O brasileiro não é solidário? Uma reflexão.

O brasileiro só é solidário no câncer, já dizia Nelson Rodrigues. Uma vez escutei que nós éramos um dos povos menos solidários do mundo, que menos doavam dinheiro para a caridade. Se não me engano, o ranking era encabeçado por Austrália, Canadá, Estados Unidos e Inglaterra. Curiosamente países de maioria protestante, o que parecia indicar que o problema poderia estar no nosso catolicismo, que seria muito mais afeto à ostentação do que à ajuda de fato. Temos sempre que ter muito cuidado com estatísticas. Será que somos realmente um povo tão pouco solidário?

Nunca é suficientemente alardeado uma realidade triste: somos um país de baixos salários. É uma consequência direta de nossa baixa produtividade, que não tem nada a ver com uma suposta preguiça brasileira ou uma falta de ética para o trabalho. É sim consequência direta de dois fatores primordiais: nosso baixo nível educacional e o pouco capital, particularmente máquinas e tecnologia. Foi Kanitz que afirmou que não éramos um país capitalista e sim um país “trabalhista”. Como não acumulamos capital, dependemos de investimentos externos, normalmente a juros altos pois fizemos o favor de repudiar os juros baixos do FMI. Enfim, nossa mão de obra é pouco capacitada e não possui máquinas para ser mais produtiva.

Trabalhador2

Para complicar a coisa, nossa legislação trabalhista, da década de 40, torna nosso trabalhador ainda mais caro para as empresas, das pequenas às grandes. Para se pagar um salário de mil reais, cerca de 1,3 mil vão para os cofres do governo. Ou seja, o total do salário pago a um trabalhador que recebe mil reais é de 2,3 mil. Uma diferença e tanto, não é?

Se o salário é baixo, em compensação, a carga tributária é monstruosa, principalmente no consumo. Ao invés de pagar R$ 30,00 em um livro, pagamos R$ 60,00 ou R$ 65,00 por conta da tributação. Dizem que nossa carga tributária é em média 45%. Se considerarmos a informalidade, estimada em 10% da economia, concluiremos que a carga, para quem paga impostos, é de mais de 50%, em média. Significa que muitos pagam acima desse valor. Se você é de classe média é provável que esteja pagando em torno de 60% em impostos. Ganhamos pouco e para piorar pagamos caro.

Mas não é só isso, afinal há países, como a Suécia, em que a carga tributária é ainda maior do que a nossa. E mesmo assim as pessoas destinam mais dinheiro para a caridade do que o cruel brasileiro. Só que o sueco não tem que pagar com os 40% que sobra do seu salário plano de saúde, escola para os filhos, manutenção das estradas através de pedágios e etc. Nossa classe média paga muito imposto e recebe pouco em troca, principalmente em saúde e educação.
Diante de tudo isso ainda é possível afirmar que o brasileiro não é solidário?

Trabalhadores

Somos um país cada vez mais assistencialista e não estou nem falando do bolsa família, um programa de exepcional custo-benefício. O estado brasileiro é o grande ator de distribuição de renda, tomando mais da metade do que a classe média produz para distribuir aos mais pobres, a custos elevadíssimos e eficiência lastimável. E quem paga esta conta é a classe média, incluindo aqui a falada classe C.

Os impostos recolhidos por esses brasileiros são gastos todo ano para pagar salários bem acima da média para funcionários públicos, aposentadorias privilegiadas, uma máquina deficiente e de pouco comprometimento, sindicatos, partidos políticos e o escambau, sem falar da corrupção. E sim, parte desse dinheiro vai para os mais pobres.

Portanto, querendo ou não, o dinheiro dos mais ricos chega, pelo menos em parte, aos mais pobres. Só que este dinheiro não entra na contabilidade de doações e fica parecendo que somos um povo que não tem solidariedade. Como se tivéssemos recursos na mão para ajudar. A maioria das pessoas que conheço, de classe média, não estão conseguindo poupar para si mesmos, para o futuro da própria família, quanto mais para dar ajuda substancial para os que necessitam. Pior, vivem verdadeiros dilemas morais por não conseguirmos ajudar.

O aspecto mais perverso do estado assumir o papel de bem feitor é que retira da sociedade a prerrogativa de fazê-lo por livre e espontânea vontade; tiram dos brasileiros a oportunidade de serem caridosos. Isso para um cristão é mortal. Toda a teologia do cristianismo é baseado no livre arbítrio. Em nenhum momento Jesus defendeu que se retirasse dinheiro à força dos mais ricos para distribuir aos mais pobres, mas que os ricos colocassem sua riqueza à serviço de Deus e ajudasse ao próximo. A mensagem cristã tem seu centro na caridade, como já alertava Paulo. O que fazer quando a oportunidade da caridade nos é tirada?

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Por isso discordo dessa suposta falta de caridade dos brasileiros. Acho até que ajudamos demais. Quem já participou de trabalhos de caridade sabe do que estou falando. Apesar de todas as dificuldades, ainda conseguimos a muito custo doar alguma coisa. Não tenho dúvidas que a ajuda direta é mais eficiente do que a ajuda através do estado, tanto pela eficiência dos gastos como pela volutariedade da ajuda. Infelizmente o monstro só aumenta a cada ano e nós ainda ficamos com cara de egoístas. A cada eleição os políticos do governo alardeiam o que quanto fizeram pelos mais pobres, como se o dinheiro fosse produzido por eles. Quem não está no governo não fica atrás. Diz que é capaz de ajudar os mais pobres mais do que quem está no governo. É uma comédia bufa e triste pois parece que nós não temos nada a ver com isso. Só pagamos a conta. O marketing é todo deles.

E ainda não somos solidários!

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