arte de convencer, de transmitir um pensamento. Como toda técnica pode ser usada por motivos nobres e por outros nem tanto, como nos ensinam os políticos em ano eleitoral.

Como podemos ter sociologia no primeiro grau, filosofia no segundo, quando nossos alunos não conseguem compreender o que estão lendo? São vítimas indefesas de molestadores profissionais quando bastariam algumas noções de lógica para perceber que o marxismo, por exemplo, é insustentável pois seus princípios são completamente equivocados?

O pior que a perda da capacidade de estudar com efetividade os diversos assuntos se perdeu no mundo todo. Não que a pessoa seja incapaz de aprender, mas terá uma gigantesca dificuldade a começar por uma tendência em acreditar em tudo que lê ou apenas no que coincide com seus conceitos recebidos pelo seu ambiente cultural. O desafio é gigantesco!

Só agora, quase aos quarenta, é que começo a me deparar com estas questões. Nunca é tarde para começar. Basta ter amor à verdade e recusar a ilusão.

Esse foi o caminho que escolhi.

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9 comentários sobre “O Trivium: uma arte perdida?

  1. Muito bom o artigo. Comprei recentemente o livro O TRIVIUM da irmã Miriam Joseph, e estou gostando muito de descobrir coisas novas sobre a arte de aprender e ensinar. Descobri o livro pela palestra do prof. josé Monir Nasser, que fez o prefácio do livro (indico outro livro que ele fez o prefácio também, “Como ler livros”, de Mortimer Adler). Parabéns pelo site, me identifiquei bastante.

  2. Obrigado Danilo,

    Como ler livros também é um destes livros essenciais, que mudam a forma como enxergamos as coisas. Altamente recomendado!

  3. Gostei muito de seu texto, Marcos! E vc tem razão: NUNCA é tarde pra começar. Sábio morre sabendo que não saberá tudo, rsrs

  4. Jeferson,

    Para entender sobre a insustentabilidade marxista, eu lhe recomendo a leitura de “Ação Humana” de Ludwig von Mises e de outros autores da Escola Austríaca de Economia.

  5. Tive o prazer de ler seu artigo, que faz jus à Proposta de Aprendizagem Significativa que ensino na minha Formação em Coaching para Educadores. Parabéns pela sutileza descritiva e emprego do propósito de ilustrar o Trivium. Também tenho 39 anos, e te convido a imaginar que o melhor ainda está por vir Parceiro ! Forte abraço.

  6. Sou estudante da Educação Clássica, mas discordo totalmente quando você escreve que as ideias de Marx são insustentáveis. Aliás, podemos dividir o mundo também em A.M e D.M. Não fosse os ideais Marxistas, continuaríamos sem saber que somos escravos desse sistema capitalista, que nos faz competir uns com os outros, em vez de colaboramos uns com os outros. O dia em que a classe média entender que também é trabalhadora, talvez mudem muitos aspectos da vida político-econômica-social deste país; uns dos problemas reside da classe média, esta que propulsiona o país para frente pelo pagamento de sua alta carga de tributos, acreditar que é classe alta, elite pelo fato de consumir, contudo, não passe da classe mais escrava desse sistema capitalista. Alessandro Ribeiro – Educador, pai, Homeschooling e estudante das artes clássicas.

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