Considerações sobre o valor do trabalho

Retomando a questão sobre o valor do salário, mais especificamente tentando encontrar os fatores que influenciam este valor.

Se formos pela linha marxista, o valor do salário é o seu custo do trabalho,o que seria mais ou menos o quanto ele agrega a um determinado produto. Fruto da luta de classes, o patrão acaba pagando menos do que o trabalho alocado pelo trabalhador, configurando o mais valia que origina o lucro e por aí vai. O importante é que segundo esta teoria o fator principal para estabelecer o salário seria a ganância do empresário que levaria até o limite a capacidade do trabalhador em aceitar um determinado valor. Neste contexto, o estado seria a última defesa do trabalhador, estabelecendo limites para o quanto ele poderia ser explorado, o que implica em leis para salário mínimo, férias, seguros sociais, pisos, etc.

Na teoria liberal clássica, o valor do salário é na verdade um preço, o preço do trabalho. A lógica para determinação deste preço é similar aos demais preços na economia e traduz um equilíbrio entre oferta e demanda, a lei que tanto incomoda os economistas de esquerda. Salários dependem da interação entre empresas e trabalhadores e seu valor é fruto de três fatores principais:

(1) empresas que demandam trabalhadores: essencialmente depende de um balanço entre custos e benefícios. Se o custo de um trabalhador for inferior ao benefício que trará à empresa, ela o contratará; caso contrário, não. Deve-se ter em mente que o custo não é o salário, mas o salário acrescido de todos os impostos atrelados ao pagamento e demais custos indiretos. Se este custo total (salário + férias + demissão + inss + vale + etc) for menor que o benefício, que é fruto de sua produtividade, a empresa o contratará. Logicamente que em muitos casos, e neste ponto os marxistas tem alguma razão, a empresa tentará pagar o menor valor possível, mas sempre dentro da idéia que enquanto este custo for inferior ao benefício ela irá contratar.

(2) trabalhadores que ofertam o trabalho: do lado do trabalhador, o principal benefício é o salário, mas não o único. Outros fatores como adquirir experiência, se posicionar no mercado, a natureza do trabalho em sim, influenciam na escolha. Muitas vezes por uma pequena diminuição do salário é possível ter um emprego bem mais tranquilo, por exemplo. E o custo para o trabalhador? O custo é o chamado de oportunidade, ou seja, as horas que disponibilizará para a empresa em que poderia estar fazendo outra coisa, mesmo que seja dormindo. Quando o benefício do trabalho (principalmente salário) superar este custo, ele aceitará trabalhar.

(3) barganha entre empresas e trabalhadores: como em qualquer preço, trata-se da competição. Quando empresas precisam competir entre si por trabalhadores, o salário sobe; quando trabalhadores precisam competir entre si, o salário desce. O Brasil se caracteriza por ter uma imensa diferença salarial entre os trabalhadores. Um dos motivos é que existem poucos brasileiros extremamente bem capacitados (o que eleva o salário para eles) e muitos de baixa escolaridade e produtividade (o que diminui salários para eles). É um mecanismo de desigualdade social que perdurará enquanto houver esta diferença brutal de educação e produtividade.

Se esta teoria estiver certa, apenas um destes fatores é capaz de alterar de forma significativa o valor de um salário. Isso tem um importante corolário na política: leis definindo salários não são capazes de mudar o custo destes salário no longo prazo.

Vamos ao caso de uma lei que dê um determinado benefício aos trabalhadores, por exemplo uma gratificação anual obrigatória de 10% do valor do seu salário, uma gorjeta permanente por parte da empresa. O que acontecerá?

No curto prazo, as empresas escolherão entre engolir os 10% ou demitir trabalhadores. No longo prazo, e isso é importante, passarão a considerar os 10% no custo do trabalhador e não pensarão mais a respeito. Para ela pouco importa se vai pagar um salário de 100 reais por mês e no final pagar uma bonificação de 120 reais ou se vai pagar um salário de 110 reais por mês; o custo é o mesmo. A única diferença é que no curto prazo os trabalhadores que continuarem empregados ganharão 10% a mais. Muitos perderão o emprego. Depois de um tempo este 10% serão diluídos nos reajustes e novos trabalhadores serão contratados por um valor a menos que recebiam antes para compensar o benefício.

A grande questão é se estes benefício de curto prazo (aumento de uns) compensa os prejuízos (desemprego de outros).

Então, que teoria parece mais razoável? A ganância do empresário ou o equilíbrio entre oferta e demanda de emprego entre empresas e trabalhadores?

E como fica a questão das domésticas nesta estória?

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s