O 18 Brumário de Luís Bonaparte (Karl Marx)

Hegel observa em uma de sus obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

É assim que Karl Marx abre seu pequeno livro sobre a história da revolução de 1848 na França, que terminou por levar ao poder Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão. Fazia uma comparação com a Revolução Francesa, de 1789, que levaria ao poder o próprio Napoleão e arrastaria toda Europa para a guerra, configurando a tragédia. Essa segunda revolução, que Marx acompanhara de perto, faria um caminho parecido, mas em forma de uma grande farsa. 

Pois o livro mostra, acima de tudo, que quando Marx colocava sua ideologia um pouco de lado, o que era raro, conseguia produzir uma obra decente. Claro que tem a divisão em classes, mas o foco principal do livro acabou sendo realmente uma descrição do que foi o período entre 22 de fevereiro de 1848 até dezembro de 1851, com o fechamento da Assembléia Nacional.

Aliás, o livro é muito mais sobre a Assembléia do que sobre o próprio Luís Bonaparte e é justamente nesta descrição que Marx foi particularmente feliz. Na verdade é um livro que diz muito sobre a democracia que temos hoje, particularmente sobre os perigos de ter um poder legislativo fraco e dissociado da sociedade. A essência do regime democrático é o parlamento e seu fim começa por seu enfraquecimento, muitas vezes por parte dos próprios parlamentares, como foi o caso do regime que se sucedeu ao 1848. Até um cineasta de Hollywood, como George Lucas, foi capaz de compreender isso em sua saga Guerra Nas Estrelas em que o Imperador é aclamado pelo próprio senado intergaláctico. 

É interessante constatar que o conflito dos bonapartistas com a Assembléia começava com o artigo da constituição de 1848 que proibia a reeleição do presidente. Marx condena a capitulação do parlamento, que procurou não entrar em conflito com o executivo, e abriu espaço para o golpe de 1851. Temos dois exemplos recentes do mesmo acontecimento. Na Venezuela, a constituição foi estuprada e Chávez é um ditador, com votos, mas um ditador. Em Honduras o parlamento foi duro, Manoel Zelaya foi para o brejo e o país vive democraticamente. Mesmo com a intervenção vergonhosa do Brasil, diga-se de passagem.

Durante todo o tempo o presidente investiu na desmoralização e subserviência do parlamento, indispensável para o golpe que terminou dando. Hoje este golpe, com armas nas ruas, não é mais necessário. Os modernos tiranos descobriram que é mais fácil manipular os instrumentos da própria democracia, como as eleições, para ter o controle do país, mesmo com um parlamento formalmente aberto.

Sobre Luís Bonaparte e sua corte, não precisamos ir muito longe. Basta ver o que temos no Brasil, como ressaltei nestas passagens. 

Marx começa seu livro com uma obviedade incompleta. O homem é o mesmo desde que temos notícia, como já observou o Eclesiastes há 3000 mil anos atrás com seu “não há nada de novo debaixo do céu”; o que significa que estaremos sempre cometendo os mesmos erros e acertos, traduzindo-se em uma idéia de repetição da história. Na verdade, não é a história que se repete, mas nós que nos repetimos. E seu complemento a Hegel não quer dizer absolutamente nada, essa coisa da tragédia e farsa. Bobagem. Muitas vezes se repete como tragédia mesmo e com certeza mais de uma duas vezes!

Trata-se de um bom livro de história mostrando que talvez Karl Marx devesse ter se mantido longe da economia, onde era um idiota, convincente, mas um idiota assim mesmo, e se dedicado mais a um trabalho como historiador. Por mais que estivesse errado em suas premissas de vida, ainda faria coisa melhor do que muita coisa que se faz hoje nas universidades, pois pelo menos o seu marxismo era de primeira mão.

Cotação: ✭✭✭✩✩

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