Eu e outras poesias (Augusto dos Anjos)

Augusto dos Anjos é considerado um dos nossos grandes poetas, mas a imagem que ficou associado ao seu nome foi a da morbidez, de um autor que fazia poesias sobre cadáveres em putrefação. Na verdade, ele foi um dos poetas mais honestos que já existiu pois tratou claramente do tema recorrente de 90% da literatura mundial: a morte.

Acho que alguém já disse que a morte é o único tema relevante para um escritor. Outro, quem sabe o mesmo, disse que a única questão relevante era se um homem devia se suicidar ou não. É interessante pois a única certeza que temos, e nem Cristo escapou deste destino, é que um dia morreremos; trata-se da essência da condição humana.

A certeza da morte e a perspectiva que esta certeza tem sobre nossas vidas é o tema que atravessa toda a poesia de Augusto dos Anjos. Que sentido tem nossas dores, esperanças, amores, decepções se no fim encontraremos a morte? É o que o poeta tenta nos instigar com Eu e Outras Poesias.

Talvez Asa de Corvo seja o soneto que melhor exemplifica a temática de Augusto dos Anjos, já comentado aqui. Nele, Augusto usa a imagem da asa de um corvo sobrevoando uma casa para nos dar a idéia de que a morte está sempre nos acompanhando, esperando a hora certa de descer sobre nós.

É com essa asa extraordinária Que a Morte – a costureira funerária _ Cose para o homem a última camisa!

A poesia triste, e muitas vezes sem esperança, de Augusto dos Anjos nos lembra da fatalidade do nosso destino e dos contrastes que estabelece sobre nossas vidas.

Às alegrais juntam-se as tristezas, E o carpinteiro que fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!…

Se muitas vezes faz a descrição minunciosa de corpos em decomposição é para mostrar que como matéria temos o destino selado. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Sim, seremos comidos pelos vermes. Mas quem efetivamente servirá de alimento? Nossa própria identidade ou apenas o veículo de nossa existência corporal?

Trata-se da pergunta que pode definir nosso mode de viver, de como encarar a existência. É o que a poesia de Augusto dos Anjos tenta despertar em nossa consciência. Como encaramos a morte? Como a enfrentamos? Como ela interfere em nossa vida? Se nunca pensamos sobre isso, talvez seja a hora.

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