The Tempest (W. Shakespeare)

O que você faria se tivesse o controle total sobre seu inimigo, aquele que tirou seu reino e o despojou de tudo que tinha? É a vingança perfeita, basta agora executá-la. É para chegar nesta situação que Shakespeare constrói cada detalhe da peça A Tempestade, possivelmente sua última.

Anos depois de ter sido traído por uma conspiração que uniu seu próprio irmão com outros dois nobres, Próspero encontra-se em uma ilha no Mediterrâneo. Vivem na ilha apenas sua filha e seus dois servos, o espírito Ariel e o filho de uma bruxa que vivia no lugar, Calibã. Usando da magia, conjura uma tempestade justamente quando seus algozes passavam de navio, retornando de um casamento. Ocorre o naufrágio e usando os préstimos de Ariel, Próspero os isola em pequenos grupos. 

A partir dessa situação, vários temas são abordados.

Calibã mostra que o mantra que a educação resolve todos os problemas é uma furada. Tratando-o com dignidade desde que chegou a ilha, Próspero dedicou-se em educá-lo e mostrá-lo o caminho da virtude. Seus esforços foram em vão e Calibã cresceu rancoroso e vingativo, desejando o dia de ter a ilha só para si, chegando ao ponto de tentar violentar Miranda, a filha de Próspero.

Antonio e Sebastian, que haviam conspirado para colocar Antonio no lugar de Próspero, aproveitam a situação, crendo que o herdeiro Ferdinand está morto, para tentar eliminar Antonio e ter o reino para eles. Os conspiradores de hoje são os inimigos de amanhã. Quem trai uma vez, trairá novamente quando tiver a oportunidade.

O romance entre Miranda e Ferdinand é parte da vingança de Próspero, que dessa forma se une definitivamente ao pai dele, Antonio. 

Por fim, tendo controle absoluto da situação, Próspero pode escolher o caminho a seguir. 

Yet with my nobler reason against my fury

Do I take part. The rarer action is

In virtue than in vengeance.

Eis a grande lição da peça de Shakespeare. O perdão é a mais nobre resposta para quem agrediu, o ensinamento cristão por natureza. Observem que Próspero age contra sua própria raiva, em nome da razão, e perdoa seus algozes. A vingança apenas prolonga o ódio, por vezes por gerações, e precisa ser quebrado em algum momento, como ensina uma outra peça bem mais antiga, Eumênides de Ésquilo, que já resenhei aqui.

Não por acaso, trata-se da peça mais grega de Shakespeare. Inclusive com a participação de algumas deusas, conjuradas por Próspero. Além do uso da magia pelo protagonista da peça. Ressaltar os dilemas morais da humanidade era um dos propósitos das tragédias gregas, justamente o que Shakespeare faz na peça. O que leva Miranda, ao observar o primeiro grupo humano em sua vida, dizer a célebre passagem:

Oh, wonder!

How many goodly creatures are there here!

How beauteous mankind is! O brave new world,

That has such people in ‘ t!

Se os gregos não tinham solução definitiva para o dilema da vingança, que termina na Orestéia com o voto de Minerva absolvendo Orestes da morte da mãe para interromper uma escalada que nada poderia produzir de bom, Shakespeare tinha a seu dispor toda a filosofia cristã e o instrumento do perdão. Sim, por vezes as pessoas nos machucam de alguma maneira, mas a vingança pode apenas trazer uma satisfação momentânea. Só o perdão sincero pode restabelecer laços rompidos e seguir adiante. Como Próspero fez com Antônio. 

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