Decálogo (1988)

O homem e suas particularidades

 

São Tomás de Aquino ensinava que as leis morais são eminentemente gerais enquanto que as situações em que vivemos são particulares e concretas. A sabedoria estaria na capacidade de analisando o quadro que se apresenta em cada momento para o homem, entender como se aplicam estas leis. Decálogo, de Krzysztof Kieslowski, é uma obra que nos mostra este problema com toda nitidez.

 

imagesEm 1988, nos últimos dias da Polônia comunista, o grande diretor levou adiante uma idéia de Kzrysztof Piesiewski de fazer um filme sobre cada mandamento do decálogo bíblico. Conceberam juntos 10 filmes de uma hora, cada um abordando livremente cada uma das leis reveladas por Moisés no Monte Sinai. A série realizada para a televisão polonesa venceu o festival de Veneza e revelou para o mundo o talento extraordinário de Kieslowski.

 

Embora tenha por base um tema bíblico, a obra não tem caráter religioso, pelo menos explícito. É possível abstrair totalmente da moral cristã para apreciar os filmes pois na verdade os 10 mandamentos não trouxeram nada de novo para a humanidade, apenas codificaram leis que o próprio povo hebreu já tinha chegado em sua experiência histórica. Os mandamentos se encontram  presentes no coração dos homens, faz parte de nossa situação existencial. Temos uma moral natural que não podemos fugir, como se evidencia em cada episódio filmado.

 

O aspecto religioso é praticamente ignorado nos filmes, com exceção do primeiro, e mais triste. Mesmo neste caso, a religião não é essencial para o desenrolar dos acontecimentos em que um pai que confiou demais na ciência e colocou o bom senso de lado. O mesmo vale para a situação social da Polônia. Não há nenhuma referência à situação política e social do país, mostrando que o foco de Kieslowski era o que nos une e não o que nos separa. Seus dilemas e situações são universais, comuns a todos nós.

images-1

Por isso os personagens nos são tão reais e familiares. Qualquer um dos filmes poderiam acontecer em qualquer cultura do mundo, e acontecem! Por mais extrema que algumas situações sejam, como o rapaz desajustado que explode em violência no episódio V (Não Matarás), o episódio se revela de uma banalidade atroz. Como acontece na realidade, nenhuma situação é simples de ser julgada,ou clara a ponto de termos a convicção que o personagem agiu certo ou errado, como o dilema de uma mão adolescente que termina por roubar o próprio filho no episódio VII (Não roubarás).

 

Há também um componente de mistério na aparição do mesmo ator fazendo diferentes papéis em 8 dos 10 filmes. O próprio Kieslowski fez questão de não dar nenhuma pista sobre o seu significado, deixando para cada um de nós a interpretação. Ele surge sempre que algum personagem está prestes a tomar uma decisão sobre um dos dilemas morais que se encontra. Será ele a imagem de Deus a nos observar? Se assim for, resta evidente que é um Deus que não só concedeu o livre arbítrio ao homem como respeita esta liberdade, tanto que o personagem não faz absolutamente nada para influenciar a decisão, apenas observa.

 

As situações acontecem todas em um mesmo condomínio de Varsóvia, e personagens de diversas histórias acabam se cruzando eventualmente, recurso que o diretor repetiria na sua trilogia das cores. Outro recurso interessante são as inversões. É possível na primeira metade ter verdadeira antipatia por um personagem e depois, sem notarmos, nos deixarmos levar por uma empatia e até mesmo tentativa de compreensão, como acontece com o jovem que é condenado à morte ou ao taxista, que por pior que fosse, não merecia o fim que teve.

 

Acima de tudo, Kieslowski consegue a proeza de fazer 10 filmes maravilhosos. Cada um achará seus preferidos, mas duvido que cheguem a algum consenso. Não há nenhum filme que esteja muito abaixo ou acima dos demais. A obra funciona tanto como peças individuais como um conjunto coeso sobre a condição humana. O elenco é primoroso, reunindo o que a Polônia tinha de melhor, tudo pontuado por uma trilha sonora inspirada, composta pelo maestro Zbigniew Preisner.

 

O crítico Roger Ebert recomenda que não se tente assistir os filmes todos de uma vez. Assista cada um a seu tempo, meditando sobre cada experiência, de preferência em boa companhia para ter alguém para discuti-los. Concordo inteiramente com ele, pois sem ter lido essa crítica, fiz exatamente assim. Durante 3 semanas assisti os filmes com minha esposa e tivemos boas e longas conversas sobre cada um dos filmes.

 

O cristianismo não inventou nenhuma moral, mas talvez tenha sido que melhor a sintetizou, inicialmente em 10 leis, e que com Cristo seriam resumidas a duas. Estas leis são universais e gerais, o que significa que valem para todos e que devem ser aplicadas com discernimento nas situações reais em que vivemos. Muitas vezes, como nos mostra Kieslowski, estas situações são confusas e difíceis de serem interpretadas, o que exige do homem o conhecimento não só das leis em si, mas de sua própria situação existencial. Justamente a experiência que Kieslowski nos proporciona em seu brilhante Decálogo.

O retrato de uma sociedade sem substância

A Regra do Jogo (La Regle du jeu, 1939)

Poucas vezes vi uma sociedade retratada com tanta agudeza quanto neste clássico de Jean Renoir. Nele o fenômeno da segunda realidade, retratado inicialmente por Cervantes, ganha sua imagem no cinema, mostrando que ao retratar o mundo os artistas acabam por chegar no mesmo ponto, intencionalmente ou não. A realidade do mundo moderno é mais do que um mundo sem valores, ou niilista, mas um mundo divorciado do sentido do real.

Caçando coelhos
Caçando coelhos

As vésperas da segunda guerra mundial, um aviador francês é saudado como herói após atravessar o atlântico. O detalhe é que ele estava simplesmente repetindo a façanha do aviador americano Charles Lindbergh com 10 anos de atraso! No entanto, André Jureu, o aviador, ao invés de assumir o papel que se espera dele, reclama que a mulher que ama, e por quem teria feito o vôo, não foi recebê-lo como os demais. Na verdade, Christine é esposa de Robert, marquês de la Cheyniest, que aliás tem um caso com Geneviére, outra dama da sociedade.

A maior parte do filme se desenrola na casa de campo do Marquês, onde nobres e criados se entregam a caça uns dos outros, parodiando a caçada aos coelhos brilhantemente mostrada no filme. Praticamente todos possuem amantes e usam de todos os meios para conseguirem driblar os respectivos maridos e esposas, o que é copiado pelos criados, com menos meios do que os primeiros.

O fenômeno da segunda realidade, evidenciada pela primeira vez por Cervantes, mostra que o homem ao recusar o mundo real acaba por criar uma realidade própria a partir de alguns pressupostos simples. Dom Quixote cria seu mundo a partir das novelas de cavalaria, assim como os personagens de Renoir criam o seu a partir de alguns princípios que são mostrados aos poucos no filme, normalmente anunciado pelo farsesco Octave. A sociedade mostrada no filme é a mesma corte que Cervantes nos apresenta no segundo livro de Dom Quixote, um reino em que nobres entediados e fúteis passam a viver a aventura do cavaleiro andante, mergulhando de cabeça no seu mundo de sonhos. A segunda realidade toma o lugar da primeira.

Jureu evidencia o herói moderno que como Octave aponta, é capaz de grandes façanhas no céu mas que o chegar na terra é frágil e perdido. Basta pensar nos heróis de hoje, normalmente vindo do show business ou do esporte,  que fora de seus papéis se portam como verdadeiros idiotas. Em um mundo sem virtudes, um herói não tem onde se apoiar, e se torna apenas uma fonte de ilusões.

Octave: You have to understand, its the plight of all heroes today. In the air, they’re terrific. But when they come back to earth, they’re weak, poor, and helpless.

Mais do que a ausência de valores, o filme mostra os valores desordenados, isolados e enlouquecidos. O guarda caças Schumacher, por exemplo, diante da traição da esposa, a criada pessoal de Christine, parte enlouquecido para limpar sua honra. Em nenhum momento vemos um afeto sincero por Lisette, apenas a figura de um homem em defesa de sua propriedade. Ele não entende as regras do jogo.

Sociedade farsesca
Sociedade farsesca

A vida amorosa mostrada no Chateau não é mais que um jogo. Há muito pouca tensão sexual no filme e os personagens parecem se divertir mais com as caçadas e ardis do que com a realização da conquista. Robert, por exemplo, está entediado com sua amante, como normalmente acontece com quem se entrega a um jogo e consegue seu prêmio. Christine tenta resistir e sonha com o amor do tipo romântico, mas está sempre com um pé em cada mundo, perdida no meio de tantas ilusões.

O mundo dos criados é retratado como uma sombra da nobreza, emulando seus esquemas com os meios que dispõem. O problema é quando estes dois mundo se tocam e um mal jogador, como Schumacher, tem uma arma na mão. A farsa se transforma em tragédia, para depois se transformar em farsa novamente. Pelo menos enquanto durarem as ilusões.

Robert, ao contrário, é mestre do jogo. Consegue se colocar acima da situação da maioria, ironizando constantemente o próprio jogo que participa. Seu discurso para seus convidados no final do filme é antológico.

Renoir era membro da esquerda francesa, e já havia o embate cultural com os nazistas em seu país. Fiel ao esquema marxista, as duas classes são mostradas como mundos a parte, unidos por laços de fidelidade. Ou seja, na hora da confusão, o nobre ficará ao lado do nobre, o plebeu ao lado do plebeu. O sonho socialista que nunca se realizou pois a realidade é que a história do mundo não é a história da luta de classes, esta ficção que está mais na cabeça de alguns ideólogos do que na das pessoas comuns. Felizmente, como um bom artista, Renoir não consegue fugir da realidade; nobres e plebeus se unem e se afastam em torno das questões clássicas como simpatias, amizade e amor.

Sem dúvida um dos grandes clássicos do cinema, que merece ser visto e revisto. O filme talvez seja mais atual do que antes, pois o quadro que se mostrava na década de 30 é ainda mais evidente nos dias de hoje. Quem acha que a nobreza acabou, nunca parou para observar as novas elites, especialmente no show business, jornalismo, esportes, cultura, política. Comportam-se da mesma maneira que os personagens de A Regra do Jogo, com suas tragédias e comédias como a do goleiro Bruno, Pimenta da Veiga, Lindsay Lohan, Michael Jackson, Collor, Renan Calheiros e tantos outros exemplos de nossos heróis (ou anti-heróis) modernos.

Robert de la Cheyniest: [to Schumacher] I have no choice but to dismiss you. It breaks my heart, but I can’t expose my guests to your firearms. It may be wrong of them, but they value their lives.

Roger Ebert

Morreu hoje o crítico de cinema Roger Ebert. Basta dizer que tenho três livros dele em minha estante como fonte constante de consulta. É sem dúvida uma das minhas referências quanto o assunto é a sétima arte.

Por vía de suas críticas descobri muitas obras valiosíssimas. Ao contrário da imagem que temos dos norte-americanos, Ebert tinha a especial qualidade de observar com muita atenção o que acontecia fora de seu país. Além de uma paixão toda especial pelos clássicos, independente da bandeira.

Que descanse em paz.

Dark Knight Rises

Batman, o anti-revolucionário

Russell Kirk identificou como primeiro princípio conservador, e mais importante deles, a crença em uma ordem moral duradoura. O assunto é antigo e vem desde as reflexões de Sócrates e Platão, passando pelo trabalho monumental de Santo Agostinho e chegando aos pensadores ingleses da modernidade. Existe uma ordem moral independente do espaço e tempo, que vale para todo o sempre e está acima das sociedades humanas. O revolucionário acredita que a ordem é um produto da sociedade e fonte de todas as injustiças. Para que um novo mundo de justiça se estabeleça, trazendo o paraíso cristão para a esfera do mundo, é necessário destruir esta ordem e implantar um novo sistema de valores, mais adequado ao novo homem renovado, produto da revolução.

dark-knight-rises1
ordem x caos

Neste sentido, o Batman de Christopher Nolan é o anti-revolucionário por natureza, o que fica bem explícito no filme The Dark Knights Rises, de longe o melhor filme do cavaleiro das trevas feito para o cinema, superando o já excelente The Dark Knight. Não por acaso o filme tem por inspiração o clássico de Dickens “O Conto de duas Cidades”, primeira obra da literatura a mostrar a imagem verdadeira da revolução francesa.

Oito anos depois dos acontecimentos do filme anterior, Bruce Wayne encontra-se recluso, em clara depressão. O Batman foi aposentado e sem ele o milionário não encontra sentido para continuar vivendo. Lembrando do conceito de Victor Frankl, o sentido da vida é aquilo que só  você pode fazer; para Wayne este sentido é Batman. Um homem que vive sem esta noção de missão pessoal é uma presa para melancolia e depressão. Esta situação é fruto da  mentira que se estabeleceu como base da Gotham que emergiu do conflito com o niilismo do Coringa, que Batman teria matado o grande promotor Harvey Dent. Alguém já disse que nenhuma sociedade consegue se estabelecer dentro de uma ordem a partir de falsos princípios; Gotham exemplifica essa constatação. Por causa do desaparecimento de Batman, Wayne perde interesse por seus próprios negócios e por causa disso os lucros das empresas Wayne despencam. E com ela todo produto econômico de suas atividades, incluindo a filantropia.

Esse ponto é muito importante para conectar com o que vivemos hoje. Sem lucro não há filantropia pois nada resta para investir, seja na própria empresa ou seja na ajudo a quem precisa. Sem a dinâmica das empresas Wayne, toda ajuda deve se concentrar nas estruturas do estado, que sempre serão insuficientes para atender a todos. O resultado é uma Gotham claramente decadente e ressentida, um ambiente propício para surgir um contestador da ordem.

Esse homem é Bane, que como ele diz no primeiro confronto com Batman, nunca teve nada; a sociedade sempre foi para ele um peso, um inimigo. Enquanto o Coringa, representante do niilismo, queria destruir a ordem para implantar o caos; Baine é bem mais perigoso, quer destruir a ordem para implantar uma nova, que faça justiça a todos que estavam a margem da sociedade, sofrendo as suas consequências.

O símbolo da ocupação da bolsa de Gotham não é por acaso e não, não foi inspirada no movimento Occupy Wall Street, embora deixe claro a alienação  do movimento. A polícia se encontra reticente em invadir o prédio e se arriscar por causa do dinheiro dos ricos, quando alguém lembra a eles que não se tratava do dinheiro dos ricos, mas de todos eles, inclusive da pensão dos policiais.

Bane derrota Batman e toma o controle de Gotham, que nada mais é que Nova Iorque, estabelecendo um estado revolucionário; trata-se nada mais e nada menos que a revolução francesa, inclusive com seus tribunais revolucionários, chefiados pelo espantalho, onde a condenação já está definida entes de qualquer processo. A tão falada ordem burguesa é subvertida e a polícia de Gothan, que representa esta ordem, é aprisionada nos esgotos, onde anteriormente estava o exército de Bane. Fica clara a inversão de papéis na nova ordem.

Bane: We take Gotham from the corrupt! The rich! The oppressors of generations who have kept you down with myths of opportunity, and we give it back to you…the people…Gotham is yours. None shall interfere, do as you please!

catwoman
Achando que sabe tudo

A Mulher Gato é uma espécie de Robin Hood, roubando dos ricos que, segundo ela, possuem tudo enquanto a maioria nada tem. Por diversas vezes trai Batman, chegando a entregá-lo a Bane. Ela é como a imensidade de inocentes úteis, revoltados com a ordem existente e que anseiam por uma revolução, por colocar tudo de pernas por ar. Quando a revolução chega finalmente, descobre que a coisa não é tão bonita como achava que seria e trata de se mandar.

Agora, um aviso: quem não quiser saber o fim do filme, pule direto para a conclusão. A partir daqui continue por sua conta e risco.

Finalmente temos a pessoa da Madame Defarge, no filme a executiva ambientalista Miranda Tate, que na verdade é Talia al Ghul. Ela está por trás de Bane e por baixo de seu suporto amor pela natureza está o ódio ao ser humano e seu desejo escatológico de vê-lo desaparecer do planeta. Parece familiar? Por trás de todo revolucionário existe um poder dentro da ordem, apenas querendo eliminar concorrência para se tornar absoluto.

Como em Um Conto de Duas Cidades, fica patente que todo o chamamento por justiça é apenas um jogo de palavras, o que o revolucionário quer é vingança contra todos que acredita ser causadores de seu sofrimento. Por isso o tribunal revolucionário é uma grande mentira, seus réus já estão condenados simplesmente por pertencerem a determinado agrupamento humano e não por seus atos efetivos. Alguns nobres acreditaram que poderiam se beneficiar da Revolução Francesa por estarem a favor do “povo”; terminaram na guilhotina junto com os demais. Assim com Robespierre, ou o Bane, na versão de Nolan.

Finalmente temos Batman, que como Sidney Carton, deve passar por uma verdadeira revolução íntima para entender que deve ser capaz do último sacrifício para combater o mal que se espalha com a subversão da ordem.  Para salvar Gotham, Batman vai precisar se sacrificar, como Carton. Isso fica claro no diálogo com a mulher gato:

Selina Kyle: Sorry to keep letting you down.Come with me. Save yourself. You don’t owe these people anymore, you’ve given them everything.
Bruce Wayne/Batman: Not everything. Not yet.

Conclusão

Dark Night Rising é um film rico em significados e simbolismos, principalmente com sua fidelidade à realidade. O mundo fantástico retratado por Nolan é o espelho do mundo em que vivemos, onde forças revoltadas ameaçam a todo tempo destruir a ordem imemorial que existe na eternidade do tempo. Batmam é o símbolo que luta contra esta grande mentira, de que podemos criar uma nova ordem contrária a esta, pois sabe, instintivamente ou não, que o resultado será o caos, um mundo sem honra e virtudes verdadeiras.

O mundo dos revolucionários, conforme o construído por Bane em Gotham, não pode durar pois baseia-se no que a humanidade tem de pior, o ódio. Nada construído sobre o signo da mentira, ou seja, que rompa com o real, pode durar muito tempo na história e só gerará sofrimento enquanto durar. É produto de monstros morais, que desprezam o ser humano concreto, em nome de alguma idéia de novo homem renovado, fruto da revolução. Essa escatologia adaptada da escatologia cristã é a grande fonte do mal em nosso tempo e ainda continua presente no coração de muita gente que simplesmente não aceita o mundo como ele efetivamente é.

O problema é que os Batmans do mundo são cada vez mais raros e os revolucionários descobriram que podem subverter a ordem de dentro dela, sem rupturas dramáticas, apenas esvaziando a ordem de todo seu sentido verdadeiro. Mas esta é outra estória, ou outro filme.

Dark Night Rising, apesar dos exageros de um filme de ação, consegue se colocar bem acima de quase todos os filmes do tipo, a ponto de se questionar se é na verdade um filme de ação, pois consegue o que há mais de 2000 anos o sábio Aristóteles defendia no seu livro Poética. O sentido da arte é imitar a realidade e explorar os limites das possibilidades humanas. Coisa que Nolan fez com maestria.

Filmes na viagem

Com um bom atraso, faço o registro dos filmes que vi na viagem para o Brasil, durante os vôos.

The Shop Around the Corner (1940)

Um dos grandes problemas da comunicação são os mal entendidos. Os efeitos são ainda mais dramáticos quando a comunicação deficiente se dá entre pessoas boas, que se querem bem, gerando toda espécie de sofrimentos desnecessários. No filme, baseado em peça de teatro, existem basicamente duas comunicações problemáticas, as duas tendo Kralik, personagem de James Stewart, como pivô.

Na primeira, há algo evidentemente fora do lugar na comunicação entre ele e seu chefe. Durante anos ele foi o braço direito na loja de Matuschek, em Budapeste, mesmo tendo a impertinência de muitas vezes contrariar seu patrão, mas sempre dizendo a verdade. Seu contraste evidente é com Vadas, sempre pronto a agradar o patrão e buscar seus benefícios. No entanto, algo acontece provocando a deterioração no relacionamento de kralik.

Na segunda comunicação, entre Kralik e a recém contratada Miss Novak, existem dois planos distintos. No primeiro, fruto de um começo tumultuado, os dois não se suportam e trabalham sob constante atrito. No segundo, se correspondem como admiradores secretos, sem saber quem é o correspondente, e  a comunicação efetivamente se estabelece. É fácil ver que no primeiro caso, as aparências causam o engano e no segundo, livre dos preconceitos estabelecidos, há uma ligação afetiva de duas almas que se encontram.

O filme You’ve Got Mail (1998) usou a segunda situação como base. Esqueçam. Fiquem com o original pois, como acontece na maioria dos casos, é bem melhor e mais rico. Um excelente filme.

The Big Sleep (1946)

Um dos clássicos do filme noir, com suas tramas cheia de reviravoltas e que no fundo se sustenta na química entre o detetive particular Marlowe (Bogart) e uma rica herdeira Vivian (Bacall, deslumbrante). Howard Hawks recrutou um time de primeira para escrever o roteiro, entre eles simplesmente William Faulkner, que é simplesmente uma maravilha em si. Um show de tiradas e ironias mordazes, especialmente entre seus protagonistas.

A trama da investigação de uma chantagem conduz a uma série de assassinatos e é tão intricada que em determinado ponto você desiste de entendê-la e se deixa levar pelo espetáculo. O filme se baseia em um livro de Raymond Chandler e o próprio autor deixa passar um assassinato sem a devida explicação, mostrando que a investigação é o verdadeiro assunto do filme.

The Dark Knights Rising (2012)

Ultimamente tenho sido reticente com filmes de ação e por pouco não deixo passar o melhor filme do Batman, e toda riqueza que se esconde debaixo de explosões e perseguições de carro, moto, etc. No meio do filme fica evidente que a principal referência do filme é um clássico de Dickens, o maravilhoso Conto de Duas Cidades. 

Neste filme Batman mostra com toda força sua natureza anti-revolucionária. Antes de tudo é um defensor da ordem.

Estou trabalhando em um texto especial sobre este filme. Paro por aqui.

Sunrise: A Song of Two Humans (1927)

Caminho para redenção

Muitas vezes, ao cairmos, nos perguntamos por que não fizemos diferente, por que na última hora não desistimos de praticar o mal. Principalmente quando percebemos que o prêmio não era tudo o que imaginávamos e que o sofrimento que provocamos era absolutamente desnecessário e pior, que atingia pessoas que realmente amamos. Pois o diretor alemão F. W. Murnau filma uma autêntica obra de arte ao retratar um homem que no momento derradeiro recua e deixa de praticar o ato extremo de maldade, o de retirar uma vida humana.

Sunrise 2

O filme conta a estória de um fazendeiro que vivia feliz com sua esposa e seu bebê, iniciando um família, até que uma mulher da cidade surge e se tornam amantes. Há algo na sofisticação, na falta de escrúpulos de mulheres assim que encanta e é capaz de levar homens simples a perder completamente o bom senso. É o que acontece com o protagonista que recebe a proposta definitivamente da amante: matar a esposa e fugirem para a cidade.

O homem reluta mas finalmente acaba cedendo à tentação e visivelmente transtornado leva a esposa para um passeio através do lago, onde pretende afogá-la. A presença do mal no mundo ensina que qualquer homem é capaz de matar, mesmo o mais simples e honesto, mas sempre achei que um homem assim deveria estar fora de si para cometer tal ato. É justamente o que Murnau retrata com absoluta beleza. O filme é mudo, o que só evidencia o extraordinário talento que George O’Brien ao carregar todo seu conflito interior em suas expressões faciais. Ele nos apresenta um repertório completo: alegria, alívio, tristeza, dor, arrependimento, desejo, ódio, sofrimento. Impressionante.

Pois no último momento, quando sua esposa se defende apenas com as mãos junto ao peito, como se fosse orar, e escuta os sinos da Igreja, o fazendeiro consegue romper a ligação com a maldade em seu próprio coração e deixa de praticar o ato torpe. O milagre pode se esconder em pequenas coisas, como o toque de um sino na hora crucial. 

O que se segue é a sua jornada de redenção. Depois de atravessar o lago, seguem até a cidade onde ele mostra todo o arrependimento até conseguir o perdão de sua esposa. Amar é saber perdoar e o clima dramático do filme é quebrado pela redescoberta do amor ou mesmo da sua verdadeira descoberta. Pode ser que só naquele instante, quando esteve a ponto de perder a esposa, tenha entendido de fato a sua importância.

Sunrise

Felizmente muito poucos chegam a assassinar o outro diante da promessa de uma felicidade absoluta em um novo relacionamento que parece muito mais excitante e sofisticado. Infelizmente muitos chegam a romper os laços e terminar uma família para viver esta aventura. Boa parte se arrepende  e se lamenta porque não recuou no último momento, porque não interrompeu a marcha da insensatez enquanto era tempo. 

O fazendeiro, Murnau não usa nenhum nome no filme, consegue evitar o ato sem volta, mas enquanto se diverte com a esposa na cidade, as imagens da amante pensando no crime que ele deveria estar cometendo mostra que nem tudo acabou, que o mal ainda pode se apresentar se nos abrirmos a ele. O destino ainda reservaria ao fazendeiro uma última provação pois não basta apenas se arrepender do pecado, é preciso repará-lo.

Um filme maravilhoso em todos os aspectos. Arte na sua expressão mais ampla, usando todos os recursos que a tecnologia da época podia fornecer e nos apresentando imagens geniais como a “possessão” do fazendeiro pela amante quando ele decide levar adiante o crime, o sofrimento na Igreja ao ouvir um padre relembrar a responsabilidade que se associa a um casamento ou a mudança que uma simples barba feita consegue provocar. Uma verdadeira aula de cinema, uma arte que estava apenas começando.

Mr Smith Goes to Washington (1939)

As instituições, por melhores que sejam, não funcionam sozinhas. São preciso homens para conduzi-las e mais que isso, é preciso uma base moral para que funcionem adequadamente. É o que Frank Capra mostra em Mr. Smith Goes to Washington.

Com a morte de um senador, o governador deve indicar seu substituto. O problema é que uma importante votação se aproxima a respeito da aprovação de uma represa, que interessa pessoalmente o homem que está por trás tanto do governador quanto do outro senador do estado. Trata-se do milionário Jim Taylor.

Capra já mostrava que mais do que votos, o dinheiro de empresários bancava a reeleição dos políticos. Um dos personagens diz no filme: confiar em quem na reeleição? No povo? Metade dele nem quer saber de votar! Assusta-me que a imagem mostrada no filme não diferencie muito do que vemos hoje, especialmente no Brasil, que tão bem conhecemos.

Mais do que a história de Jefferson Smith, o inocente idealista que é indicado pelo governador por ser aparentemente mais fácil de manobrar, o filme é a história do senador Joseph Paine, um homem honesto que vinte anos atrás aceitou a barganha de Taylor, a reeleição garantida por toda a vida em troca de alguns favores especiais.

Seria fácil mostrar Taylor como um mau caráter, mas o caminho que Capra escolhe é mostrar um homem atormentado por sua escolha, que realmente trabalha pelos interesses do seu estado e seu povo, pelo menos na maioria das vezes. No fundo Paine é um homem fraco, que coloca seus ideais em segundo plano. É o questionamento que muitos políticos enfrentam ao longo da vida, até onde pode-se transgredir um princípio para conseguir estar em posição de ajudar alguém?

Smith é o catalizador, é o homem que com toda sua fé em Paine coloca o velho político diante de seus demônios, e de suas escolhas. O filme cresce em dramaticidade na parte final, onde um incansável Smith tenta lembrar seus pares que é preciso homens com bom senso e moralidade para fazer as instituições funcionarem. Nenhum sistema, por melhor que seja concebido, consegue sobreviver sem este suporte moral. Inclusive a democracia em seu sentido mais amplo.

Que um filme da década de 30 continue tão atual revela que mais do que retratar uma época, Capra foi profético. O que antes era talvez uma exceção, hoje se transformou em uma regra, para a tristeza de todos nós.