Stromboli (1950)

Terra de Deus

Há diversas camadas neste clássico do Roberto Rossellini, mas antes de chegar lá vou primeiro contar como cheguei neste filme.

O inferno são os outros
O inferno são os outros

Comecei a ler um livro do Eric Rohmer que reune suas principais críticas de cinema. O genial francês começou tarde como cineasta, pois primeiro se dedicou à crítica cinematográfica. Sua arma, a filosofia. No livro, The Taste of Beauty, ele trata de sua influência do existencialismo de Sartre e como se curou dela, precisamente no meio de Stromboli. Fiquei curioso. Como um simples filme conseguiu tirar um intelectual do porte de Eric Rohmer da ilusão existencialista em menos de duas horas de projeção? Mais adiante ele acrescenta que Stromboli teria sido um dos dois filmes que mais o impactaram na vida. Isso é muito forte. Um filme transformando uma vida?

De certa forma eu entendo o que Rohmer está querendo chegar pois o mesmo aconteceu comigo quando assisti It’s a Wonderful Life, fácil o melhor filme já feito.  Portanto, quis entender um pouco o processo que Rohmer, um dos meus autores favoritos, passou. Graças aos serviços hoje de filme pela internet, fica tudo mais fácil. Em questão de minutos já estava sentado confortavelmente na minha poltrona assistindo o filme.

Ingrid Bergman vive o papel de Karin, uma refugiada lituana que encontra-se em um campo italiano após o final da II Guerra Mundial. Como seu plano para imigrar para a Argentina fracassa, opta por casar com um dos soldados, o emotivo Antônio. Afinal, qualquer coisa é melhor do que um campo de refugiados não é mesmo?

O problema é que Antonio vive em uma pequena aldeia de pescadores na ilha de Stromboli, no sopé de um vulcão ativo que entra em erupção frequentemente. As condições de vida na ilha são duras e muitos guardam dinheiro para poder um dia se mudar de lá. Sem linha regular de barcos para a Sicília, a ilha se aproxima bastante de uma prisão.

É fácil perceber que o vulcão, e suas tragédias, unem aquela pequena população, de intensa religiosidade. O padre é a maior autoridade da ilha, e a voz da sabedoria que a todos procura conformar e levar o apoio espiritual.

Desde o início, ao colocar os pés na ilha, Karin se revolta. Contra tudo e contra todos, especialmente Antonio. As pessoas da ilha não a compreendem, não entendem que ela não pertence aquele tipo de mundo. Karin aos poucos revela ao padre que vem de uma família aristocrática e que seu passado é repleto de decisões erradas e pecados, como ela mesmo ressalta. Fica claro que Karin sempre usou sua beleza para trilhar seu caminho na vida.

Até aqui temos Sartre e seu existencialismo. O inferno são os outros. O homem é prisioneiro de sua existência e vive acuado com a incerteza da morte. A vida é uma fonte de sofrimento pois impede que ele seja o que pretende. Para Karin, o mundo parecia uma eterna conspiração contra sua vocação e destino.

O que Rossellini nos mostra é que o inferno não são os outros, mas nós mesmos. Ou melhor, nós muitas vezes construímos o inferno para vivermos. Sim, as condições na ilha são duras e o vulcão é uma ameaça terrível que paira sobre todos, mas não é assim a vida? Karin não dá a menor chance para Stromboli, tudo a inquieta, tudo a revolta. As pessoas tentam ajudá-la, Antonio faz de tudo, em silêncio, para dar a ela o máximo de conforto que pode com suas condições modestas. Tudo em vão; seu coração está fechado para qualquer ajuda.

Stromboli pode muito bem representar o universo cristão, onde o vulcão representa o papel de Deus. Algumas vezes ameaçador, mas também a fonte que mantém aquele povo unido e com um propósito. Falta a Karin as virtudes cristãs para suportar tamanha prova: fé, esperança e caridade. Em determinado momento responde ao padre, Deus nunca a tinha dado nada. O espetáculo da missa lhe parece grotesco e intimidador. O mundo de Karin é o mundo da imanência, do visível. Presa na ilha, sem perspectiva de nada além do que enxerga, é fácil perceber o desespero crescente que enfrenta. Como na vida, a transcendência é a fonte da esperança de que o destino é mais do que esperar pela próxima erupção de um vulcão, é a referência para exercício da verdadeira caridade, é a fé que une as pessoas em um só sentimento. O subtítulo do filme, Terra de Deus, parece indicar nesta direção.

Enfrentando o vulcão
Enfrentando o vulcão

A ilha também pode ser a representação do universo de um existencialista. Tudo parece bem nos cafés de Paris entre cigarros e taças de vinho. Mas e quando enfrentamos intensas dificuldades e tristezas? Onde pode o homem, e Karin, se apoiar quando as circustâncias, o mundo exterior, se torna hostil e nada parece indicar que possa melhorar? Para o existencialista a opção de liberdade por natureza é a do suicídio, única forma do homem precisar sua morte e abandonar o inferno que pode se transformar a vida.

É justamente o dilema que Karin terá que enfrentar na parte final do filme, em sua tentativa desesperada de atravessar a ilha, através do vulcão, para chegar ao outro lado onde há a possibilidade de uma fuga. Diante do desespero total, a suicídio é a solução?

Final (aviso)

Karin percebe que não conseguirá atravessar a montanha e não aceita voltar. Só há uma solução para ela e para o filho que carrega na barriga. Em desespero ela a repele e grita que não tem coragem suficiente para se matar, que quer viver. Adormece. Quando acorda, percebe-se que algo mudou. Pela primeira vez ela contempla realmente a paisagem da ilha, talvez percebendo pela primeira vez o cenário de beleza em que vivia. Aqui temos a graça agindo, o pequeno milagre capaz de salvar uma vida, no caso duas. Voltando-se para o vulcão ela se sujeita e pede a Deus que a dê forças, que a faça compreender, que a dê coragem. É o início da conversão de uma alma. É a própria representação do cristianismo.

 

Quotes

The Priest: Those who have gone away help those who are left behind. And I, well, I act as the middle-man.
Karin: Then try to help us, Father. I can’t take a life like this. Antonio is still a boy. Yes, I love him, but he doesn’t understand how a woman like me feels.
The Priest: I think he does. I know how hard he tried to get work. The fishing season has started. And the boats have full crews already. You see, there are only four boats from Stromboli. The rest come from other islands. Yet, Antonio has managed to find a place. He sacrificed his pride. He owned a boat of his own, once, you know. He has done it all for you. I know it, because I talked with him.
Karin: Yes, I suppose he’s doing his best, but… can’t he realize that I can’t live here, and that he should take me away?
The Priest: You need money to emigrate – and a place to go.
Karin: Those who are born here, all they wanted was to leave. You can imagine how I feel here, Father, a stranger. These black rocks, this desolation, that… that ‘terror.’ This island drives me mad, Father. Won’t you help us, please?
The Priest: You are both young. Make Antonio save his money instead of spending it. Help him. And perhaps you will be able to leave too, someday. But while you are to stay here, make a good home for yourself and for him. It will make it easier for both of you to wait. If you do this, merciful God will help you.
Karin: With me, God has *never* been merciful!

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