Alice nas Cidades (1974)

O gênero road movie já foi bastante explorado no cinema. Seu princípio é a estrada como uma metáfora para a jornada que conduz ao auto-conhecimento, o momento de epifania em que o personagem se transforma e entra em harmonia consigo mesmo.

Aristóteles chamava de reconhecimento a parte de uma estória em que o personagem chegava ao conhecimento, geralmente na hora de uma peripécia. Por sua vez, peripécia era uma mudança na narrativa, um rumo inesperado em que ela tomava. É o instante da iluminação, onde se percebe algo que sempre esteve presente mas que nunca se observou.

Improváveis companheiros
Improváveis companheiros

O cineasta alemão Wim Wenders começou uma trilogia de road movies com o interessante Alice nas Cidades. Por que interessante? Porque este momento de revelação, e a peripécia associada, ocorre de maneira muito sutil, gerando uma transformação praticamente imperceptível, como normalmente são as coisas.

É um road movie sem aventuras rocambolescas ou perigos. Apenas um homem e uma menina tentando seguir adiante em busca de um destino.

Philip é um escritor alemão que passa um tempo viajando pelo interior dos Estados Unidos para escrever um artigo. Vê uma cultura homogeneizada e pasteurizada,  pautada pela televisão e seus comerciais. A seqüência de estradas, hotéis e filmes na televisão é pura monotonia. O resultado é um bloqueio de escritor e seu único registro são fotos em polaroid tiradas a esmo, geralmente de dentro do carro.

Com pouco dinheiro, já que perdera o prazo com seu editor, resolve voltar para seu país. No aeroporto conhece a bela Lisa e sua filha Alice, de cerca de 10 anos.

Encurtando a estória, acaba em um avião para Amsterdã com a menina e um bilhete de Lisa prometendo encontrá-los em um ou dois dias na cidade holandesa.

Claro que ela não aparece e Philp parte para tentar encontrar a avó da menina, sem um nome ou endereço. Apenas o nome da cidade e uma vaga descrição de uma casa. Com esta tênue pista, os dois improváveis companheiros iniciam uma jornada, agora pela Alemanha, estabelecendo um paralelo com a viagem anterior de Philip. Novamente é uma seqüência de trajetos de carro, hotéis de beira de estrada e os mesmos programas de televisão. Na essência, não há muita diferença do interior da Europa para o interior dos Estados Unidos.

Na verdade, há uma diferença bem sutil entre as duas viagens, que nada tem a ver com cultura. Philip não tira mais fotos dos lugares por onde passa; Alice é que parece ter algum interesse em tirar fotos deles. Nada de sentimentalismos, apenas a passagem de uma solidão para uma solidão a dois.

Imagens com significado
Imagens com significado

O reconhecimento no sentido aristotélico, de passagem para o conhecimento, surge para Philip quando após deixar a menina com a polícia, finalmente livre de sua obrigação, se vê em um show do Chuck Berry. No meio da Alemanha, curtindo um show de rock puramente americano. Na cena, Chuck canta Memphis, Tennessee; mais Estados Unidos, impossível.

Começa então a perceber que não é a cultura homogeneizada que o deixou melancólico, mas sua própria melancolia que contaminou o mundo a sua volta. Na mesma noite, ao chegar ao hotel, encontra Alice esperando e fica surpreso, mas feliz em vê-la. É a peripécia que vem junto com o reconhecimento. Ela tem mais pistas da avó e sem mais palavras eles continuam a jornada. Ele não pergunta como ela foi parar ali, sem a guarda dos policiais, talvez por medo da resposta. O que importa é que ela não é mais um estorvo para ele e sim uma companhia.

Na verdade Alice funciona para ele como uma projeção de sua consciência. A honestidade e inocência de uma menina de 10 anos é fundamental para colocá-lo diante da mais profunda das verdades, a verdade da realidade. É através dos olhos dela, e de suas observações cortantes,  que vai percebendo suas circunstâncias e colocando seus pensamentos em ordem.

No final está escrevendo, preparando seu artigo. A vida adiante, para ele e para Alice, está repleta de possibilidades  Por isso Wenders não termina seu filme no destino, como quase todos os road movies, mas na expectativa de chegar a ele. É um filme de companheirismo, ajuda, fraternidade, apoio mútuo, busca; em resumo, é um filme de amor. Amor em seu sentido mais pleno.

Apesar de filmado em 1974, o filme é em preto e branco, talvez para reforçar a melancolia e tristeza de seus protagonistas ou talvez para dar um noção de um tempo que se perdeu em um mundo cada vez mais homogêneo e monocromático.

A interpretação da menina Yella Rottlander é a melhor atuação de uma criança que já vi. Seus gestos e expressões são simplesmente de uma naturalidade, e maturidade, fantásticas. Traduz com perfeição a dualidade entre a inocência e uma sabedoria de quem já experimentou o sofrimento, mesmo com pouca idade.

Um belíssimo filme que nos ensina que acima de tudo a vida prossegue com suas promessas, que hora se realizam, hora não, mas que sempre tem em si uma beleza própria, somente captada por quem está aberto à realidade. A chave para esta abertura é o amor e não por acaso Platão considerava o amor o grande arquiteto do universo, pois vinculava as pessoas e coisas umas as outras dando unidade ao cosmos.

Como Philip e Alice.

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