Muita Retórica, Pouca Literatura

Rodrigo Gurgel constata algo que deveria ser óbvio para nós brasileiros, mas que fica escondido sobre um ufanismo tolo: nossa literatura é formada por alguns bons escritores. E só. A grande maioria das obras colocadas no panteão nacional por gerações de críticos que deixaram de fazer seu papel é pura retórica. São livros sem profundidade, com excesso de rebuscamentos, teorias filosóficas furadas, esquemáticos, ou seja, tudo que um bom crítico teria obrigação de apontar e explicar.

É o que Gurgel faz no conjunto de pequenos ensaios críticos sobre as obras de vários autores brasileiros do fim do século XIX. Sobra para todo mundo. Mesmo Dom Casmurro de Machado tem seus reparos apontados; assim como seus evidentes méritos. Aliás, mesmo nas obras que Gurgel considera piores, como O Cortiço, ainda consegue pescar seus poucos, mas existentes, valores.

Quanto a José de Alencar, ao invés de descascar o que considera verdadeiras bombas como O Guarani, prefere destacar um dos seus poucos bons romances como Lucíola. Outros são simplesmente devassados como Graça Aranha, Afonso Arinos, Raul Pompéia, Aluísio Azevedo. Vejam um exemplo analisando a obra O Crioulo de Adolfo Caminha:

Há adjetivos às pencas. Nem José de Alencar conseguiu usar tantos (…)Tal maçante retórica irá perseguir o leitor até a última linha desse conto à força estendido. 

Mas Gurgel não é só críticas negativas e chovem elogios para livros como Minha Formação (Joaquim Nabuco), Faustos da ditadura militar no Brasil (Eduardo Prado), Contos Amazônicos (Inglês de Sousa) e o citado A Retirada da Laguna (Taunay).

Um livro que tem o mérito de não só colocar uma perspectiva mais real sobre algumas obras de nossa literatura como apresentar alguns autores que ficaram esquecidos na história e que merecem ser resgatados. É alvissareiro saber que ainda existem críticos de verdade no Brasil e não apenas aquela cambada de puxa sacos que escrevem todos os dias nos suplementos culturais de nossos grandes jornais.

Cotação: ✭✭✭✩✩

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