A coragem do intelectual

Confissões (Santo Agostinho)

Volta e meia retorno ao tema da traição dos intelectuais, conforme proposto por Julien Bendá nos anos 20 do século passado. O francês falava do problema de se colocar, em primeiro plano, a questão de se provar que se tem razão ao invés de usar seu talento para investigar a verdade. Mário Vargas Llosa se interessou por Canudos, e escreveu o maravilhoso A Guerra do Fim do Mundo, ao comparar os artigos escritos por Euclides da Cunha com Os Sertões. Na sua obra máxima, Euclides reconhecia que esteve errado durante todo o tempo e seu livro era seu pedido de desculpas. O próprio Mário tinha passado por esta purgação ao reconhecer seus erros no apoio ao socialismo latino americano e sua admiração por Fidel Castro. 

Para um intelectual reconhecer que esteve errado e expor como pôde se enganar tanto, exige coragem, atributo que falta ou faltou a gente como José Saramago, Sartre, Hobsbawn e tantos outros. Quase coloco o Chico Buarque nesta lista mas seria dar-lhe um relevo que não merece. Outros como o próprio Mário Vargas, Paul Johnson, Olavo de Carvalho foram capazes de expurgar seu passado e caminhar em direção a luz fora da caverna. Platão foi o primeiro a mostrar o caminho com seu famoso mito. 

No entanto, cabe a Santo Agostinho o primeiro, e talvez definitivo, registro de como se deve ser honesto consigo mesmo e ao mesmo tempo deixar um testemunho deste processo que pode ser tão sofrido para um intelectual. Confissões não só é a primeira autobiografia escrita, mas provavelmente a melhor delas. Aliás é interessante como a primeira obra de um determinado estilo consegue ser tão marcante que praticamente se torna insuperável ao longo do tempo (Odisséia na poesia épica, Don Quixote no romance). 

É em Confissões que o santo mostra como esteve errado durante parte de sua vida _ justamente quando se julgava mais certo _  como reconheceu o tamanho do seu erro e transformou-se, passando o resto de sua vida a combater o mal que sucumbira. O erro era o Maniqueísmo, corrente filosófica derivada do cristianismo que exaltava a divisão entre o bem e o mal, colocando a vida corporal como de domínio do mal e a alma como domínio do bem. 

Ao estudar as escrituras, Agostinho percebeu que algo estava errado e usou a razão para questionar os dogmas que acreditava. Não foi um processo fácil, mas por fim percebeu que o maniqueísmo não se sustentava. Converteu-se ao catolicismo e encontrou finalmente um caminho que o conduzisse á verdade. Agostinho mostra que seu questionamento começou com o problema da origem do mal. Como poderia um Deus perfeito e bom ter criado o mal? Ou mesmo permitido sua existência? Se assim fosse, Deus não seria absoluto, mas teria um poder rival, o mal.

Esforçava-me por entender (a questão) _ que ouvia declarar _ acerca de o livre-arbítrio da vontade ser a causa de praticarmos o mal, e o vosso reto juízo o motivo de o sofrermos.

A autobiografia não faz concessões e por isso é tão estudada até hoje. Em outras palavras, Agostinho não doura a pílula e muito menos tenta suavizar seus pecados. Ao contrário, muitas vezes os exalta, sendo talvez muito mais severo consigo mesmo do que nós mesmos seríamos. Um exemplo é do roubo de frutas, o que para nós é algo que parece banal. No entanto, para um pensador profundo como Agostinho, o fato que lhe causava escândalo era que roubava pelo prazer de roubar e não pelo valor do roubo. 

Acima de tudo Agostinho é humano. Em um momento impagável admite que sabia que estava errado em sua vida material, inclusive teve amantes, mas em suas orações pedia a Deus que esperasse um pouco mais antes de corrigi-lo. Agostinho queria ser santo, mas procrastinou o quanto pode esse momento para aproveitar um pouco mais.

Dai-me a castidade e a continência; mas não ma deis já Temia que me ouvísseis logo e me curásseis imediatamente da doença da concupiscência, que antes preferia suportar que extinguir. 

Confissões é também uma obra de arte do estilo. Suas páginas são de rara beleza e revela a alma de poeta que existia no santo. Nesse aspecto lembra Platão, uma de suas influências. Como o grego, pode ser chamado de um filósofo-poeta. 

Quantas vezes, na adolescência, ardi em desejos de me satisfazer em prazeres infernais, ousando até entregar-me a vários e tenebrosos amores! A minha beleza definhou-se e apodreci a vossos olhos, por buscar a complacência própria e desejar ser agradável aos olhos dos homens. 

Por fim, há também filosofia em suas Confissões. Principalmente na parte final do livro, após sua conversão. Agostinho introduz as questões filosóficas que dedicaria sua vida. Sua reflexão sobre o tempo, e a questão da eternidade, é referência para todo o estudo a respeito. Assim como sua genial constatação:

O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém atrevo-me a declarar, sem receio de constatação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria o tempo presente.

Confissões é um livro indispensável tanto como obra de arte literária como em sua própria mensagem. É preciso ter coragem para uma vida intelectual, para refletir sobre a verdade. O espírito  tem que estar preparado para perceber que esteve errado e não só entender o porquê mas sobretudo deixar seu testemunho para que outros não sigam o mesmo caminho. Esse foi um dos legados que Santo Agostinho nos deixou, um exemplo perfeito de integração entre religião e razão.

 

Cotação: ✭✭✭✭✭

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