Modernidade: os sofistas contra-atacam

E, portanto, um anunciado será igualmente considerado falso se afirmar que coisas que são não são, ou que coisas que não são são.

Quem se aventurar a ler o diálogo Sofista de Platão vai entender muito do que acontece hoje na discussão de idéias. Nada mais do que o triunfo do sofista sobre o filósofo, ou da imitação sobre a realidade. Este fenômeno se dá em todos os campos, na política, economia, cultura, nas ciências. A revolta de Sócrates contra este quadro  deu origem à verdadeira filosofia, estabelecendo as bases para o uso da razão em busca da verdade sobre as coisas para o milênios que se seguiram.

E o que era o sofista? Basicamente pode-se dizer que era um falso sábio, alguém que fingia saber o que não sabia ou fingia não saber o que efetivamente sabia, em outras palavras, a esmagadora maioria dos intelectuais da modernidade. Homens que ganham a vida para ensinar os mais jovens a impor suas opiniões, a vencer debates, a esconder sobre as mais variadas camadas de falsidade um objeto com a finalidade de convencer o público. É o reino da opinião como substituto da verdade, ou seja, o reino da mentira.

No diálogo, um homem é apresentado a Sócrates como um estrangeiro de Eléia, um verdadeiro filósofo, o que desperta em Sócrates o questionamento sobre a diferença entre o político, o filósofo e o sofista. Como sempre, Platão parte sua especulação sobre um problema real que o filósofo se deparava, justamente a busca do conhecimento verdadeiro. Para Sócrates e Platão um problema só merecia ser investigado quando se colocava para a pessoa como um problema efetivo de sua vida e não simplesmente como conceito abstrato.

O livro é uma verdadeira discussão sobre uma metodologia de busca da verdade, que parte da idéia que o primeiro passo é justamente definir corretamente o objeto a ser discutido pois é necessário que em um diálogo as partes estejam se referindo a mesma coisa e não a coisas diferentes representadas por um mesmo nome. Busca-se a essência, a substância do objeto de investigação. O objeto da filosofia é a realidade e não as suas abstrações como costuma-se ensinar.

Para se buscar a essência, deve-se retirar tudo que não é do ser. Significa enquadrar um objeto em um conjunto e depois excluir do conjunto o que o objeto não é. Acontece então um processo de purificação que é justamente a retirada das camadas de falsidades que se colocam sobre a verdadeira natureza de um ser. O que se pratica hoje é justamente o contrário, para se convencer sobre uma determinada tese é preciso escondê-la sobre camadas de mentiras e falsidades, levando o ignorante a acreditá-la sem saber o que realmente está comprando.

Um exemplo é a afirmação que ocorrem um milhão mortes por abortos no Brasil. Quem primeiro afirmou isso sabe que estava criando uma mentira, mas era preciso estabelecer o aborto como uma questão de saúde pública. O ignorante é levado a aceitar o aborto não em si mesmo, mas como uma forma de evitar todas estas supostas mortes. Quem argumenta nestas bases é um sofista e busca apenas convencer, independente de ter razão ou não.

Os exemplos estão em toda parte, basta ler Paul Krugman ou Noam Chomsky. Não cito os brasileiros, como Emir Sáder ou Vladimir Safatle, porque  são incapazes de qualquer pensamento original, apenas repetem os pensamentos deste primeiro grupo. O mundo atual é  dos sofistas. Por isso se estuda Keynes nas universidades de economia no Brasil e se ignora Hayek; se estuda Maquiavel em ciências políticas e se ignora completamente  Eric Voegelin. E se estuda Rousseau! Santo Deus!

O Sofista de Platão tem uma mensagem triste e uma de otimismo. A triste é que voltamos 3000 anos no tempo. A esperança é que se foi possível surgir um homem como Sócrates para fazer a humanidade dar um gigantesco salto com a filosofia, por que não surgiria novamente? Claro que não será reconhecido, que será massacrado por esta sociedade doente, mas deixará o seus frutos que crescerão com o tempo e novamente derrotarão a mentira. Não veremos isso acontecer, mas fica a esperança para nossos descendentes.

Ora, a ignorância ocorre exatamente quando a alma que visa à verdade desvia-se do entendimento e não atinge a meta.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s