Um pouco mais sobre Bento XVI

Antes de dormir ontem eu baixei a terceira carta encíclica do atual papa, Caritas in Veritae. Trata-se de sua encíclica “econômica” e trata da visão da doutrina social da  Igreja. Suas referências são Populum Progressio de Paulo VI e Rerum Novarum de Leão XIII. Minha intenção ontem era ler novamente Caritas, Rerum e ler a Populum que ainda estou na dívida.

Na verdade eu li Caritas duas vezes e ainda estou buscando compreendê-la em sua totalidade. A primeira vez que a li estava ainda muito influenciado pela defesa absoluta do capitalismo e pelos movimentos globalistas o que me deixou bastante desconfortável com vários trechos da encíclica. A segunda, com uma visão menos apaixonada, pude ver que o bicho não era tão feio assim, embora ainda restassem algumas passagens que não entendi onde o papa queria chegar.

De uns tempos para cá, influenciado pela leitura de Três Alqueires e uma Vaca do Corção e dos filmes de Frank Capra comecei a me interessar mais pelo distributismo, que nada mais é que a tal doutrina social da Igreja e foi popularizada por Belloc e Chesterton. 

Pelo que entendi até agora repudia igualmente socialismo e capitalismo. Enquanto o socialismo prega a divisão igualitária das riquezas, o capitalismo está ligado à completa liberdade de dispô-la. O distributismo se refere a dois pontos principais: a distribuição da propriedade e a dualidade da propriedade privada e uso social.

No primeiro ponto, distribuição da propriedade, coloca em segundo plano a distribuição de riquezas e defende que a propriedade deve ser distribuída para o máximo de pessoas possível. E mais, que esta distribuição deve ser voluntária. É a doutrina do pequeno proprietário, dos artesãos, das pequenas lojas. Pense no Walmart e o distributismo irá na direção oposta. Ao invés de ir contra a concentracão de renda, foca no combate à concentração da propriedade, que torna o homem escravo do salário.

No segundo ponto, defende o direito à propriedade como um direito natural do homem. Nenhuma lei ou governo pode tirar do homem o direito de ter suas posses, incluindo o produto do seu trabalho. A dualidade vem do fato que apesar da propriedade ser privada e individual, seu uso deve buscar a satisfação da sociedade, entendida como as pessoas à sua volta. 

Ainda vou falar mais do distributismo neste blog, e suas críticas, mas o fato é que me interessei pela coisa e comecei a pesquisar. E estas três encíclicas se colocam com referência, especialmente a Rerum Novarum. Que li ontem antes de dormir até a metade. 

Hoje de manhã fui surpreendido como todo mundo com a renúncia de Bento XVI. Estou apressando minha leitura da Rerum para ler novamente a Caritas in Veritae, desta vez tendo as idéias do distributismo para tentar iluminar um pouco do que Bento estava tentando dizer. Depois retorno para ler a Populum.

Uma das principais coisas que aprendi com Bento XVI, que considero o maior intelectual vivo, foi uma constatação simples que nunca tinha percebido. Toda escolha econômica é também uma escolha moral. Uma sociedade que enfrenta uma confusão moral, tomará necessariamente escolhas econômicas confusas. Por isso o então Cardeal Ratzinger, em 1985, defendeu em um simpósio que o sistema capitalista, será que pode ser chamado deste nome, entraria em profunda crise em algumas décadas. Um sistema de liberdade econômica só pode funcionar se tiver como base um forte sistema de valores morais, como o cristianismo. Uma cultura hedonista e niilista só poderá produzir um colapso econômico.

It is becoming an increasingly obvious fact of economic history that the development of economic systems which concentrate on the common good depends on a determinate ethical system, which in turn can be born and sustained only by strong religious convictions. Conversely, it has also become obvious that the decline of such discipline can actually cause the laws of the market to collapse. An economic policy that is ordered not only to the good of the group – indeed, not only to the common good of a determinate state – but to the common good of the family of man demands a maximum of ethical discipline and thus a maximum of religious strength.

Aliás, sobre o assunto, indico este excelente artigo do Spengler do Asia TImes e o texto original do próprio Ratzinger.

Por fim, esta é só uma amostra do que é Ratzinger, um teólogo que passou a vida abrindo pontes de diálogo com economia, ciência, filosofia. Lembro que quando estava fazendo um curso de filosofia, há quase dez anos, me aventurei em ler um debate entre Ratzinger e Habermas. O nível foi tão alto que lembro que não consegui entender praticamente nada do que estavam discutindo. Ainda tenho o texto, um bom exercício para saber se estes dez anos de estudos serviram para alguma coisa.

Dá para entender um pouco da completa admiração que tenho por esta figura?

E olha que nem sou católico!

 

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3 comentários sobre “Um pouco mais sobre Bento XVI

  1. Saudações Jota,

    Estou pouco confuso. Você saberia explicar-me qual a diferença entre Teologia da Libertação e Doutrina Social da Igreja (Distributivismo)

    Grato.

    1. Prezado João Alberto,

      A Teologia da Libertação foi uma corrente que nasceu dentro da Igreja Católica na América Latina que buscou fazer uma conciliação entre o marxismo e o cristianismo. Para eles Jesus teria sido o primeiro socialista da história e teria pregado a igualdade econômica entre as pessoas. Desta forma o cristianismo deveria se empenhar para promover esta igualdade através do fim da propriedade privada e distribuição das riquezas, focando no combate ao capitalismo.

      Essa concepção já tinha sido refugada de cara na Rerum Novarum por Leão XIII: ” o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural”. Não há conciliação possível entre o marxismo, um doutrina técnica materialista, com o cristianismo, uma doutrina espiritual. Meu reino não é desse mundo, disse o Cristo. Em nenhum momento Jesus diz nos Evangelhos como deve se organizar político e economicamente o homem, apenas que ele deve praticar a caridade.

      A doutrina social da Igreja diz, entre outras coisas, que a igualdade absoluta é impraticável. “o homem deve aceitar com paciência a sua condição:é impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível”. Mais a frente: “a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença de suas respectivas condições”.

      Enquanto a teologia luta pela distribuição das riquezas, o distributismo defende a distribuição da propriedade. O cristianismo prega que a solução dos problemas do mundo começa pela reforma íntima dos indivíduos pela adoção de uma moral e ética superiores, fundadas na transcendência. A consequência natural desta reforma é a caridade, o desejo sincero de ajudar ao próximo, o que necessariamente produzirá uma sociedade melhor e mais harmônica. Em outras palavras, os ricos devem ajudar os pobres por sua própria vontade, inspirados pelo sentimento do dever.

      Seguramente é uma transformação que leva séculos, o que os teólogos da libertação não estão dispostos a aceitar. Para eles, o estado deve trabalhar para retirar as riquezas dos mais ricos e distribui-las aos pobres, o que sempre foi rejeitado pela Igreja justamente por retirar o livre arbítrio e a oportunidade da caridade espontânea.

      Espero que tenha clareado.

  2. Obrigado Jota, foi de grande ajuda!

    Então a Doutrina Social da Igreja é uma recomendação para os leigos e não para uma política de Estado?

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