Pensamento naturalmente excludente

O Exército é uma das maiores instituições brasileiras, se não for a maior. Com 200 mil homens espalhados por todo território nacional, inclusive nas regiões mais remotas, onde normalmente é a única presença do estado, pode ser considerado um laboratório de análise deste mesmo estado. Se bem estudado, pode nos indicar nossas mazelas e testar possíveis soluções.

Observaram que escrevo estado em minúscula e Exército em maiúscula. Questão de respeito a quem merece. Retorno ao assunto.

Outro dia um colega militar comentou que o problema do Exército é que as soluções são sempre excludentes. É sempre uma coisa ou outra. Existe uma tendência à uniformização que muitas vezes passa do limite do razoável, que leva a exclusão de muitas práticas que poderiam ocorrer de forma combinadas, maximizando os resultados. O Exército não é dialético em sua busca de soluções o que muitas vezes gera o abandono de boas práticas ao invés de sua superação.

Em um processo dialético, você confronta soluções e busca uma síntese, uma nova solução que combine as boas práticas e princípios de ambas. Isso é o que se entende por superação de uma hipótese e não simplesmente abandoná-la. Lembrando que uma solução não é nada mais do que uma hipótese.

Se isso acontece no Exército, é de supor que se aconteça também no estado, ou seja, em nossas políticas públicas. Será? Um conjunto de reportagens que passou na globo news hoje de manhã me deu um bom exemplo para pensar.

Durante inacreditáveis 5 minutos foi mostrado uma sucessão de acidentes de carro pelo Brasil afora. Teve de tudo, choque de carros, carro atropelando pedestre na calçada de aeroporto, carro entrando em garagem de outra pessoa, carro invadindo ponto de ônibus. E mortes, como sempre. Claramente o bom senso diz que algo está errado em nossa política pública de trânsito e estes acidentes nada mais são do que a evidência do problema, o seu resultado final.

Quando observamos o nosso sempre ridículo debate público sobre o assunto, até porque nossa imprensa só vive do que acontece na política e é de uma pobreza ímpar quando trata de comportamento, vemos um patético confronto entre pessoas que defendem maior repressão, outras que defendem maior fiscalização e outras que defendem maior educação. Como se estas coisas fossem excludentes.

Tenho a impressão, e uma das evidências foi a lei seca, que toda nossa política pública sobre o assunto é voltada para tentar evitar os acidentes pela fiscalização. O grande problema é que o estado, ainda bem, não pode estar em cada esquina e dentro de cada carro para impedir um motorista bêbado de dirigir de forma irresponsável, ou com sono, ou participar de um pega. Ou seja, não há como evitar todos os acidentes. Na verdade, não conseguimos nem reduzi-los!

Parece-me que falta justamente combinar as práticas necessárias para combinar as ações das diversas correntes. É preciso educar o trânsito, é preciso fiscalizar e sim, é preciso realizar a repressão, a responsabilização. E é aí que a porca torce o rabo.

Décadas de responsabilização da sociedade pelos delitos dos indivíduos, uma consequência natural de nosso pensamento determinista, de que o homem é produto do meio, impede que tenhamos uma postura mais agressiva contra os violadores da lei. O estado brasileiro não quer passar pelo incômodo de punir e por isso se ilude com a possibilidade de conseguir evitar a violação.

Qualquer um que tenha criado filhos sabe que isso é impossível. Pobre da família em que o filho sempre obedece às leis da casa! Estão criando uma máquina e não sabem. Ou pior, um santo, o que é muito mais exigente. Crianças violam leis. Cidadãos violam as leis. E depois da violação não há outra saída, é preciso punir. E a punição deve ser proporcional ao dolo. Uma criança que faz uma malcriação pode receber uma boa bronca, uma pessoa que atropela pessoas em um ponto de ônibus, não. Não adianta dourar a pírula, a certeza da impunidade gera infrações cada vez mais frequentes e mais graves. Perguntem a qualquer família de bom senso.

Ao invés de discutir qual política é mais eficiente, deveríamos nos ocupar em estudar os princípios e práticas que deveriam ser combinadas, independente de qual corrente de pensamento, para efetivamente enfrentar este fragelo que tanto machuca nossa sociedade e nossas famílias. Não se trata de fazer isso ou aquilo, mas de fazer isso E aquilo. Pensamentos não devem ser excludentes mas confrontados para gerar pensamentos ainda melhores. Para gerar soluções ainda melhores.

Com a palavra o glorioso estado brasileiro.

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