Parto normal

Há 4 anos minha esposa ficou grávida pela terceira vez. Desta vez, ao invés de fazermos o parto em Belo Horizonte, com o médico da família, sim ainda existem!, resolvemos fazer tudo aqui em Brasília mesmo, pois eu estaria no Haiti durante quase todo o período de gravidez inteira. 

Descobrimos que fazer um parto normal era uma tarefa hercúlea. Uma reportagem da Bandeirantes que assisti agora na TV Uol, mostra que:

– o Brasil é campeão mundial de cesária, sendo que em apenas 13% dos casos este seria o procedimento mais recomendado;

– o problema estaria concentrado nos planos de saúde privados pois os médicos corriam o risco de ficar 10 horas à disposição da paciente e perder todas as suas consultas regulares;

– um iniciativa do Conselho de Medicina prevê que o paciente possa definir com o médico o pagamento das horas extras que sejam necessárias. Posteriormente o plano realizaria o ressarcimento ou o valor seria deduzido do imposto de renda.

– um especialista, cuidado com eles!, alertou que o problema estava sendo empurrado para o paciente, que correria o risco de não receber.

Que o problema existe, não tenho dúvidas. Descobri pela minha própria experiência pessoal e por relatos de amigos. No entanto creio que a questão não seja apenas das horas extras pois se assim fosse deveríamos estar no mesmo patamar de outros países com modelos de saúde semelhantes. Algo acontece especificamente no Brasil que nos coloca nesta posição, algo mais além da relação dos planos de saúde com os médicos.

Em termos econômicos, realmente as horas que o médico passa fora de seu consultório são um custo que deve ser pago. Ou o paciente paga ou todos  pagam, afinal o conceito de plano de saúde é diluir os custos por todos os associados. Isso certamente implica em um custo a mais nas mensalidades do plano. De qualquer forma, não se pode considerar também que todas as horas que o médico passa em um trabalho de parto estariam ocupadas por pacientes particulares. É lícito supor que muitas destas horas estariam reservadas para pacientes de planos de saúde, pelo preço dos próprios planos. Um médico que atende planos de saúde quer a segurança de ter pacientes, mesmo que a um preço menor.

Outra questão é o plano cultural. A economia é uma consequência das ações humanas, que em síntese é uma tradução de sua cultura. A maioria das mães que conheço escolheram livremente fazer cesarianas. Há um temor generalizado de realizar o parto normal, ainda visto como um sinônimo de dor e imprevisibilidade. Argumentam que não há nada de normal no parto normal, o que evidentemente discordo, e que a tranquilidade de ter a hora marcada para ter o filho é muito compensadora. Ou seja, existem realmente muitas mulheres que fazem a opção pela cesariana, especialmente nas classes médias e altas, justamente as mais propensas a terem planos de saúde privados.

Porém se a demanda por cesariana é maior do que por partos normais, se considerarmos a lei da oferta e da procura, o custo das cesarianas devem ser maiores do que os partos normais para que ocorra o equilíbrio e que os recursos sejam alocados de maneira mais eficiência. Algo está acontecendo que impede o funcionamento do mercado pois os custos do parto normais estão maiores justamente pelo chamado custo de oportunidade dos médicos, ou seja, das horas que deixa de atender. Lembrem-se que o mercado da medicina é altamente regulado, principalmente na quantidade de profissionais. 

O problema pode ser mais complexo do que parece à primeira vista, mas o resultado é claro. Há uma grande dificuldade para conseguirmos médicos para realizar partos normais, pelo menos em Brasília onde enfrentamos o problema pessoalmente. Não sei se a solução do conselho é a melhor, nem mesmo se é viável, mas é bom saber que tem mais gente incomodada com a situação. A questão merece um estudo amplo e aprofundado, que dê uma resposta a tantas mães que encontram dificuldades em conseguir profissionais que tragam seus filhos para o mundo da forma mais de acordo com nossa natureza.

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