O Vltava (ou Moldau)

O poema musical Vltava é uma composição do século XIX do compositor tcheco Bedrich Smetana e faz parte de um conjunto de 6 peças entitulado Má vlast (minha terra natal). Trata-se de uma obra de cunho nacionalista, que Smetana tenta traduzir seu amor por sua pátria.

Vltava ou Moldau é o rio que nasce na Bohemia e termina na cidade de Praga e a música de 12 minutos acompanha a trajetória do rio. Trata-se de uma das mais belas composições musicais já feitas na história, e minha preferida. Ela aparece no filme A Árvore da Vida, remetendo ao rio como símbolo da própria existência humana.

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O mais belo soneto em língua inglesa (pelo menos é o que dizia Ezra Pound)

Acabei de gravar uma explicação para esse soneto de Mark Alexander Boyd (Sec XVI). Em edição. Em breve, na minha página do Facebook.

From bank to bank, from wood to wood I run,
Overwhelmed with my feeble fantasy;
Like a leaf that falls from a tree,
Or a reed overblown with the wind.
Two gods guide me: the one of them is blind,
Yes and a child brought up in vanity:
The next a wife born of the sea,
And lighter than a dolphin with her fin.

Unhappy is the man for evermore
That tills the sand and sows in the air;
But twice unhappier is he, I learn,
That feeds in his heart a mad desire,
And follows a woman through the fire,
Led by a blind and taught by a child.

Decálogo (1988)

O homem e suas particularidades

 

São Tomás de Aquino ensinava que as leis morais são eminentemente gerais enquanto que as situações em que vivemos são particulares e concretas. A sabedoria estaria na capacidade de analisando o quadro que se apresenta em cada momento para o homem, entender como se aplicam estas leis. Decálogo, de Krzysztof Kieslowski, é uma obra que nos mostra este problema com toda nitidez.

 

imagesEm 1988, nos últimos dias da Polônia comunista, o grande diretor levou adiante uma idéia de Kzrysztof Piesiewski de fazer um filme sobre cada mandamento do decálogo bíblico. Conceberam juntos 10 filmes de uma hora, cada um abordando livremente cada uma das leis reveladas por Moisés no Monte Sinai. A série realizada para a televisão polonesa venceu o festival de Veneza e revelou para o mundo o talento extraordinário de Kieslowski.

 

Embora tenha por base um tema bíblico, a obra não tem caráter religioso, pelo menos explícito. É possível abstrair totalmente da moral cristã para apreciar os filmes pois na verdade os 10 mandamentos não trouxeram nada de novo para a humanidade, apenas codificaram leis que o próprio povo hebreu já tinha chegado em sua experiência histórica. Os mandamentos se encontram  presentes no coração dos homens, faz parte de nossa situação existencial. Temos uma moral natural que não podemos fugir, como se evidencia em cada episódio filmado.

 

O aspecto religioso é praticamente ignorado nos filmes, com exceção do primeiro, e mais triste. Mesmo neste caso, a religião não é essencial para o desenrolar dos acontecimentos em que um pai que confiou demais na ciência e colocou o bom senso de lado. O mesmo vale para a situação social da Polônia. Não há nenhuma referência à situação política e social do país, mostrando que o foco de Kieslowski era o que nos une e não o que nos separa. Seus dilemas e situações são universais, comuns a todos nós.

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Por isso os personagens nos são tão reais e familiares. Qualquer um dos filmes poderiam acontecer em qualquer cultura do mundo, e acontecem! Por mais extrema que algumas situações sejam, como o rapaz desajustado que explode em violência no episódio V (Não Matarás), o episódio se revela de uma banalidade atroz. Como acontece na realidade, nenhuma situação é simples de ser julgada,ou clara a ponto de termos a convicção que o personagem agiu certo ou errado, como o dilema de uma mão adolescente que termina por roubar o próprio filho no episódio VII (Não roubarás).

 

Há também um componente de mistério na aparição do mesmo ator fazendo diferentes papéis em 8 dos 10 filmes. O próprio Kieslowski fez questão de não dar nenhuma pista sobre o seu significado, deixando para cada um de nós a interpretação. Ele surge sempre que algum personagem está prestes a tomar uma decisão sobre um dos dilemas morais que se encontra. Será ele a imagem de Deus a nos observar? Se assim for, resta evidente que é um Deus que não só concedeu o livre arbítrio ao homem como respeita esta liberdade, tanto que o personagem não faz absolutamente nada para influenciar a decisão, apenas observa.

 

As situações acontecem todas em um mesmo condomínio de Varsóvia, e personagens de diversas histórias acabam se cruzando eventualmente, recurso que o diretor repetiria na sua trilogia das cores. Outro recurso interessante são as inversões. É possível na primeira metade ter verdadeira antipatia por um personagem e depois, sem notarmos, nos deixarmos levar por uma empatia e até mesmo tentativa de compreensão, como acontece com o jovem que é condenado à morte ou ao taxista, que por pior que fosse, não merecia o fim que teve.

 

Acima de tudo, Kieslowski consegue a proeza de fazer 10 filmes maravilhosos. Cada um achará seus preferidos, mas duvido que cheguem a algum consenso. Não há nenhum filme que esteja muito abaixo ou acima dos demais. A obra funciona tanto como peças individuais como um conjunto coeso sobre a condição humana. O elenco é primoroso, reunindo o que a Polônia tinha de melhor, tudo pontuado por uma trilha sonora inspirada, composta pelo maestro Zbigniew Preisner.

 

O crítico Roger Ebert recomenda que não se tente assistir os filmes todos de uma vez. Assista cada um a seu tempo, meditando sobre cada experiência, de preferência em boa companhia para ter alguém para discuti-los. Concordo inteiramente com ele, pois sem ter lido essa crítica, fiz exatamente assim. Durante 3 semanas assisti os filmes com minha esposa e tivemos boas e longas conversas sobre cada um dos filmes.

 

O cristianismo não inventou nenhuma moral, mas talvez tenha sido que melhor a sintetizou, inicialmente em 10 leis, e que com Cristo seriam resumidas a duas. Estas leis são universais e gerais, o que significa que valem para todos e que devem ser aplicadas com discernimento nas situações reais em que vivemos. Muitas vezes, como nos mostra Kieslowski, estas situações são confusas e difíceis de serem interpretadas, o que exige do homem o conhecimento não só das leis em si, mas de sua própria situação existencial. Justamente a experiência que Kieslowski nos proporciona em seu brilhante Decálogo.