Como identificar um gênio

Uma das minhas regras para identificar um gênio é:

1) Escolha três obras aleatórias (ou nem tão aleatórias assim);

2) Se as três forem excepcionais, temos um gênio.

Claro que a classificação pode ser reavaliada com o tempo e alguns não precisam de um teste destes. Um exemplo é Cervantes. Até porque Dom Quixote é na verdade um conjunto de livros, todos excepcionais.

Usei estas regras, por exemplo, com Charles Dickens. Li o Conto de Natal, Grandes Esperanças e Um Conto de Duas Cidades. Sem palavras. Três livros sensacionais. Gênio. Depois ainda li Oliver Twist, que apenas confirmou o diagnóstico inicial.

Está em processo de classificação: Frank Capra, de quem assisti It’s a Wonderful World e Mr Deeds Goes to Town. Falta a terceira pois estas duas são excepcionais. E estava Ingmar Bergman, de quem tinha assistido O Sétimo Selo e Noites de Circo.

Estava, pois com Gritos e Sussurros ele entrou no panteão: Gênio!

Ingmar Bergman: gênio!
Ingmar Bergman: gênio!

Em tempo:

Outros exemplos de gênio seguindo a regra dos 3:

1) Akira Kurosawa: Os Sete Samurais, A Fortaleza Escondida e Rashomon

2) Sergio Leone: A trilogia dos dólares

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Cries and Whispers (1972)

Uma reflexão sobre a morte

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Esperando o inevitável

A morte é sempre um acontecimento marcante em nossas vidas, basta ver como uma morte distante é capaz de causar comoção em pessoas que não possuem a menor relação com aquela que está partindo. Quando ocorre na família, esta se transforma, nunca mais é a mesma. Ainda mais quando esta morte é consequência de uma longa doença, como o câncer.

Agnes está morrendo. Suas irmãs Karin e Maria, e a criada Anna, se revezam para cuidar dela em uma antiga mansão da família, no início do século XX. As imagens que Ingmar Bergman produz são intensas. Com pouquíssimos diálogos, pelo menos na primeira metade do filme, vamos conhecendo os personagens por suas expressões e atos. Aos poucos, por flashbacks, vamos conhecendo alguns segredos da família, que começam a surgir diante do inevitável.

Sim, a morte tem este poder. Trazer à tona segredos e principalmente ressentimentos que há muito estão escondidos. À medida que ela se aproxima, os sentimentos ficam mais intensos, prontos para explodir. Amores, traição, inveja, erotismo, loucura, tudo pronto para transbordar. Segredos que machucam, que não podem ficar retidos por muito tempo. E culpa. Muita culpa.

Bergman nos apresenta um espetáculo que parece ter sido tirado das páginas de Tcheckov. A morte é nossa única certeza e mesmo assim é capaz de causar tamanho impacto nas pessoas, particularmente nas mais próximas. Karin, Maria e Anna são testemunhas do sofrimento de Agnes, e convivem silenciosamente, entre sussurros, com os gritos de dor de quem está próximo de partir.

Um filme intenso e inquietante, com momentos perturbadores, que nos convida a refletir sobre como aproveitamos a dádiva da vida, pois ela pode nos ser tirada a qualquer momento. De forma rápida ou como Agnes, em lenta agonia. Um belo filme, sob todos os aspectos.

 

Quote:

Karin: [to Maria] You look so disconcerted. You thought our talk would be different, didn’t you? Do you realize I hate you and how foolish I find your insipid smile and your idiotic flirtatiousness?
[exhales]
Karin: How have I managed to tolerate you so long and not say anything? I know of what you’re made – with your empty caresses and your false laughter. Can you conceive how anyone can live with so much hate as has been my burden? There’s no relief, no charity, no help! There is nothing. Do you understand? Nothing can escape me for I see all!

E a vida continua, apesar de tudo

Noites de Circo (1953)

Quando nos abrimos para a vida sabemos que estamos assumindo riscos. Quem deseja amar, sabe que pode se decepcionar e muito. Se fosse nos dado o poder de decidir entre uma vida sem riscos, toda pré-determinada, sem ligações profundas para evitar as desilusões e decepções e entre uma vida em que as coisas podem dar muito certo, ou então muito errado, que a felicidade fosse uma chance, assim como a infelicidade. O que você escolheria?

O mesmo vale para a escolha da profissão. Entre uma vocação autêntica mas com alto risco de dar errado e uma profissão segura mas sem muitos atrativos, qual você escolheria? E nas amizades? E na escolha do lugar onde morar? No estilo de vida? Entre o risco e a segurança, onde você se colocaria?

Albert escolheu o risco. Seguindo o sonho de ter um circo, aventurou-se pela Suécia para tentar a sorte no sonho de sua vida. Apostou tudo, inclusive seu casamento e sua família. Depois de três anos retorna a sua cidade natal, com seu circo, praticamente falido.

Lá começa um ritual de humilhações sem fim, desde a tentativa de retorno à sua família, o diálogo com um diretor de teatro, a traição da amante e a provocação de um ator de teatro, a vida só oferece sua parte dura para Albert. Disposto a desistir de seus sonhos, busca na esposa que abandonara um tentativa de uma vida segura, mas ela o recusa. Talvez porque saiba que o desejo de Albert não é real, que aquela vida de segurança, mas insípida, não o segurará por muito tempo. Alberta é antes de tudo um homem aberto para a experiência real, uma experiência que simbolizada no próprio circo.

Noites de Circo é um filme de contrastes. O circo de Albert com o teatro, sua vida com a de sua esposa, dele com o ator que seduz Anne. Duas faces da mesma moeda, como o palhaço Frost que mostra no palco uma alegria que não tem na vida real. A segurança de que tem tudo, o desespero de quem nada tem. Como viver assim?

O filme é um dos primeiros de Ingmar Bergman e muito incompreendido quando foi lançado. O cineasta parecia não conseguir oferecer uma saída para os dilemas dos sofredores, uma esperança para uma vida de sofrimento e desilusão. No entanto, em diversos momentos Albert e Anne mostravam ser capazes de momentos de felicidade, muitas vezes pelas coisas mais banais. O circo é vida, como diz Albert a certa altura. E vida é realidade.

E por mais que as coisas pareçam sem solução, uma hora o circo tem que partir.

E a vida continua. Para Albert e para todos nós.