O retrato de uma sociedade sem substância

A Regra do Jogo (La Regle du jeu, 1939)

Poucas vezes vi uma sociedade retratada com tanta agudeza quanto neste clássico de Jean Renoir. Nele o fenômeno da segunda realidade, retratado inicialmente por Cervantes, ganha sua imagem no cinema, mostrando que ao retratar o mundo os artistas acabam por chegar no mesmo ponto, intencionalmente ou não. A realidade do mundo moderno é mais do que um mundo sem valores, ou niilista, mas um mundo divorciado do sentido do real.

Caçando coelhos
Caçando coelhos

As vésperas da segunda guerra mundial, um aviador francês é saudado como herói após atravessar o atlântico. O detalhe é que ele estava simplesmente repetindo a façanha do aviador americano Charles Lindbergh com 10 anos de atraso! No entanto, André Jureu, o aviador, ao invés de assumir o papel que se espera dele, reclama que a mulher que ama, e por quem teria feito o vôo, não foi recebê-lo como os demais. Na verdade, Christine é esposa de Robert, marquês de la Cheyniest, que aliás tem um caso com Geneviére, outra dama da sociedade.

A maior parte do filme se desenrola na casa de campo do Marquês, onde nobres e criados se entregam a caça uns dos outros, parodiando a caçada aos coelhos brilhantemente mostrada no filme. Praticamente todos possuem amantes e usam de todos os meios para conseguirem driblar os respectivos maridos e esposas, o que é copiado pelos criados, com menos meios do que os primeiros.

O fenômeno da segunda realidade, evidenciada pela primeira vez por Cervantes, mostra que o homem ao recusar o mundo real acaba por criar uma realidade própria a partir de alguns pressupostos simples. Dom Quixote cria seu mundo a partir das novelas de cavalaria, assim como os personagens de Renoir criam o seu a partir de alguns princípios que são mostrados aos poucos no filme, normalmente anunciado pelo farsesco Octave. A sociedade mostrada no filme é a mesma corte que Cervantes nos apresenta no segundo livro de Dom Quixote, um reino em que nobres entediados e fúteis passam a viver a aventura do cavaleiro andante, mergulhando de cabeça no seu mundo de sonhos. A segunda realidade toma o lugar da primeira.

Jureu evidencia o herói moderno que como Octave aponta, é capaz de grandes façanhas no céu mas que o chegar na terra é frágil e perdido. Basta pensar nos heróis de hoje, normalmente vindo do show business ou do esporte,  que fora de seus papéis se portam como verdadeiros idiotas. Em um mundo sem virtudes, um herói não tem onde se apoiar, e se torna apenas uma fonte de ilusões.

Octave: You have to understand, its the plight of all heroes today. In the air, they’re terrific. But when they come back to earth, they’re weak, poor, and helpless.

Mais do que a ausência de valores, o filme mostra os valores desordenados, isolados e enlouquecidos. O guarda caças Schumacher, por exemplo, diante da traição da esposa, a criada pessoal de Christine, parte enlouquecido para limpar sua honra. Em nenhum momento vemos um afeto sincero por Lisette, apenas a figura de um homem em defesa de sua propriedade. Ele não entende as regras do jogo.

Sociedade farsesca
Sociedade farsesca

A vida amorosa mostrada no Chateau não é mais que um jogo. Há muito pouca tensão sexual no filme e os personagens parecem se divertir mais com as caçadas e ardis do que com a realização da conquista. Robert, por exemplo, está entediado com sua amante, como normalmente acontece com quem se entrega a um jogo e consegue seu prêmio. Christine tenta resistir e sonha com o amor do tipo romântico, mas está sempre com um pé em cada mundo, perdida no meio de tantas ilusões.

O mundo dos criados é retratado como uma sombra da nobreza, emulando seus esquemas com os meios que dispõem. O problema é quando estes dois mundo se tocam e um mal jogador, como Schumacher, tem uma arma na mão. A farsa se transforma em tragédia, para depois se transformar em farsa novamente. Pelo menos enquanto durarem as ilusões.

Robert, ao contrário, é mestre do jogo. Consegue se colocar acima da situação da maioria, ironizando constantemente o próprio jogo que participa. Seu discurso para seus convidados no final do filme é antológico.

Renoir era membro da esquerda francesa, e já havia o embate cultural com os nazistas em seu país. Fiel ao esquema marxista, as duas classes são mostradas como mundos a parte, unidos por laços de fidelidade. Ou seja, na hora da confusão, o nobre ficará ao lado do nobre, o plebeu ao lado do plebeu. O sonho socialista que nunca se realizou pois a realidade é que a história do mundo não é a história da luta de classes, esta ficção que está mais na cabeça de alguns ideólogos do que na das pessoas comuns. Felizmente, como um bom artista, Renoir não consegue fugir da realidade; nobres e plebeus se unem e se afastam em torno das questões clássicas como simpatias, amizade e amor.

Sem dúvida um dos grandes clássicos do cinema, que merece ser visto e revisto. O filme talvez seja mais atual do que antes, pois o quadro que se mostrava na década de 30 é ainda mais evidente nos dias de hoje. Quem acha que a nobreza acabou, nunca parou para observar as novas elites, especialmente no show business, jornalismo, esportes, cultura, política. Comportam-se da mesma maneira que os personagens de A Regra do Jogo, com suas tragédias e comédias como a do goleiro Bruno, Pimenta da Veiga, Lindsay Lohan, Michael Jackson, Collor, Renan Calheiros e tantos outros exemplos de nossos heróis (ou anti-heróis) modernos.

Robert de la Cheyniest: [to Schumacher] I have no choice but to dismiss you. It breaks my heart, but I can’t expose my guests to your firearms. It may be wrong of them, but they value their lives.

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