As Eruditas (Moliére)

O que acontece quando nos dedicamos aos saberes abstratos da filosofia e nos distanciamos da vida real? Quando a busca pelo conhecimento se torna um fim em si mesma e o conhecimento serve apenas para mostrar erudição? Quando o orgulho e a vaidade se tornam a mola mestra do estudo?

As eruditas do título são três. Filomena, esposa do bom burguês Crisaldo, é quem governa a casa com mão de ferro. A segunda é sua cunhada, irmã de Crisaldo, Belisa. A terceira é Amanda, filha de Filomena. As três vivem a ebulição do iluminismo francês e dedicam-se a uma vida intelectual, mas desprovida de qualquer relação com a realidade.

O conflito da peça é iniciado pelo desejo de casamento de Henriqueta, irmã de Amanda, com Cristovão, que fora pretendende de Amanda. A irmã erudita despreza o casamento por considerar uma instituição burguesa destinada a aprisionar as mulheres. Já antecipava ali os exageros de alguns tipos de feministas.

Crisaldo vê com bons olhos o casamento, mas Filomena quer casá-lo com Tremembó, um poeta presunçoso e sem talento que é idolatrado pelo trio de eruditas. A aparência toma lugar da essência, como muitas vezes acontece no meio intelectual. O encontro em que ele começa a recitar uma de suas poesias mostra mais do ambiente cultural brasileiro do que qualquer estudo de sociologia recente. A cada verso era interrompido pelo êstase pelas eruditas, da mesma forma que a maioria dos nossos críticos analisam as obras artísticas , sempre a partir do nome do autor. Dá até para ver o Marcelo Coelho da Folha lendo um livro do Chico Buarque…

Toda época inventa e acomoda
um cretino qualquer e o coloca na moda.

Outro momento impagável é quando o sarau é interrompido pela chegada de Vadio, um velho sábio. Ele e Tremembó passam páginas se elogiando, num reforço recíproco de egos, como é comum em nossa intelectualidade. Até que Tremembó pergunta se Vadio tinha escutado sua nova poesia. Sem saber quem era o autor, Vadio esculhamba  os versos, para o horror das eruditas. A partir daí, Tremembó e Vadio iniciam uma discussão de ofensas recíprocas mostrando o quanto um falso artista não aceita ter sua vaidade ferida.

Mas voltando ao tema do abstratismo, Filomena chega a demitir sua empregada pois esta não conseguia aprender a usar corretamente a gramática, mostrando os absurdos que acontecem com os falsos intelectuais, ou os intelectuais traidores de Julien Bendá.

Crisaldo, Henriqueta e Cristóvão representam o bom senso, que tentam relevar os absurdos das eruditas até que finalmente têm que enfrentá-las. Filomena reclama com Cristóvão que ele não daria valor a ciência e fazia apologia da ignorância. Cristóvão retruca:

O que a senhora afirmou merece atenuantes,
não sou contra os sábios, sou só contra os pendantes.
Não combato a ciência,
combato a impertinência
que se faz passar por ciência. Não sou contra a leitura
mas contra quem arrota uma falsa cultura.

A peça de Moliére é uma delícia, daquelas para ler em uma sentada. Pessoalmente me diz muito pois quando comecei a me interessar pela filosofia fui um pouco como as eruditas, buscava o conhecimento como forma de erudição. Felizmente fui salvo pelo curso do Olavo de Carvalho que me ensinou que a filosofia deve ter como base de partida os problemas reais, que nos causam interesse em examiná-los, e não uma simples busca de conhecimentos. Sempre me pergunto, ao ler um livro, o que pretendo com ele? Em que a sua leitura interfere em minha vida? A filosofia deve ser uma reflexão sobre a realidade com a finalidade de a compreendermos melhor e com isso termos mais condições de fazer a coisa certa.

O resto é coisa de erudito, como já sabia Moliére. Nas palavras de Crisaldo protestando contra a demissão da empregada:

A mim pouco me importa que quando está cozinhando,
ela coloque mal concordância e regência, diga palavras
grosseiras, solte palavrões,
e decline de forma errada: desde que não queime a
minha carne assada.
Me interessa mais a língua na panela
do que na boca dela.

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