Comunidade e Estado

Saneamento Básico, o Filme

20121227-002745.jpgUm projeto pode ser algo incrivelmente agregador, mas é preciso que as pessoas se comprometam com ele, que se dediquem a vê-lo concluído. Quando uma liderança consegue este compromisso, reunindo as mais diversas individualidades para um bem comum, o resultado pode ser espantoso. É o que nos mostra o excelente Saneamento Básico, o Filme.

Marina tenta reunir apoio da comunidade para conseguir junto à prefeitura os recursos necessários para uma obra de saneamento que beneficiaria toda sua comunidade. Não por acaso, o filme inicia com uma reunião em frente a igreja, onde tenta em vão comprometer as pessoas em seu projeto. A cena mostra um pouco da origem de nossas mazelas, pois o desinteresse é patente; seu próprio pai, um tocante Paulo José, é o principal descrente da empreitada. No fim, apenas com o apoio do seu marido, o simplório Joaquim _ excelente interpretação de Wagner Moura _ vai apresentar seu pleito à burocracia estatal.

É o retrato do Brasil, onde mesmo as pessoas bem intencionadas como Marina, só conseguem enxergar no estado a solução para seus problemas. O problema é que toda nossa burocracia não é montada para administrar e sim para evitar o roubo, o que muitas vezes faz que importantes recursos sejam literalmente jogados no lixo. Como está prestes a acontecer pois a prefeitura não tem dinheiro na rúbrica de saneamento básico, mas possui 10 mil reais para produzir um filme. Se não for gasto com esta finalidade, deve ser restituído à Brasília.

Nesse ponto Marina foge do conformismo da maioria dos empreendedores brasileiros. Resolve usar os recusos para fazer um filme sobre saneamento básico, com o mínimo de custos, para empregar os recusos na obra, que será parte deste filme.

Munida de uma idéia e força de vontade para realizá-la, vai aos poucos reunindo as pessoas em torno do projeto, gerando o compromisso tão necessário para o sucesso de qualquer empreendimento. Aparece como importante a noção de comunidade, de reunião de pessoas dispostas a usar seu tempo e seus recursos, que no fundo são a mesma coisa, para realizar algo de importante para todos. O estado pode no máximo participar com uma parte do investimento, mas o motor da realiação tem que ser a comunidade.

Não vejo solução para o Brasil enquanto revalescer a crença que o estado deve resolver os nossos problemas. Enquanto não surgir uma verdadeira idéia de comunidade, de realização coletiva, pouco conseguiremos avançar. O que necessitamos é de uma mudança de pensamento, que necessariamente passará pela mudança cultural, para que tenhamos a compreensão que cabe à própria comunidade solucionar os seus problemas. Para isso precisamos também de um novo modelo de estado, um que seja menos provedor e que torne mais fácil estas associações espontâneas. Ou que pelo menos coloque menos obstáculos.

Saneamento Básico é um filme divertido, ancorado em excelentes atores e um bom roteiro, que mostra um dos nossos problemas básicos, a crença quase messiânica no estado, e que aponta a direção da solução, a comunidade. Pode ser a família, a vizinhança, a rua, talvez o bairro, mas uma reunião de pessoas com suas capacidades, e criatividades, empenhadas em fazer algo para um bem comum. Se cada um ajudar no que pode, o peso a carregar é ínfimo quando comparado ao resultado. Pode ser quase uma utopia falar nisso agora, mas não vejo outra saída. Temos que nos comprometer com soluções locais, desenvolvidas em comunidade, sem depender do estado. Só assim conseguiremos um verdadeiro progresso social.

Manhã de Natal

Não foi meu primeiro natal fora do Brasil. Aos 9 anos de idade passei um em Fort Lewis, ao norte dos Estados Unidos. Em 2008 passei no Haiti, na base brasileira da Companhia de Engenharia. Ainda tenho no currículo um outro natal, não no estrangeiro mas distante do que chamamos de Brasil, em Porto Urucu no coração da Amazônia. Agora foi a vez de Vicksburg, esta pequena cidade do Mississippi, onde estamos apenas há uma semana, ainda tateando para descobrir seus segredos.

Fizemos nossa ceia de natal. Além de nossa família ainda tivemos meus pais, minha irmã e seu marido, e a família de brasileiros que estão voltando ao país no dia 30. O suficiente para ter o clima de festas, abrir presentes para criançada, brigar um pouco antes da ceia _ normal na minha família de sangue italiano _ e fazer as pazes em tempo para curtir a noite.

O dia ensolarado ainda permitiu que fizessemos um passeio no centro da cidade, que estava mais com cara de domingo, com pouquíssimas lojas abertas. Tudo muito bonito e arrumado, com aquelas construções de tijolinhos vermelhos, que acho lindas (viu Neimeyer?), mas com alguns sinais de decadência como um razoável número de lojas fechadas com placas de a venda. Não conseguimos nosso principal objetivo de tomar um café na cafeteria 61, uma das referências da cidade, mas não faltará oportunidade em breve. Pelo menos está na lista da minha irmã!

Feliz navidad! Diz a canção que gruda no cérebro como uma praga, hit de nossa festinha de ontem. Conseguimos enrolar as crianças o suficiente para poder jantar com tranquilidade antes de abrir os presentes. A pequenina ficou meio assustada no hora com a euforia, e nem queria seus presentes, mas depois que viu a irmã e as outras meninas abrindo os seus, relaxou. Ela é assim, quando tem muita gente, e as pessoas estão atentas a ela, trava. Nessa hora é preciso deixar ela quieta para que reinicie seu sistema e volte ao normal. Logo já estava compenetradíssima montando seu lego de fazenda, presente do padrinho.

A minha mais velha curtiu suas três bonecas da tal Monster High, aparentemente o interesse do momento. Além de outras bobagenzinhas pois tenho a teoria que criança gosta de quantidade. Normalmente dou um bom presente e um monte de de presentinhos; elas adoram.

Lembro um natal, quando meu mais velho tinha 6 anos, que pediu de presente um carrinho de controle remoto ou uma bolinha de sabão. Lógico que dei os dois. E lógico que brincou muito mais com a bolinha de sabão! Crianças são mais sábias do que nós em muitas coisas, uma delas é no valor das coisas.

Agora, manhã de natal propriamente dita, o clima mudou radicalmente. Está chovendo e a previsão é de tempestades ao longo do dia. Ao sul do estado, e Nova Orleans, previsão de tornado. Ou seja, dia certo para ficar dentro de casa e bem abrigado. Ainda bem que temos o resto da ceia de ontém para nos alimentar!

Um feliz natal a todos! Essa é talvez a data mais importante da cristandade e já foi incorporada à tradição ocidental, independente de ser cristão ou não, como outras coisas importantes como democracia, direitos do homem, liberdade individual. Aproveitem para refletir sobre o milagre da vida e todas as dádivas que recebemos todos os dias. Que Deus nos abençoe a todos!

Carmen (Prosper Mérimée)

Carmen é mais conhecida pela ópera de Bizet, que acabou ofuscando o pequeno romance de Mérimée.

Percebe-se que a adaptação é bem livre, preservando apenas o núcleo central da estória, o romance entre Carmen e Don José, e seus personagens centrais. Só que também há diferencas mais profundas como o caráter de Don José, aqui bem menos romântico e mais passional, o que justifica mais o final da estória.

Interessante também que, a meneira das tragédias gregas, especialmente Édipo, primeiro ficamos conhecendo Don José e somente depois, em flashback, ficamos sabendo da estória da cigana Carmen, que trabalhava para preparar o terreno para contrabantistas e saqueadores.

O romance mostra que Bizet cometeu algumas inconsistências em sua adaptação, como colocar a cigana como empregada de uma fábrica de cigarros ou o próprio personagem excessivamente ingênuo de Don José, conforme comentado. O romance, bem mais conciso, se concentra nas partes principais como no relacionamento de de um homem fraco em sua vontade de fazer a coisa certa e uma mulher inconstante e intensa, capaz de tirar um homem desta natureza de seu caminho.

Mérimée consegue um bom resultado e uma obra que vale a pena conhecer, mais uma destas que nos desvenda as nuances da existência humana, qualidade essencial de um bom romance.

Segundas impressões ou Semelhanças e Diferenças

Praticamente estamos terminando nossa primeira semana em Vicksburg e algumas constatações que fizemos:

    Os americanos são muito eficientes no atendimento, tanto no setor público quanto no privado. Só tem um detalhe: se a coisa sair da operação padrão, se enrolam. Flexibilidade não parece ser o forte por aqui, mas no que fazem rotineiramente, fazem muito bem.
    Muitas coisas são muito parecidas com o Brasil. Exemplos: diretora mostrando colégio, diagramação de jornal, classificados, barulho de carimbos em repartição pública, loja de conveniências em posto de gasolina, instalador de tv a cabo.
    Poder retornar um item que comprou sem stress é um outro mundo!
    Levamos exatamente 10 minutos para realizar toda a transferência de um carro no DETRAN daqui. E não estou exagerando.
    O frio por enquanto está no nível serra gaúcha. A diferença, e que diferença!, é a existência de aquecimento na casa. Mas estamos apenas no início do inverno.
    Outra coisa parecida: formulários. Para tudo tem um formulário para preencher, que também são bem iguais aos do Brasil. Nome, endereço, local de nascimento (que até hoje não sei por que perguntam), sexo, etc.
    Realmente o preço das coisas é muito mais barato por aqui; ainda mais quando se começa a perder a mania de se converter tudo mentalmente para reais.
    Véspera de natal em shopping é a mesma coisa em tudo que lugar. Mesmo.
    Não tentem fritar bacon com o detector de fumaças ligado! O macete é tirar as pilhas do aparelho. Descobri depois.
    Tomar banho quente depois de usar a máquina de lavar pratos também não é uma boa opção!
    Por incrível que pareça, mesmo morando em uma cidade de 70 mil habitantes, ainda não conseguimos chegar no centro dela! Ainda estamos trabalhando nos itens de primeira necessidade: roupas, comida, itens básicos para a casa, matrícula em escola, presentes de natal. Tenho fé que esta semana chegaremos lá!

Primeiras impressões

Nossa jornada começou em Manaus, na noite de domingo, dia 16. Embarcar em um vôo internacional já tem suas complicações; com um cachorro a coisa fica ainda mais interessante. O pessoal da American Airlines foi muito atencioso, mas ficou claro que não tinham o costume de embarcar animais, pelo menos os não humanos. Toda hora tinham que consultar os procedimentos, mas no fim deu tudo certo. Depois de uma hora de check in _ o pessoal da fila deve ter adorado _ conseguimos passar esta etapa.

Em seguida, polícia federal. Pagagem passou com tranquilidade e perdemos algum tempo nos passaportes. Por estarmos viajando com crianças, a inspeção é mais demorada, o que é bom. Todo cuidado é pouco com adultos saindo do país com menores e a PF faz muito bem em checar bem os documentos.

Como chegamos cedo, pois não gosto de correria sem necessidade, ficamos um bom tempo na sala de espera, o que foi bom para diminuir o nível de agitação e ficar tranquilo para a viagem. Neste período apenas um chamado para que dona patroa fosse identificar alguns objetos em uma das malas. Pequenas latinhas para colocar balinhas, para o aniversário da filha do meio. Aliás, ela fez anos no meio da viagem entre Manaus e Miami!

Viagem tranquila e logo começamos a notar um certo padrão. Em todos os vôos que fizemos, as aeromoças aparentavam mais de 40 anos, o que mostra que o termo em português talvez tenha se tornado inadequado. Primeira pausa.

Nas várias lojas que fomos em Vicksburg foi comum as atendentes também estarem nessa faixa etária, o que me deixou com uma primeira pergunta para tentar responder neste ano morando no exterior: onde as moças estão trabalhando? Onde estão empregadas as jovens abaixo dos 30? Ou mesmo dos 40? Retorno.

Em Miami uma primeira peregrinação. Imigração, bagagens, passagem das malas pelo raio x, entrada com a cachorrinha, lembram dela?, entrega das bagagens novamente na American. E no aeroporto de Miami esqueçam o inglês; o que mais se fala é espanhol. Alguém já disse que não dá para realmente se sentir nos Estados Unidos na cidade. Há algo de verdade, como sempre, nesta constatação.

No vôo de Miami para Dallas, dei um certo azar. Por efeito de nossa mudança de passagens, acabamos tendo que nos sentar separados. A dona patroa ficou com o ex-bebê, agora uma mocinha como ela diz, juntas. Meu mais velho ficou sozinho de um lado, e eu fiquei exatamente atrás da aniversariante, ambos na poltrona do meio. Até aí tudo bem.

Só que me sentei ao lado de um jovem, de origem latina, um tanto gordo e com um incrível cheiro de CC vencido. Quase dei um desodorante de presente para o rapaz! Foram três horas sentindo aquela maresia! E o vôo super-lotado, ao ponto de faltar lugar para as pequenas malas nos bagageiros e todos terem que ir com suas bolsas e mochilas nas mãos. Minha saída foi o ipad, onde assisti finalmente o filme Saneamento Básico. Foi minha salvação pois não dá para ficar de mal humor com Fernanda Torres e cia!

A pequena mocinha cantou a viagem inteira e a do meio dormiu o tempo todo.

Almoço no Pizza Hut de Dallas, vôo em aeronave da EMBRAER (Bra-sil-sil-sil!) para Jackson, onde meu antecessor me esperava com sua família. Nesse momento, a única preocupação que restava era com a cachorrinha. Felizmente foi tudo bem e logo ela já estava conosco, agitada como sempre, para alegria do seu doninho. Meus pais, que chegaram horas antes, também nos aguardavam.

Último trecho de 40 milhas de carro e finalmente, lá pelas 4 da tarde, chegamos em nosso novo lar. Ou quase. Na verdade vamos morar na mesma casa que nosso antecessor, mas enquanto nossa mudança não chega, ficaremos em uma casa vizinha, já mobiliada. Ambas as casas são excelentes e o clima é de morar em uma casa do campo, já que a distância entre as casas é de uns 500 metros e ficam no meio de um bosque. Já comprei uma dessas camisas estampadas, do tipo lenhador, para me sentir como os romanos em Roma!

Bem, hoje é quinta, o que significa que estamos há três dias em Vicksburg. A cidade é pequena mas dá para perceber que os americanos já as estruturam para o futuro. Avenidas largas, amplos espaços para estacionamento, organização de cidade grande. Por isso eles não se assustam quando as cidades crescem. Tudo muito horizontal também, o que significa que carro é essencial. As cidades são feitas para isso. Sorry ecologistas! Aqui na América os automóveis ainda vão reinar por um bom tempo.

Eu tinha uma imagem, principalmente vinda do meu período no Haiti, do americano ser um tanto arrogante. Não é essa a primeira impressão que estou tendo por aqui. Praticamente todos que nos atenderam foram muito simpáticos conosco, tanto no comércio quanto no laboratório que vou trabalhar. Tinham me falado que os vendedores eram impacientes, que não gostavam de perder tempo quando viam que o cliente tinha dificuldades de se comunicar. Por enquanto não vimos nada disso, estão sendo bem pacientes conosco; pelo menos na maioria das vezes.

Bem, este post já se alongou bastante, mas o propósito deste blog é também registrar para o futuro nossas experiências pessoais. Em breve novos relatos.

That’s all folks!

Em Vicksburg!

Vocês acham o que? Mudar com esposa, três filhos e um cachorro para o interior do Mississipi seja coisa trivial? Não é não, tem uma infinidade de detalhes para tomar conta para que tudo dê certo! Felizmente tudo está saindo melhor do que esperávamos e já estamos em nossa casa nova em Vicksburg.

E viva o Wallmart! Ou como montar uma casa comprando tudo em uma única loja!

Hora de arrumar as malas!

Contagem regressiva, poucas horas para a partida agora.

Estamos terminando de arrumar as malas e até que para uma família com 5 pessoas e um cachorro acho que estamos bem demais. Também só temos condições de sobreviver em território americano por 3 dias! Nada que uma boa ida ao Wallmart não resolva!

Ontem já bateu uma ansiedade e foi difícil de dormir. É bem diferente das últimas vezes que fui para Miami, na minha época de Haiti. Desta vez estou levando crianças de 3 a 17 anos, uma cachorra mais esposa. São uma série de detalhes para se preocupar e a responsabilidade cresce bastante. Quando estamos sozinhos, a coisa é bem mais simples e mais fáceis de resolver quando dá errado.

Enfim, a aventura vai começar!