Esportes e suas nuances

Como tenho assistido muito futebol americano, comecei a refletir um pouco sobre o que faz um esporte popular em um determinado país. É impressionante ver os estádios completamente lotados desde a primeira rodada do campeonato e verificar o contraste com nossa realidade no Brasil.

Não é segredo que os americanos simplesmente não conseguem compreender que o restante do mundo, inclusive a Europa, tenha o futebol como esporte mais popular, a ponto de seu evento maior, a Copa do Mundo, rivalizar com as Jogos Olímpicos. Aliás, dizem que a época do mundial é quando os Estados Unidos ficam estarrecidos com a locura do "resto do mundo".

Mas porque a diferença? Por que no Brasil temos a paixão pelo futebol bretão e os irmãos do norte são apaixonados pela bola oval?

Se pensarmos no nosso futebol, temos algumas características:

– Um jogo isolado é imprevisível. Não se trata apenas do time pior conseguir ganhar do time melhor, mas que um time pode ganhar um jogo jogando pior do que o perdedor! Para um americano, isso deve soar incompreensível. Como pode um time jogar pior e ganhar o jogo? Como fica o merecimento? Não seria uma injustiça? No futebol americano um time pior pode ganhar o jogo, mas necessariamente terá jogado melhor naquele dia específico.

– Estatísticas valem muito pouco. É fácil advinhar o ganhador de um jogo no futebol americano sem ver o placar. Basta pegar as estatísticas do jogo, jardas percorridas, corridas, posses de bola, etc. No futebol se um time chutou 1 bola no gol e o outro 20, o que chutou uma pode ter ganho! Aliás, pode ganhar sem chutar uma única bola no gol; basta ter um gol contra.

– No futebol um jogo completamente desequilibrado pode ser decidido em um único lance. Para que isso aconteça no futebol americano é necessário que o jogo seja equilibrado. Caso contrário, o resultado do jogo será construído ao longo de toda a partida.

– Um único jogador é capaz de vencer uma partida praticamente sozinho. Aliás, é capaz de ganhar uma copa! Coloque um jogador excepcional em um time, com jogadores esforçados e temos a Argentina de 86. Junte Romário e Bebeto e temos o Brasil de 94. No futebol americano, por melhor que seja, um jogador não consegue vencer sozinho. O jogo de equipe é fundamental. Cada jogador tem um papel a desempenhar e o nível de especialização chega ao absurdo. Tem jogador que nunca tocou e nem tocará na bola.

– Estratégia. É fundamental no futebol americano. No nosso, nem tanto. Técnicos medíocres, jogando na velha tática da padaria (defesa em bolo, ataque em massa), já ganharam campeonatos. Estratégia? Bola para o mato que o jogo é de campeonato.

Refletindo sobre tudo isso, não começo a pensar se o nosso futebol não é popular justamente porque é muito parecido com a vida real. Nem sempre o melhor vence. Nem sempre um bom trabalho é recompensado. Injustiças acontecem o tempo todo. Lances isolados podem definir um destino, colocar tudo a perder ou concertar o que está quebrado. Estatísticas? O impenderável pode destrui-las todas.

Já o futebol americano talvez seja o que melhor reflita a vida coorporativa tão cara aos americanos. A estratégia é fundamental para vencer. Há a divisão do trabalho, a especialização. O trabalho em equipe é chave para o sucesso. As estatísticas apontam o caminho a ser percorrido. O trabalho bem feito é recompensado no final.

São duas formas de ver a vida que se espelham na relação do indivíduo com o esporte. Ou não?

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