Exemplo de esquemas bíblicos

Continuando em meus estudos bíblicos, ontem li a passagem de sobre Jefté no livro de Juízes.

A observação de Northrop Frye de que toda literatura ocidental é feita de desdobramentos de esquemas bíblicos possui dois bons exemplos neste texto, de inegável qualidade artística literária.

Quem era Jefté? Era uma espécie de banido do reino de Gilead por ser filho de uma prostituta que vivia em Tobe junto a um grupo de bandidos ou vadios(depende da tradução). Diante da ameaça de invasão dos amonitas, os mesmos que o baniram foram buscá-lo para que os defendessem.

Quantas vezes esse esquema já se repetiu na literatura ou no cinema? Um exemplo clássico é o filme Os Sete Samurais onde um grupo de aldeões vai atrás de samurais, que eles temiam e desprezavam, para os proteger de um saque eminente de um grupo de bandidos. Ou Obi Wan indo atrás de Han Solo para os escoltar até Alderan. A ideia do esquema é um grupo indefeso procurar em um pária a defesa diante de um mal maior.

Na mesma narrativa, Jefté faz um pacto com Iahweh que se fosse vitorioso entregaria em holocausto a primeira pessoa que saísse de sua tenda ao retornar da campanha. Jefté vence e quando retorna sua única filha sai feliz para saudá-lo. Em desespero ele lamenta a promessa feita mas é consolada pela própria filha que ressalta a absoluta necessidade de cumprir a promessa, o que Jefté termina fazendo. Sem entrar na polêmica sobre se tratava de um sacrifício humano ou da castidade da filha (que deveria se retirar para uma vida de isolamento), o fato é que Jefté fez uma promessa sem pensar nas consequências pois acreditava que o sacrifício não seria seu.

Qual o esquema neste caso? Para pagar uma dívida se promete algo aparentemente sem valor, para logo em seguida descobrir o real valor do sacrifício. Até comédias românticas exploram este esquema! Quantos filmes não tem um amigo que arranja um encontro para a amiga para depois descobrir que gosta dela? Ou um pai que aceita um determinado compromisso sem saber que naquele horário surgiria algo de grande importância?

A Bíblia é, entre outras coisas, um livro de sabedoria porque mostra a condição humana no que temos de melhor e pior. Essas coisas estão tão impregnadas em nossa cultura que nem pensamos que a nossa ideia original na verdade já estava esquematizada em breves relatos como o de Jefté. Grandes autores tinham esses esquemas bem claros na hora de montar suas estórias, outros nem sabiam que estavam influenciados. Uma outra classe de autores simplesmente chegaram no mesmo esquema simplesmente observando a realidade e abrindo-se para a condição humana.

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No livrinho

No post sobre o desejo de uma felicidade segura comentei que o homem moderno cada vez mais abraçava a idéia de uma gaiola feliz. Na verdade, a coisa é antiga. Recorrendo ao livrinho, encontrei esta passagem:

E o vulgo, que estava no meio deles, veio a ter grande desejo; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar e disseram: Quem nos dará carne a comer? Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; e dos pepinos, e dos melões, e dos porros, e das cebolas, e dos alhos. (Números 11:4, 5)

O povo judeu no deserto tinha saudades da escravidão no Egito pois tinham mais conforto material lá do que peregrinando atrás de Moisés. Sentiam falta da gaiola feliz.

Em outras palavras, é da condição humana preferir a segurança, mesmo com o sacrifício da liberdade, do que se arriscar a caminhar perdido no deserto. Por causa disso, Deus castigou seu povo fazendo que passassem 40 anos no deserto e impedindo que as gerações mais velhas que deixaram o Egito chegassem na terra prometida. O homem deve aspirar mais do que uma gaiola feliz, deve construir sua própria felicidade e por isso recebeu o livre arbítrio, a mais importante dádiva que nos foi dada pelo criador.

Está tudo no livrinho, é só procurar. Afinal, não há nada de novo debaixo do céu.

Advertência de Paulo

Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas especulações da “filosofia”, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo. (Colossenses 2,8)

Há algum tempo que me convenci que viver de acordo com doutrinas descoladas da realidade é uma forma de prisão mental que acaba por limitar completamente o indivíduo. A paste mais triste da revolta contra Deus é fechar nossa alma para a transcendência, nos limitar a algumas poucas teorias que procuram explicar o mundo por algumas proposições simples, e viver nessa limitação. Essa é uma doença puramente intelectual, mas que afeta todo o mundo porque se espalha como a peste, principalmente com a força da mídia moderna e da globalização. É a doença de gente como Eric Hobsbawn, Paul Krugman, Chico Buarque, Marilena Chauí, Richard Rorty, Luis Fernando Veríssimo. Essa gente é triste porque suas vidas são pequenas e limitadas.

Paulo usa a palavra escravizar pois é justamente esse o perigo que imaginava, até porque ele mesmo foi um escravo de idéias. Três foram os perigos apontados pelo apóstolo dos gentios.

O primeiro é as especulações enganosas da “filosofia”. As aspas são essenciais aqui; nada em suas cartas está sobrando. Sabia que existia uma coisa chamada filosofia e outra chamada “filosofia”. No primeiro caso, temos a reflexão sobre a condição humana e sua relação com o mundo e com Deus; na segundo, uma falsa filosofia mas que a ela se assemelha. A reflexão sobre o nada. Sobre o que não existe, sobre conceitos abstratos completamente desprovidos de fundamento e ligação com o real. Foi a armadilha que pegou a maior parte dos filósofos modernos e justamente por isso gerou sistemas vazios mas que até hoje geram discípulos seguidores, que tanto seduzem os intelectuais da modernidade.

O segundo perigo são os enganos da tradição dos homens. Esse perigo era muito conhecido de Paulo pois foi escravo justamente da tradição religiosa de seu tempo. Perseguiu Jesus e seus discípulos sem reflexão, baseado vagamente no que chamava de Lei. É o perigo de seguir qualquer coisa sem a verdadeira reflexão, de colocar a sabedoria de lado por algum código já estabelecido. O próprio Cristo foi enfático em dizer que não veio revogar a lei e sim para lhe dar entendimento e prosseguimento. Na parábola do Bom Samaritano, diante de um doutor da lei que o experimentava pergunta: o que está escrito na lei? Como lês? Esse “como lês” é fundamental! Cristo já mostrava que por mais clara que seja uma lei ela deve se interpretada. Esse é o perigo da tradição irrefletida, que perpetua as injustiça e enganos.

Por fim, o terceiro perigo, os elementos do mundo. Aqui temos o cientificismo, um dos produtos do materialismo que separa conhecimento de técnica e confunde o segundo pelo primeiro. Toda vez que alguém brada qua a ciência prova alguma coisa temos os elementos do mundo escravizando o pensamento. Aqui temos a real politics, o pensamento de Maquiavel, a recusa da possibilidade do homem superar a si mesmo e suas circunstâncias. O consumismo, esse outro produto nefasto do materialismo. As doutrinas panteístas que confundem o mundo com Deus; as religiões vazias de falso espiritualismo.

O pensamento intelectual de nossa época é em grande parte limitado pela revolta. Uma revolta que nos torna escravos pois impede a força libertadora de uma ligação com a transcendência, do entendimento que a realidade não é apenas o que podemos enxergar. Que nosso mundo é uma comunidade de almas, que já morreram, que vivem e que viverão. Que cada geração em uma responsabilidade com seu passado e com seu futuro. Tudo isso Paulo sabia; e por isso advertiu os colonossenses.

Nosso destino é ser livres, para isso temos que ter coragem de nos libertar das correntes da caverna. De seguir a luz e ver a realidade, mesmo que no início segue nossos olhos como aconteceu com o filósofo. Que a fé não pode ser sega, seja em Deus ou em sua negação. No fundo, o versículo de Paulo é um convite à reflexão, à verdadeira filosofia. Pobres intelectuais que movidos pela vaidade se deixam escravizar por falsas idéias e tanto mal fazem à humanidade. Já passou da hora de assumirem uma postura humilde e aprenderem com os verdadeiros mestres do passado, que sabiam há milhares de anos mais do que sabemos hoje; mas que foram capazes de nos deixar esse imenso legado para nos educarmos e prosseguirmos de onde pararam.

Aprendendo mais um pouco com Paulo

Epístola aos Gálatas

 

Uma das questões centrais de uma religião são seus ritos, suas práticas estabelecidas. Isso era muito presente no tempo de Jesus entre os Judeus e Paulo bem o sabia como ex-rabino. A religião hebráica havia se tornando uma fonte exterioridades, tomando o lugar da verdadeira fé. Para os hebreus, tudo era a Lei, que na época era representada pela lei mosaica.

Na epístola aos Gálatas, Paulo vem reforçar mais uma vez sua missão cristã e sua conversão. Não era pelas obediência aos códigos religiosos, muitos já afastados da verdadeira ligação com Deus, que os homens seriam salvos; mas pela prática dos ensinamentos de Cristo. Dessa forma ele coloca aos gálatas uma oposição entre fé e a Lei. Não a lei de Deus, mas a lei que resumia o rigor religioso separado da divindade.

cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras de Lei, porque pelas obras da Lei ninguém será justificado.

Paulo argumenta que a promessa feita a Abraão referia-se à sua descendência e não aos seus descendentes. Esta descendência era Cristo. Os verdadeiros filhos de Abraão são os que tem, como ele, a fé no coração. O papel da Lei, centro do velhos testamento, foi guadar e tutelar um povo rude e bárbaro até que tivessem condições de receberem a fé.

Paulo quebra a noção de que a salvação era uma prerrogativa do povo judeus, fruto da aliança com Deus. A salvação era para todos.

Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus.

Poucos se dão conta dessa formidável frase do apóstolo dos gentios; do avanço que era para sua época. Igualava os judeus aos gregos (que representavam os não judeus, escravos e homens livres, homem e mulher. Essas coisas só começaram a ser compreendidas pelos homens muitos séculos depois; e não por acaso que a penetração do cristianismo se deu primeiro pelos mais humildes a ponte de ser chamado de religião de mulheres e escravos.

Por fim, Paulo coloca também a questão do espírito e a carne. Antecipando o que veríamos cada vez mais presente em nossa vida hoje, exortava para que nos guiássemos pelo espírito e não pela carne. A liberdade não poderia ser um pretexto para a carne, mas, pela caridade, a forma de nos colocar a serviço uns dos outros. Uma mensagem que vai contra tudo que a modernidade nos apresenta onde ser livre parece ser dispor de todos os prazeres materiais sem sentir culpa. Conclui:

O que o homem semear, isso colherá: quem semear na sua carne, da carne colherá corrupção; quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna.

 

Manual do fabricante

Uma vez um grande amigo meu definiu a Bíblica como o manual do fabricante. Nunca esqueci essa definição, que por sinal veio a minha mente várias vezes enquanto lia o primeiro de seus livros, Gênesis.

Nos últimos anos tenho me dedicado algum tempo à leitura da Bíblia. Não estou lendo os livros na ordem, nem segundo alguma indicação. Nem mesmo aleatoriamente. Na verdade meu método é simples, leio os livros à medida que algo me inspira a ler um livro em particular. No caso da Gênesis, foi uma explicação do Olavo de Carvalho sobre a árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

Dos livros que li, talvez a Gênesis seja o que mais se aproximou da definição do meu dileto amigo. É simplesmente uma coletânea sobre a condição humana. Já escutei argumentos que a Bíblia não pode ser considerado um livro religioso porque tem tudo de ruim que um homem pode fazer. Pois eu inverto a questão, talvez seja um livro religioso, até mesmo santo, por justamente conter tudo de ruim que um homem pode fazer. Só que não justifica nenhum desses pecados, pelo contrário, há uma nítida pedagogia moral que caminha no sentido das virtudes, culminando nas chamadas virtudes cristãs.

Mas o Gênesis ainda está muito longe da chegada de Cristo; ainda temos o homem em seus primórdios.

Boa parte da incompreensão de sua leitura está no aspecto literal da coisa, esquecendo que trata-se de um livro de experiências de fé e religiosidade. A preocupação com a exatidão histórica e científica não é seu principal foco, embora haja uma nítida preocupação com um esboço de sequência histórica, algo talvez inédito na humanidade.

No Gênesis temos de tudo um pouco: assassinatos, incestos, prostituição, vingança, fanatismo, poligamia, estupro, e por aí vai. Desde a queda de Adão, passando pela morte de Abel, terminando com José, poderoso no Egito. Aliás, é interessante que em troca dos alimentos que por sua atuação o governo egípcio guardara para os sete anos de carestia, José tenha escravizado quase todo o país. Talvez seja a primeira mostra do quanto custa a ajuda do Estado!

Comprou assim José, para o Faraó, todos os terrenos do Egito, pois os egípcios venderam, cada qual, o seu campo, tanto os impelia a fome, o país passou às mãos do Faraó. Quantos aos homens, ele os reduziu à servidão, de uma extremidade a outra do território egípcio.

O Gênesis é interessante porque realmente retrata a condição humana. Praticamente não escapa ninguém, todos têm seus pecados, mas conseguem se sobressair ao meio em que vivem, mostrando que o homem sempre pode superar a si mesmo e ao mundo ao seu redor. O próprio José que chega ao Egito como escravo, consegue se tornar o segundo homem do país, atrás apenas do Faraó. Um dos seus méritos foi nunca ter se revoltado, ao contrário ter no próprio esforço, e na abertura para a intervenção divina, encontrado os meios para superar sua condição. Mais ainda, mesmo em uma época rude, como todo poder que tinha, foi capaz de perdoar os irmãos que o tinham vendido.

Olhando para os tempos de hoje, onde se procura a toda hora colocar nos outros ou na situação a culpa pelos próprios fracassos, o Gênesis é um sonoro tapa na cara. Outro exemplo de perdão, o de Esaú a seu irmão Jacó, que o enganara obtendo junto ao pai os direitos de primogenitura.

Não se pode esquecer que esses fatos narrados no Gênesis, e na Bíblia, não são defendidos pela religião cristã ou judaica, ao contrário, são muitas vezes punidas por Deus. Daí seu aspecto pedagógico, Deus vai através da história realizando o ensino moral. Se no início a poligamia era tolerada, logo se torna uma anátema. Assim como o olho por olho de origem babilônica se torna o evangelho do perdão.

Os livros da Bíblica são tão ricos, e com tantos significados, que podem ser lidos dos mais variados pontos de vista. Um livro religiosos, um livro de sabedoria, um livro histórico (ainda que imperfeito), um livro pedagógico, uma coleção de estórias e arquétipos da condição humana. Quem vive no Ocidente e nunca parou para ler seriamente suas páginas, não tem como compreender a verdadeira natureza da sua própria cultura.

O Gênesis é o começo dessa estranha estória, como definiu com muita propriedade Chesterton. A mais estranha estória já contada sobre a terra. Uma estória que começa com a aliança entre um Deus único com o homem, representado por Abraão e o povo hebreu. A eles foi dada a missão de conduzir o homem para o caminho do bem, para junto de Deus.

E mais uma vez os homem falhariam. Mas essa é outra estória.

Do conhecimento do bem e do mal até o relativismo moral dos nossos tempos

Na narrativa da Gênesis, Adão e Eva são expulsos do paraíso depois de provarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Há muita confusão nesse trecho, até de muitos católicos. Por que Deus queria evitar que o homem pudesse distinguir entre o bem e o mal? Isso não faz sentido. Até porque, para obedecer a proibição, o homem teria que necessariamente distinguir entre o bem e o mal. E se não soubesse distinguir, como poderia ser penalizado?

A grande questão é que não se trata do conhecimento que o homem tem do bem e do mal. Esse ele sempre teve! O simbolismo da Bíblia se refere ao conhecimento de Deus e não do homem. Sendo Deus a perfeição absoluta, não há como pensar que Ele precise do mesmo tipo de conhecimento de suas criaturas, isso é, do que se relaciona ao aspecto cognitivo e moral. O conhecimento que Deus tem é fruto da determinação do que é bem e o que é mal. Era esse conhecimento que Adão buscou no paraíso, ser capaz de determinar o que é bem, e por exclusão, o que é mal. Em outras palavras, Adão simbolisa o homem que quer ser Deus _ Não por acaso, a árvore do conhecimento do bem e do mal ficava ao lado da árvore da vida. Um sério aviso para nossos geneticistas.

Um longo caminho de séculos nos levou aos tempos atuais, onde parte da sociedade, justamente as classes mais ricas, tentam a todo custo abolir toda a noção de moral. Para eles, tudo é relativo, inclusive a distinção do certo e do errado. No fundo, querem a liberdade de decidir o que é o bem e o que é o mal, justamente o que Adão e Eva buscaram no paraíso.

Na verdade trata-se de uma grande ilusão porque as leis morais, aquelas que valem para todas as sociedades e para todos os tempos, estão gravadas em nossas consciências. É triste ver o imenso malabrarismo intelectual que os relativistas fazem para, em síntese, enganar a si próprios. Claro que é impossível e no fim terminam no vazio que o niilismo termina por nos levar.

Infelizmente 9 entre 10 católicos serão incapazes de explicar o significado dessa passagem tão importante do texto bíblico, o que demonstra que a fé precisa ser acompanhada do uso da razão. É preciso estudar! Sem a leitura e a reflexão a própria doutrina se torna sem sentido e acaba fazendo um deserviço à própria fé. Por iso São Tomás de Aquino é tão importante para a doutrina da Igreja. Por isso os intelectuais da Igreja, e foram muitos!, são tão importantes!

Por isso uma religião não pode ser sinônimo de obscurantismo. A fé não pode contrariar a razão, como já ensinava São Tomás, talvez o maior filósofo da cristandade.