Passagem para a reserva. Uma data marcante para um militar.

Um militar não se aposenta, ele passa para reserva. Como sempre digo, palavras possuem sentido _ embora muita gente tente ignorar essa incômoda verdade. Existe motivos para que se use o termo reserva e não aposentadoria; o principal, talvez, seja que sempre existe algo de temporário, embora permanente, nesse afastamento. Contraditório? Paradoxal? Claro! Mas assim são as coisas de uma carreira em que se prepara para a guerra desejando que ela nunca venha; que se treina para matar desejando nunca fazê-lo.

O militarismo é algo tão profundo que qualquer sociedade faz a divisão entre militares e civis. O próprio termo civil ganhou significado por oposição ao militar, como ensinam os melhores dicionários. Não que um seja melhor que o outro, como pretendem alguns tolos, apenas que ser militar é algo de especial e até religioso. Para o bem e para o mal.

Enfim, um militar passa para a reserva.

Ontem assisti duas cerimônias em que dois militares deram um até logo para os que ficam por mais um tempo. Como prescreve o cerimonial, é lido um elogio em que os fatos mais marcantes da vida do que se despede. Formaturas longas costumam ser chatas, mas curiosamente a passagem para a reserva é diferente; fico sempre atento tanto ao elogio como, principalmente, às palavras de despedida. É uma vida que se passa em um rápido filme, mas que para quem viveu deve ser recheada de significado emocional. Em algumas das passagens narradas, em algum momento, eu cruzei com a vida deles. Quando por exemplo cita que fulano foi professor durante 10 anos no IME, fui seu aluno! Quando cita que deltrano foi chefe de tal Comissão, estive sentado à sua frente discutindo algum assunto que me levou até lá. Todos nós de alguma forma podemos participar da vida de outro, por mais breve instante que seja. Lembro que uma palestra protocolar de um general mudou praticamente parte de minha vida. Exercemos mais influências que imaginamos.

Nessa sexta, entretanto, comecei a me colocar no lugar dos dois que estavam partindo. Um dia chegará minha vez; assim espero. Mais cedo ou mais tarde estarei em pé escutando a leitura do meu elogio protocolar, revisando minha carreira, esperando para fazer minhas despedidas. O que estarei sentindo naquele momento? Que mensagem procurarei passar para os demais? Dizem que palavras em formatura não significam nada porque ninguém presta atenção. Mentira. Existem aqueles que não prestam, embora ouçam e gravem em seus inconscientes, e outros que escutam com toda atenção e procuram tirar lições. Depois de ambos os eventos haviam pessoas comentando as principais passagens, o que demonstram que nosso poder de influência existe, embora muitas vezes não nos demos conta.

Por fim, o fato de dois oficiais terem se despedido no mesmo dia, em duas cerimônias distintas, permitiu uma comparação. Fui um dos poucos que esteve presente nas duas. Ambos entraram e se despediram no mesmo dia. Tiveram uma carreira semelhantes até certo ponto, depois se diferenciaram bastante e voltaram a ficar parecidas no final. Semelhanças e contrastes, assim é a vida humana! Justamente esse conjunto de possibilidades que nos abre a cada escolha que nos permite uma riqueza de vivências. E fica nosso legado.

Um até logo aos dois chefes que se despediram. Com certeza aprendi algo com os dois, tanto nos contatos que tivemos como nesse momento específico, talvez o mais difícil (ou não) para um militar. A passagem para a reserva.

Até a próxima!

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