Soneto A Frederico Nietzsche (Augusto dos Anjos)

Para que nesta vida o espírito esfalfaste
Em vãs meditações, homem meditabundo?
– Escalpelaste todo o cadáver do mundo
E, por fim, nada achaste… e, por fim, nada achaste!…

A loucura destruiu tudo o que arquitetaste
E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo!…
De que te serviu, pois, estudares profundo
O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?

Pois, para penetrar o mistério das lousas,
Foi-te mister sondar a substância das cousas
– Construíste de ilusões um mundo diferente,

Desconheceste Deus no vidro do astrolábio
E quando a Ciência vã te proclamava sábio,
A tua construção quebrou-se de repente!

Para os clássicos, a meditação filosófica começava nos problemas reais. Era comum Sócrates se encontrar com alguém no meio de Atenas e iniciarem um colóquio sobre alguma dificuldade prática, as chamadas coisas das pólis. 

Na filosofía moderna, esta exigência da realidade do assunto a ser investigado deixou de existir e muitos filósofos passaram a vida refletindo sobre questões abstratas, sem conexão com o mundo real. Um deles foi Nietzsche. Augusto acerta no ponto quando fala de vãs meditações; muitas vezes o filósofo alemão perdeu-se justamente nisso e só poderia chegar no fim que chegou: “nada achaste!”.

Estudou profundamente várias coisas, procurando sua substância, sua essência, mas sua rejeição a Deus o impediu de ver a causa final das coisas, a finalidade de tudo que existe, o porquê. O mundo que criou foi diferente do real, o mundo como idéia que falava Bruno Tolentino, um castelo de ilusões. E justamente quando foi reconhecido como um sábio por uma ciência preocupada em renegar a divindade, seu mundo se perdeu. Nietzsche morreu amargurado e louco. 

O homem que se desconectou completamente da realidade. 

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A Árvore Da Serra

– As árvores, meu filho, não têm alma!

esta árvore me serve de empecilho…

É preciso cortá-la, pois, meu filho,

Para que eu tenha uma velhice calma!

 

– Meu pai, por que sua ira não se acalma?!

Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!

Deus pôs almas nos cedros… no junquilho…

Esta árvore, meu pai, possui minha alma!…

 

– Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:

“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”

E quando a árvore, olhando a pátria serra,

 

Caiu aos golpes do machado bronco,

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra!