Hitler e os Alemães

Em 1964, Eric Voegelin proferiu um curso de verão na Universidade Ludwig Maximilian de introdução à Ciência Política. Ao invés de seguir o esquema tradicional de apresentar a teoria, com definições e conceitos, e exemplos de sua aplicação, ele fez diferente. A partir da experiência concreta que os alemães estavam vivendo naquele tempo, ele levanta alguns problemas de ordem política, sendo o principal dele a cumplicidade dos alemães como regime nazista, assunto que considerava longe de estar superado.

Posteriormente, Voegelin transformou esse curso no livro Hitler e os Alemães. Esse livro trata não só do problema da ascensão de Hitler ao poder, mas da problemática da ideologia política. Serve mais do que entender o fenômeno particular de Hitler, mas para entender como um líder estúpido e criminoso chega ao poder, com a cumplicidade de parte da população. 

Pois este tema continua atual. 

Estou elaborando um curso sobre este livro. Em breve, mais novidades. 

E foi-se, oficialmente, Hugo Chavez

Agora é oficial, Hugo Chavez está morto. Não comemoro a morte de ninguém; até porque não considero morte um castigo. Lamento apenas que tenha partido sem ter se arrependido do imenso mal que fez a todo um povo reduzindo seu país em um satélite de um país falido em todos os sentidos, Cuba.

Não me atrevo a dizer que a situação vai melhorar na Venezuela, do mesmo jeito que não memorou muito na União Soviética quando Stálin morreu. Pode até mesmo piorar pois com um pouco mais de habilidade e inteligência política pode-se disfarçar a ditadura venezuelana de uma democracia, o que valeria aplausos da esquerda escocesa, que ainda tem uma certa vergonha de aplaudi-lo em público. Afinal, é possível saquear uma grande empresa petrolífera sem necessariamente explicitar sua real natureza como o bufão de Caracas costuma fazer, não é mesmo?

No final, quando o corpo fica para trás e a alma parte para o além, o que leva? De que valeu ter saqueado uma nação, ter o poder absoluto e todas as benesses se depois estará nu diante do mesmo destino do mais humilde de seus escravos? Como justificar todo mal que fez diante daquele que nunca será enganado e que tudo sabe?

O calvário do Sr Hugo Chávez apenas começou. Ainda terá de se arrepender, sofrer e reparar tudo que fez; sua dívida é incalculável. A quem muito foi dado, muito será cobrado.

O mundo se livrou apenas de um de seus ditadores. Enquanto a ideologia seduzir tanta gente, sempre haverá espaço para eles. Afinal, nada seduz mais os inteligentes do que a promessa de promover o mundo novo que tanto sonham com a concentração do poder nas mãos de alguém que promete fazer tudo para criar este brave new world. Não se enganem, um ditador, e Hugo Chávez nada mais é do que isso, só pode existir pela existência de todo um pensamento considerado intelecutal que lhe dê suporte. Que lhe dê o material para moldar, usar em seu benefício e enganar parte de um povo, o suficiente para lhe dar o poder e a liberdade para usá-lo.

Azar de que fica pelo caminho. Como dizia Orwell em 1984, a face do poder é uma bota esmagando seu rosto.

Que Deus tenha piedade de sua pobre alma.

Assim não, Juca!

Juca Kfouri é um jornalista esportivo até razoável, principalmente quando trata dos bastidores pois seus textos sobre o que acontece dentro das linhas do campo são superficiais e ligeiros, como pede a metafísica mediática moderna. Mas sua verdadeira paixão é a política e talvez essa superficialidade de textos esportivos expliquem porque se ocupe com os esportes, o que é muito melhor para todos nós.

O problema é que de vez em quando ele não consegue se controlar, como hoje. Em seu blog, colocou uma nota sobre o lançamento de um livro sobre a vida de Carlos Mariguella, em que exalta escritor e objeto. Para quem não sabe, Mariguella foi um dos que iniciaram no Brasil a luta armada, antes mesmo de 1964! Entre outras pérolas, escreveu um Manual do Guerrilheiro, onde ensina táticas de terrorismo.

Mas nada disso aparece no textículo de Kfouri, ao contrário, aparece pérolas como essa:

” o Marighella doava 92% do salário de deputado ao PCB, como ele contava em comícios — e o autor comprovou ao encontrar as declarações de renda dele.”

Não é um mimo? Nenhum linha sobre o dinheiro que recebiam do PC de verdade, aquele de Moscou. E mesmo que só vivesse disso, em que a doação de seu salário justificaria sua participação no assassinato de inocentes? Se existe dúvidas da participação direta de gente como Dilma Rousseff, no caso de Mariguella não há nenhuma. O homem sujou as mãos de sangue mesmo.

E continua o desfile. Quem não conhece fica com a impressão que se trata do Bom Samaritano das parábolas e não de um terrorista.

O comunismo ainda existe no coração de muita gente porque tipos como Kfouri são incapazes de reconhecer o tamanho de seus erros de avaliação e decidem ignorar a história para louvar seus falsos ídolos. Não dá nem para explicar para um sujeito desses, tamanha sua paixão ideológica.

A natureza de Carlos Mariguella é tão evidente, que só posso recorrer à Luis Lavelle:

É preciso que se dê por uma espécie de vitória já adquirida da verdade, à qual basta mostrar-se para vencer, sem necessidade de atacar nem de se defender.

Que vergonha Juca Kfouri!

Direita não é sinônimo de desvio moral

Por que virei à direita?

João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield

 

Coutinho, Pondé e Rosenfield tem em comum o fato de serem intelectuais de lingua portuguesa. Além disso, dividem o fardo de não serem de esquerda, o que automaticamente os colocam como de direita, considerando a direita sempre como um bloco único. É engraçado, a esquerda sempre tem uma infinidade de divisões, mas a esquerda é sempre única! Vai entender!

Outra coisa em comum entre eles, é que todos foram de esquerda em algum momento da vida, e terminaram por virar a direita, pelos mais variados motivos; o que implica que ir para a direita, se é que cabe ainda essa distinção, pode ser uma decisão racional e não um desvio moral como muita gente pensa.

Coutinho concentra seus argumentos em uma  longa tradição de pensadores conservadores como Edmund Burke, Oakeshott, Raymond Aron. Para ele, ser de direita é uma condição natural do cepticismo e pluralismo de suas idéias mais básicas. Ele duvida que a razão humana possa ser capaz de levar o mundo para uma situação de perfeição e usa os termos propostos por Oakeshott para diferenciar a esquerda (política da fé, uma crença em um ideal de perfeição fruto do uso da razão) da direita (política do ceticismo, dúvida da capacidade do governo de solucionar os principais problemas humanos). O governo é visto como uma necessidade e não como uma fonte de solução, por isso deve ser resumido a um papel mínimo. O plurarismo é consequência de uma visão que diferencia valores primários, como a integridade da pessoa humana, de valores secundários.

Pondé vai mais a fundo no aspecto filosófico, recorrendo muitas vezes aos símbolos bíblicos para explicar a c0ndição humana, o que é surpreendente considerando que é um filósofo ateu. Independente da origem sagrada da Bíblia, considera que trata-se do livro que melhor captou a condicão do ser humano e por isso é de uma riqueza incomparável. O homem tem uma inveja natural de Deus, por seu potencial criador e imortalidade. Restata uma idéia de Burque em que a sociedade é uma comunidade de almas, reúne vivos, mortos e os que ainda não nasceram. A tradição é a comunicação dos mortos com os viventes. A democracia é uma tensão contínua entre liberdade e igualdade; considerando que os homens não são iguais, a busca de sua igualdade absoluta contraria a sua própria natureza. No certe do pensamento da esquerda está a fuga da responsabilidade moral do homem, a fuga de sua própria condição. Ser de direita é estar do lado da sociologia das virtudes e se opôr à ideologia da razão, como defendia Himmelfarb. A política moderna nada mais é do que um delírio da razão.

Finalmente Rosenfield mostra que sua guinada para a direita teve sua origem na aplicação prática do pensamento da esquerda, particularmente na experiência que teve ao acompanhar o orçamento participativo implantado pela prefeitura petista de Porto Alegre. O que viu foi, sob o argumento de participação direta da sociedade, um grupo reduzido de militantes reunindo-se para decidir o emprego dos recursos públicos como se fossem representantes da sociedade, e não os vereadores eleitos para este fim. As ligações do PT com o narcotráfego, a idolatria de Fidel Castro e Hugo Chávez, as práticas cada vez mais autoritárias dos petistas no poder, tudo isso contribuiu para mostrar a imensa distância do discurso com a prática. Não se pode nem dizer que é um fenômeno brasileiro, tendo em vista a atração dos intelectuais do mundo inteiro com os praticantes da violência como Stálin, Mao, Khomeini, Guevara, e tantos outros que mataram em nome de um ideal político.

Estes três intelectuais mostram nas poucos páginas do livro que existe uma fundamentação racional pela opção de estar a esquerda do debate político. Não se trata simplesmente de uma queda moral, ou um desvio de caráter. O pensamento de direita tem princípios e podem ser defendidos em qualquer debate, mesmo que muitas vezes não tenha o apelo emocional que muitos argumentos da esquerda possui. Como disse Coutinho, ser de esquerda é tentador e muito mais fácil. O problema é a tal realidade.