Emília Galotti (Lessing)

Um príncipe libertino, entediado com a vida como governante, se interessa por Emília Galotti, filha de um velho Coronel representante da burguesia que se consolidava na Europa. A peça se passa no dia em que o príncipe fica sabendo não só que Emília se casaria com o Conde Orsini, mas que a cerimônia se daria em horas. Graças às maquinações do astuto Marinelli, que odeia o conde, o governante interfere nos planos da família Galotti.

Gotthold Lessing (1729-1781) escreveu esta peça em 1772, dentro do contexto dos choques cada vez mais frequentes entre a burguesia e a aristocracia, entre o poder econômico e o poder político. No entanto, Lessing é muito mais sutil, evitando as soluções fáceis e maniqueístas que divide o mundo entre bons (burgueses) e maus (aristocratas). O próprio noivo de Emília, o conde Orsini, é exemplo de honradez e caráter.

A crítica maior de Lessing é o poder absoluto que um monarca tinha sobre a vida das pessoas, o que se agravava quando faltava caráter moral para o governante e ainda mais quando era instigado por homens como Marinelli. Aliás, não é verdade que os monarcas tinham poder absoluto, normalmente esse poder era exercido pelo seu círculo de poder, que tocavam as decisões do cotidiano pois os príncipes estavam mais preocupados em viver suas vidas de luxúria, que geralmente significavam o tédio da própria existência.

O príncipe de Lessing é uma caricatura do príncipe de Maquiavel; a amostra do que seria um monarca desprovido de uma verdadeira moralidade, tomando decisões que afetavam o próprio trono pelos seus simples caprichos. Em um dos primeiros atos, o príncipe teria consentido em uma petição de uma certa Emília Bruneschi apenas pelo nome ser o de sua amada. Ainda no primeiro ato, muito mais grave, agitado pelos planos com Marinelli, recebe um conselheiro que lhe traz uma sentença de morte para assinar. O príncipe responde:

Com prazer. Passai-a para cá! Rápido!

O conselheiro fica horrorizado com a pressa do príncipe e finge ter esquecido os papéis. Depois, sozinho, refletiria:

Com prazer? Uma sentença de morte com prazer? Neste momento eu não teria ânimo de lhe entregar isso para assinar, ainda que se tratasse do assassino de meu único filho. Com prazer! Com prazer! Esse medonho ‘com prazer’ corta minha alma!

O principal mal do príncipe é deixar-se conduzir por Marinelli que sempre conta meia verdade sobre o que vai fazer, deixando para si bastante liberdade nas entrelinhas, executando atos que talvez o próprio príncipe não teria coragem de realizar. A fraqueza moral do príncipe se traduz em sua própria fraqueza como governante, tornando-se um joguete nas mãos de uma alta burocracia corrupta mas de coragem para a ação. São do príncipe as últimas palavras da peça:

Não será o bastante para a infelicidade de muitos que os fidalgos também sejam humanos; ainda é necessário que demônios se disfarcem de amigos?

Será que as questões levantadas por Lessing não seriam relevantes ainda hoje? Mesmo nos países democráticos, os governantes parecem ter mais poderes do que deveriam no contexto da divisão de poderes. No Brasil, por exemplo, o presidente nomeia quem quiser para o STF, tem o legislativo de joelhos e usa sem cerimônia as medidas provisórias. Os Estados Unidos estão no caminho com o uso cada vez maior das “executive orders” e o uso da maioria no Congresso para atropelar a minoria sem o menor espaço para discussão. A mídia transformou as eleições em um grande espetáculo, elevando os candidatos, e principalmente os vencedores, à condição de celebridades.  Na figura do presidente, ou primeiro-ministro, se canalizam todos os anseios de uma nação.

Talvez devessemos prestar mais atenção em seus círculos imediatos, nos Marinellis que utilizam do poder dos governantes para atingir seus objetivos pessoais e esquemas de corrupção. Não quero dizer que os governantes não tenham sua parcela de culpa, nem que muitas vezes comandem esses esquemas, mas sem essa camarilha na alta burocracia do estado jamais conseguiriam praticar a corrupção da política nos níveis que vemos hoje.

Se Lessing conseguia perceber o problema do excesso de poder nas antigas aristocracias, ficaria estarrecido com as novas, fruto da atividade política democrática. É essa desordem que um corajoso Odoardo Galotti enfrenta, chegando ao extremo para defender a verdadeira virtude, talvez até indo longe demais. Um homem como Odoardo jamais deveria ser colocado na posição em que ficou, jamais deveria ter que tomar atitudes tão extremas. Por isso o poder deve ser vigiado, assim como os governantes. Um lição que parece estar sendo esquecida aos poucos.

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