O Reino deste Mundo

Tive a oportunidade de integrar a missão de paz no Haiti por 8 meses, de novembro de 2008 até junho de 2009. Uma das coisas que aprendi  foi que sua independência se deu por uma revolução de escravos e que no processo, teriam matado todos os colonos europeus. Por causa disso, tiveram que começar do zero, pois não tinham uma elite de engenheiros, médicos, administradores, e etc, para constituir a classe dirigente na nova nação. Para complicar, a postura era de desconfiança com as demais nações, levando os haitianos a se fecharem economicamente e culturalmente. O Haiti foi estabelecido com uma língua própria, o creole, uma religião própria, uma mistura de cristianismo com vodu, e uma cultura inspirada em tradições africanas mas, que se misturavam com elementos da cultura européia.

Estes fatores teriam contribuído para a sua formação, assim como para o grau de violência e pobreza que marcariam sua história. Quando comecei a ler O Reino Deste Mundo, não tinha idéia de que o livro se tratava justamente do processo de independência do Haiti, apenas seguia uma dica de um dos meus tutores literários, o peruano Mario Vargas Llosa. O livro é do cubano Alejo Carpentier e o li em um único dia, fascinado.

O fio condutor da narrativa é o escravo Ti Noel, homem sem cultura e que interpreta sempre no nível dos sentimentos os acontecimentos que viveria. Participou dos primeiros levantes, principalmente por conhecer o primeiro líder a se revoltar, o escravo maneta Mackandal, que também se tornara um feiticeiro vodu. A estória narrada no livro começa no fim do domínio francês e segue até o reinado de Henri Christophe, primeiro rei do Haiti. Para mostrar o contrate do país pós libertação, Carpentier recorre a um recurso engenhoso. Faz com que Ti Noel esteja em Cuba nos momentos principais da revolta, só retornando depois, pronto para desfrutar do sonho de uma nação negra, sem a opressão da escravidão.

Carpentier explora muito bem os contrastes, uma das temáticas do livro. O jogo de cores entre negros e brancos se mostra no fascínio que os primeiros tinham com as estátuas brancas, muitas vezes confundindo representação com realidade. O contraste entre o cristianismo e o vodu se sintetiza em um catolicismo onde os santos são substituídos por versões negras, e as práticas religiosas adaptadas às tradições africanas. Os senhores se diferenciam dos escravos não apenas pelo poder que exerciam, mas pela vida de luxos, como o teatro e a ópera, que geravam uma situação até certo ponto de irrealidade e fantasia, independente da cor dos senhores, como Ti Noel constataria escandalizado.

O grande choque de Ti Noel, ao retornar ao Haiti, agora como homem livre, foi perceber que quando se trata de exercer o poder sobre seres humanos, a cor não importa tanto quanto imaginava; para seu horror, o reino negro de Henri Christophe se tornara muito mais opressivo do que dos colonos franceses. Estes últimos podiam ser violentos, e frequentemente eram, mas tinham interesses bem materiais para preservar a vida e a saúde dos escravos, pois estes eram ativos econômicos. Já para o novo estado haitiano, sempre haveriam negras gerando substitutos. Outro contraste interessante, que muito representa o poder impessoal do estado, é que enquanto os colonos usavam a mão de obra escrava para atividades econômicas; o novo governo usava-os para construir símbolos para o novo poder constituído, lembrando a construção das pirâmides egípcias.

O Reino Deste Mundo gerou discussões sobre até que ponto a narrativa de Carpentier era fiel aos fatos, especialmente ao retrato que fez do primeiro rei. Muitos historiadores torcem o nariz para os chamados romances históricos, que não teriam a veracidade que apenas as obras dos historiadores conseguiriam ter. Em grande parte é verdade pois a literatura trata da arte do possível, do que poderia acontecer dadas determinadas condições humanas. Não há a preocupação do autor com a precisão; isto é trabalho justamente dos historiadores. O que estes raramente conseguem é dar a suas narrativas o poder persuasivo necessário para que o leitor consiga imaginar as condições efetivas de uma determinada época e seus acontecimentos históricos. Por isso as obras de Dickens, por exemplo, são mais importantes para compreender a revolução industrial, em seu aspecto humano e social, que qualquer obra de Karl Marx, que jamais colocou os pés em um fábrica, ao contrário do grande romancista inglês, que viveu nas carnes as condições da classe operária. Dickens é uma vacina contra o marxismo pois nos mostra a impossibilidade de certas teses. Embora sejam romances de ficção, há verdade nas mentiras, como ensinou Vargas Llosa.

O mesmo acontece com a obra de Carpentier. Em nenhum momento cita datas ou os acontecimentos históricos da independência haitiana. Ti Noel acompanha a parte principal distante, em Santiago, assim como nós no conforto do século XXI. No entanto, conseguimos imaginar o quadro humano onde tudo aconteceu.

O Reino Deste Mundo é uma obra concisa e curta, possível de ler de uma única vez, uma verdadeira obra-prima da literatura latino-americana e mundial, um retrato das possibilidades da alma humana, como assim o são os grandes romances.

Pena que não tenha lido este livro antes de viver meus oito meses no Haiti. Teria entendido muita coisa que vi e, principalmente, teria aberto meus olhos para coisas que não percebi.

 

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