Eu e Minhas Circunstâncias

The Way (2010)

Tom é um oftalmologista de sucesso, que vive uma vida confortável , rotineira, jogando golfe com os colegas médicos, quando recebe a notícia que seu filho único, que viajara para a Europa para se aventurar no mundo falecera no Caminho de Compostela. Uma tempestade o colhera sozinho no primeiro dia de caminhada.

Depois de recolher os pertences do filho, sua mochila de caminhada, e de uma conversa com o capitão da polícia local, resolve atender ao último desejo de Daniel; que eles fizessem a caminhada juntos. Com uma urna com as cinzas dele, que vai deixando pelo caminho, Tom inicia sua jornada e vai terminar, apesar de sua resistência, sendo obrigado a conviver com três pessoas muito distantes de sua realidade.

Se a proposta do filme já era interessante, sua realização foi muito superior. Emilio Estevez entrega um belíssimo filme, muito mais profundo do que se pode perceber de princípio. Afinal, filmes sobre personagens que traumatizados pela morte de alguém muito próximo resolvem fazer uma viagem de auto-descobrimento e se transformam no processo não é nenhuma novidade. A beleza de The Way está na forma com que Estevez joga com nossas próprias percepções e faz da caminhada não uma jornada de auto-conhecimento, embora seja, mas uma jornada de conhecimento do outro, e a partir daí o conhecimento de nós mesmos.

Ortega Y Gasset disse “eu sou eu e minha circunstância”. Além de nossa própria personalidade, o mundo (minha circunstância) exerce uma enorme influência sobre nós através de complexas relações recíprocas. Tom se lança no caminho, provavelmente sem saber porque, mas talvez segurando-se no remorso de não ter realmente escutado o filho e ter deixado de lado uma oportunidade que nunca mais voltaria, a de fazerem uma jornada juntos. A realidade de Tom era centrada em si mesmo, daí a importância de um dos últimos diálogos com Tom: “Eu escolhi a vida que levo, e não me arrependo dela”. Daniel, já nos seus 40 anos, vivendo uma vida em que não vê muito sentido, retruca ” a gente não escolhe uma vida, a gente vive uma vida”.

Esse é uma das idéias centrais do filme. As circunstâncias importam, o mundo importa. Durante toda sua vida Daniel viveu a vida traçada junto com o pai; sua jornada era de abertura para o mundo. Em seu caso, as circunstâncias cobraram seu preço e talvez ainda não estivesse preparado para uma aventura tão radical, como a de fazer sozinho a Caminhada. Em sua inadequação de lidar com o mundo, e sua impaciência de não mais se deter pelos outros, ignorou o conselho dos camponeses sobre o frio que se aproximava, possivelmente identificando nele a voz do pai.

Tom inicia sua jornada por motivos bem diferentes. Não há o menor desejo de ver o mundo, pelo contrário, há uma posição de rejeição a tudo que está a sua volta. Em certo instante, Todt, o holandês, comenta com Sarah, a canadense, que ele jamais parava para ver a paisagem, para admirar o próprio Caminho. Não por acaso estava sempre caminhando a frente de seus companheiros, como é próprio daqueles que tem um objetivo a sua frente e resolve colocar toda suas forças em sua conquista. A atitude de Tom é a de um fanático com uma missão.

Mas que companheiros? Onde entram o holandês e a canadense? E mais um pouco, o irlandês Jack?

Aqui temos outro exemplo do jogo de percepções que Estevez explora com muita sensibilidade. De um lado temos um homem amargurado, que resolve fazer a caminhada para cumprir o último desejo do filho morto e talvez exorcizar seus próprios fantasmas. De outro temos um holandês que resolve fazer a caminhada porque deseja emagrecer para ir em um casamento, uma mulher que quer parar de fumar e um escritor que quer superar seu bloqueio criativo.

Constratando a seriedade e poucas palavras de Tom com a futileza de Todt, a agressividade de Sarah e a verbarrogia de Jack, é fácil nos convencermos que Tom é um homem superior, vivendo em um outro plano da maturidade, obrigado a conviver com pessoas fúteis que fazem o Caminho por não terem nada melhor para fazer.

Acontece que todos eles escondem, até de si próprios, seus verdadeiros motivos. Todt está perdido em sua intemperança, com o casamento em crise, enfrentando as conseqüências de uma vida sem limites, voltada apenas para a diversão. É uma vida sem propósitos superiores, sem um sentido do geral, voltada apenas para si mesmo, que termina por gerar aqueles sintomas de depressão de quem está deixando passar sua existência sem construir efetivamente nada.

Sarah vive com o remorso de ter tomado uma decisão que na época lhe pareceu totalmente racional; mas que se arrepende por talvez ter percebido que era uma decisão que não tinha o direito de tomar. Uma vida potencial ainda assim é uma vida e não uma simples possibilidade. O retrato de uma realidade muito presente no mundo em que vivemos onde somos convencidos que podemos fazer qualquer coisa e depois somos deixados a nossa própria sorte para lidar com nossa própria consciência.

Jack enfrenta o problema de ter trocado sua integridade artística, de futuro muito incerto, para usar seu talento para conseguir uma vida confortável produzindo uma arte que não lhe engrandece. Como trocar o conforto e a segurança pela incerteza, inclusive do próprio talento?

E Tom? O que esconde sua imagem de profundeza? Uma vida pobre de realizações afetivas, uma personalidade voltada para si mesma, uma falsa simpatia que esconde um certo desprezo e um sentimento de superioridade devido ao próprio sucesso. Em suma, uma vida vazia, que como Daniel escondia uma ausência de um sentido geral.

Com a caminhada e a convivência, as máscaras começam a cair. A arrogância de Tom se mostra presente em Pamplona, quando é agressivo com Todt sobre um pedido de ” tapas ” em um café. Por instantes a armadura do Tom cavaleiro andante se abre e sua alma se revela. A cena em si é de muita felicidade, pois Todt mostra o tamanho de sua sensibilidade ao tentar impedir que Tom fale com o garçom. Ele sabe que Tom será desmentido e se angustia em seu lugar; mais importante do que ter razão, Todt não gosta de ver uma pessoa que admira passar por uma humilhação. Se naquela cena percebemos que Tom não é o que aparenta, a alma de Todt também se revela e percebemos que não é apenas um holandês de vida fútil.

Posteriormente, com os freios retirados pelo vinho, Tom mostra sua face ao agredir a tudo e todos; terminando preso pela polícia local. A partir desse momento, não há mais espaço para máscaras. Os quatro viajantes estão juntos e sabem que não há sentido nenhum em esconder dos outros o que realmente são. Mais do que isso, entenderem o que realmente são; e isso passa necessariamente por entenderem uns aos outros.

A partir desse episódio, Tom já não caminha a frente deles, já não tem a atitude resoluta de um fanático. Começa um esforço sincero de se abrir ao mundo, tanto a natureza representada pela paisagem do Caminho como com o próximo, através dos três companheiros. Pela primeira vez na vida Tom se permite elevar a importância de sua circunstância e dessa forma abrir espaço para a verdadeira colocação de sua personalidade no mundo.

Yo soy yo e mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo.

O Caminho de Compostela tem esse sentido para Tom, o de salvar o mundo para salvar a si mesmo. Quando termina a caminhada, ele sabe que ainda falta muita coisa para completar essa jornada do espírito, a começar pela sua reconciliação com Deus, tema que apenas é sugerido em diversas passagens, mas que adquiriu um sentido para sua existência, o sentido geral que nem imaginava precisar.

Nenhum dos personagens encontra uma solução definitiva para suas vidas, mas conseguem algo de precioso. Uma iluminação sobre a natureza dos próprios problemas e a consciência de que precisam lidar com eles. Já é um grande avanço.

The Way é por todas essas razões um filme profundo e rico, uma bela estória de Emilio Estevez que me lembra um adágio inesquecível de outro cineasta, o saudoso Eric Rhomer:

filmes, nos ensinam a ver.

The Way faz realmente isso, nos ensina a ver. Mais precisamente, a nos ver a partir de nossa percepção do outro. A partir de nossa relação com o mundo.

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