Apresentando os clássicos: Music From Big Pink (1968) – The Band

20121213-180237.jpgA Banda é relativamente pouco conhecida por aqui e se não fosse o filme The Last Waltz, com seu horrível título em português (O último concerto de rock), eu teria demorado, como muitos, mais tempo para descobri-la. Felizmente tivemos Scorsese!

O relacionamento dos fãs com a banda é quase mítico, verdadeiramente especial na história do rock. Sabem aquela expressão normalmente equivocada de independência artística e não se curvar ao mercado? Se isso existiu, foi com Robbie Robertson (guitarra), Rick Danko (baixo), Richard Manuel (piano), Levon Helm (bateria) e Garth Hudson (teclados, sax e mil instrumentos).

Uma banda de rock com um guitarrista, um pianista e um tecladista? Só isso já seria original,mas eles ainda gravaram seu primeiro disco em Woodstock no final dos anos 70 e a temática da obra é religião, valores familiares e condição humana. O principal compositor, Robbie Robertson, fazia questão de colocar seu instrumento em segundo plano pois acreditava que nada deveria se sobressair à música. Nem mesmo eles como individualidades. Por isso pode-se dizer com toda certeza que foram mais do que a soma dos seus integrantes.

Dos discos lançados por The Band, o meu favorito é justamente esse primeiro gravado em Woodstock, no porão do Sammy Davis Jr, ao lado da piscina. Para ter uma idéia da repercussão no cenário musical Elton John lançou um disco inteiro (Tumbleweed Connection) inspirado neste trabalho e Eric Clapton acabou com seu Blind Faith pois descobriu o tipo de sonoridade que queria para o resto de sua vida.20121213-180251.jpg

Nunca me canso de escutar este extraordinário disco de rock que começa com uma balada triste, Tears of Rage, na voz melodiosa de Richard Manuel e fala do abandono, de uma filha que deixa sua família. To Kingdom Come é uma rara música cantada por Robertson; prestem atenção no curto e delicado solo de guitarra. Caledonia Mission é pontuado por um violino de fundo, tocado por Danko. The Weight é possivelmente minha música preferida de todos os tempos. We Can Talk tem uma introdução inspiradíssima de piano e teclado, mostrando o que se pode obter da combinação de ambos os intrumentos. Chest Fever tem a genialidade de Garth Hudson, um verdadeiro multi-instrumentista. Por fim, tem o presentaço de Bob Dylan para seus ex-companheiros, a bela I Shall Be Released. Ainda tem meia dúzia de músicas que não deixam o nível do trabalho cair, uma verdadeira obra de arte.

20121213-180259.jpgAlém do instrumental belíssimo, as letras são intrigantes e bem acima da média. Experimente interpretar a letra de The Weight por exemplo. Até hoje acho que escutei mal quando Helm canta que vinha Carmen ” and the devil, side by side” e ela diz que tem que ir, ” but my friend can stick around!”. Ou essa frase magnífica de verdadeira de Robertson em To Kingdom Come:

Just be careful what you do, it all comes back on you

Além de tudo que foi apresentado, a banda tinha simplesmente três vocais maravilhosos, o baterista Levon Helm com seu sotaque sulista, Danko com sua voz triste e Manuel, com sua voz aguda e delicada.

Um dos melhores discos de rock de todos os tempos, perfeito do início ao fim.

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Apresentando os clássicos: Bad Reputation (1977)

A formação definitiva do Thin Lizzy chegaria com este album, já gravado sem a participação de Brian Robertson na maioria das faixas, devido a um braço quebrado. A capa já excluía o guitarrista, mostrando que novos tempos estavam chegando.

O Thin Lizzy, a banda do baixista e vocalista Phil Lynott, um irlandês negro com muita alma, um verdadeiro frontman, nunca chegou realmente a se consolidar como uma das grandes bandas do rock. Chegou perto disso com o sucesso do single the boys are back in town e sua versão de Whiskey in a Jar, mas faltou alguma coisa para chegar no topo. Bad Reputation foi seu produto melhor acabado e um excepcional disco de rock.

A bateria de Brian Downey nunca esteve tão agressiva e tão boa. Escute Opium Trail, uma aula de bateria de rock. Scott Gorham nos presenteia com riffs e solos lindíssimos como em Bad Reputation e Southbound. E Phil Lynott canta com alma e nos traz uma das melhores baladas da banda, a dançante Dancing in the Moonlight, uma boa influência do soul que ganhava os anos 70. Outro vocal inspirado, quase um lamento, é em That Woman Gonna Break Your Heart, outra composição belíssima.

Um disco primoroso do início ao fim, sem fillers. Todas as composições são de alto nível. O Thin Lizzy jamais esteve tão bem, com a possível exceção de Jailbreak(1975) e, principalmente, jamais chegariam neste nível novamente. Um disco que contraria totalmente minha tese que os melhores trabalhos de uma banda acontece até o quinto trabalho; Bad Reputation foi o oitavo.

Apresentando os clássicos: Idlewild South (1971)

Allman

Segundo disco de estúdio dos Allman Brothers Band, Idlewild South é para muitos sua obra prima, pelo menos em estúdio.

O primeiro album, The Allman Brothers Band, atraiu boas críticas mas ainda ficou a sensação de que alguma coisa estava faltando. Afinal, a banda já tinha uma senhora reputação em apresentações ao vivo e Duane Allman já gravava com meio mundo da música. A grande questão era trazer aquela química de jam para dentro do estúdio e foi esse o desafio do produtor Tom Dowd, que gravara anteriormente com o Cream, encarou de frente. O resultado foi um estrondoso sucesso.

O álbum abre com Revival, talvez a música mais “pop” que a banda gravou, com um estilo que chega quase a ser dançante. Dickey Betts nos lega a maravilhosa In Memory of Elizabeth Reed, talvez a mais bela instrumental da história do rock e um tributo a Miles Davis. Greg Allman não fica atrás com o puro blues de Midnight Rider, um dos maiores sucessos da banda. No cover de Hoochie Coochie Man, de Willie Dixon, eles mostram que nem só de material próprio vive uma grande banda; aliás esta é considerada a versão definitiva da música. Please Call Home é uma balada blues de primeiríssima qualidade, cortesia de Greg.

A parceria de Duane Allman e Dickey Betts não duraria muito; cerca de um ano depois Duane partiria desta vida. O que estes dois guitarristas tocam juntos nesse album não está no gibi; fazem misérias. Gregg Allman conseguiria seu timbre característico como a voz do rock blues branco, além de seu talento como tecladista. A cozinha com dois bateristas, Butch Trucks e Jai Johnny Joranson, e um senhor baixista, Butch Trucks, também terminaria tragicamente com a morte do último, em 1972.

O que importa é que Idlewild South resultou em um disco enxuto, sem sobras, com peças essenciais que se sucedem mostrando que o Allman Brothers tinha vindo para ficar e que seu nome seria grande na história do rock.

Take one last look, before you leave,
Cause oh, somehow it means so much to me.
And if you’ll ever need me, you know where I’ll be.
So, please, call home if ya change your mind.
Oh, I don’t mind.

Um até logo com estilo

Good Singin’, Good Playin’ (1976)

Grand Funk Railroad

 

A banda já tinha praticamente se separado quando retornaram ao estúdio sob a batuta de Frank Zappa para gravar este que seria o último album da década de 70. Nos anos 80 ensaiariam um retorno, sem Mel Schacher no baixo, mas ficaria evidente que Mark Farner já estava em outra sintonia.

Embora não tenha feito um sucesso comercial que buscavam, o disco é muito bom; um até logo com muita dignidade. Talvez tenha sido o disco melhor produzido pela banda, com o som mais claro, onde se pode escutá-la com mais nitidez. E que som! Farner, Mel, Brewer e Frost tocaram como nunca e a coleção de músicas que forma Good Singin’ é para lá de respeitável.

Desde a swingada Just Couldn’t Wait, os temas nacionalistas que a banda passou a explorar desde We’re An American Band, com destaque para Don’t Let ‘Em Take Your Gun e 1976, a quase instrumental Out to get You (com guitarra de Zappa) até os últimos acordes de Goin’For the Pastor, tudo funciona bem no album. Fico imaginando o que seria dos três primeiros albuns com a produção dessa bolacha! O som da bateria do Brewer simplesmente está divino!

Meu destaque vai para 1976, uma homenagem ao bicentenário da independência e uma bela mostra que quando o Grand Funk resolvia fazer um som stoniano superava a banda inglesa em muito, como já tinham provado anteriormente com o cover sensacional de Gimme Shelter.

O resultado é uma banda controlada, senhora do que está fazendo, sem alguns exageros do passado que por vezes prejudicava o próprio resultado dos discos. O Grand Funk era uma banda de muita garra, explosiva ao vivo, mas que precisava de um pouco mais de controle em estúdio, justamente o que Zappa fez nesse album.

Good Singin’ , Good Playin’ é um disco injustiçado na vitoriosa carreira dessa que foi uma das bandas americanas que lideraram a reação à invasão britânica. Fica melhor a cada audição e trata-se de quase um testamento do talento e da força dessa banda, tão importante na história do rock’n’roll.

Cotação: ✭✭✭