Orestéia, um exemplo da divisões da retórica proposta por Aristóteles

Na peça Eumênides, depois de ser perseguido pelas fúrias, Orestes busca abrigo em Apolo. Elas não se conformam com a proteção e clamam por vingança pois Orestes matara a mãe para vingar o assassinato do pai, o rei Agamenón. Atenas, personificando a sabedoria, surge para resolver a questão. Após entender o que estava acontecendo, a deusa institui um tribunal, convocando juízes para julgarem Orestes pelo assassinato cometido.

O que se vê a partir desse ponto da peça é a exemplificação dos tipos de discursos retóricos descritos por Aristóteles em sua obra Retórica. Para o filósofo, a retórica trata da faculdade de observar os meios de persuasão disponíveis em um determinado caso. Em outras palavras, da arte de persuasão.

Em nossos tempos, a palavras assumiu uma conotação pejorativa, sinal de falta de substância real no discurso. É comum escutarmos nos debates políticos a crítica a algum candidato que teria apenas discurso retórico. Para os gregos, a retórica era o instrumento de persuasão por natureza, e como qualquer instrumento poderia ser utilizado para o bem ou para o mal. Não por acaso foi uma disciplina estudada até o fim da idade média, tanto para utilizá-la corretamente quanto para desmascarar as farsas. O importante é que a retórica poderia e deveria ser um instrumento da verdade e não uma forma de enganar alguém.

A retórica seria dividida em três tipos a saber: 1) político, 2) jurídica e 3) exibcional. Estes tipos referem-se ao receptor do discurso e tratam dos três tipos de tempo. O político estaria voltado par o futuro, o jurídico para o passado e o exibcional para o presente. Estes três tipos aparecem nos discursos proferidos durante o julgamento de Orestes.

Começando pela retórica jurídica, em que objetivo é persuadir o ouvinte sobre o que teria acontecido, inicia-se o julgamento de Orestes.

Segundo Aristóteles, o discurso político ataca ou defende alguém; uma das duas coisas são sempre feita por cada parte no caso. As partes visam o estabelecimento da justiça ou injustiça sobre determinada ação; todos os demais aspectos são subsidiários.

O objetivo é tentar saber o que aconteceu. Afinal, Orestes matou ou não sua mãe? Discute-se também as circunstâncias em que teria sido cometido o crime. No caso, Orestes teria sido persuadido pelo próprio deus Apolo para fazer justiça pela morte de Agamenón.

Corifeu: Dá a cada pergunta uma resposta lúcida; dize primeiro se mataste sua mãe.

Orestes: Matei-a sim, e não posso negar o fato.

(…)

Corifeu: Revela, então, como te atreveste a matá-la?

Orestes: Direi: com minha espada cortei-lhe a garganta.

Decidido a questão, incia-se a retórica exibcional, que tem por objetivo o presente; no caso, a culpabilidade de Orestes. Seu ato é digno de elogia ou censura? Foi justo ou não? Tratou-se de justiça ou vingança? Foi uma questão de honra ou um motivo de desonra?

Desta forma, o ato em si é julgado. Não se trata mais de definir o que aconteceu, mas do julgamento ético deste mesmo ato. Os parâmetros agora se refere à natureza da ação de Orestes e define-se o resultado do próprio julgamento; afinal, culpado ou não? Digno de elogio ou censura?

Orestes:

Dá-nos agora, Apolo, teu depoimento:

explica claramente se quando a matei

agi de acordo com os ditames da justiça.

Não vou negar a prática do ato em si,

mas desejo saber se em tua opinião

este homicídio pode ser justificado;

desfaze as minhas dúvidas e as dos juízes.

Orestes é absolvido mas as fúrias não se conforma e querem prosseguir em seu desejo de vingança. Atenas discute com elas e usa o terceiro tipo de retórica, a política.

Trata-se de uma discussão que tem por objetivo decidir a ação a tomar. Atenas quer persuadi-las de encerrarem de uma vez o processo vingativo.

Os argumentos referem-se à conveniência ou inconveniência da decisão que as fúrias tomarão. Devem prosseguir ou não? Quais as implicações?

Atenas:

Vossa vontade é derramar sobre esta terra

a vossa ira; peço-vos que reflitais

em vez de agir obedecendo aos vossos ímpeto;

não insistais em tornar este solo fértil

deixando de transbordar de vossos lábios sacros

uma espuma raivosa que destruiria

todos os germes produtores de alimento.

Nos três casos, o discurso retórico é adaptado para o objetivo. Quando se pretende determinar o que Orestes fez, pouco vale a conveniência do ato, que só passa a ter signficado após se concluir sobre o que aconteceu. O que fazer a partir daí, definido a culpabilidade de Orestes, é assunto político, mesmo que no meio de um tribunal. Os discursos não são totalmente estanques, mas para cada divisão da retórica alguns elementos serão preponderantes sobre os demais.

Um julgamento possui estes três tipos de retórica. Primeiro é preciso concluir sobre o que aconteceu; depois sobre o significado do ato; por fim, sobre a extensão da pena.

O julgamento de Orestes, portanto, é uma demonstração didática das três dimensões da retórica, e o mesmo acontece em qualquer julgamento legal. A mesma análise se dá sobre o julgamento do mensalão, que pode ser resumido em três questões:

1) O que os réus efetivamente fizeram?

2) O que significar os atos praticados?

3) Qual deve ser a pena a ser cumprida?

Aristótels sempre será estudado não só por sua importância histórica, mas pela atualidade de sua filosofia. Depois de milênios podemos observar que o mundo não mudou tanto assim.

O Remorso de Orestes
O Remorso de Orestes (Bouguereau)
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