Uma fábula moderna

Um belo dia, iniciando-se o inverno, encontravam-se  dentro de uma casa o cão, o porco e a coruja. O porco lia tranquilamente o noticiário econômico, o cão parecia entediado, andando em círculos pela sala, enquanto que a coruja parecia adormecida em uma cadeira perto da lareira. Foi quando um pequeno pássaro entrou pela janela e passou a se debater pelo cômodo.

O cão tomou a palavra:

_ Parece que ele quer sair!

_ Acontece volta e meia _ disse o porco retirando seu monóculo _ por vezes eles entram por engano e passam um bom tempo procurando novamente a janela para retornar de onde vieram.

_ Temos que ajudá-lo!

_ Bobagem, deixe que se vire sozinho. Pelo menos aprenderá uma lição e terá mais cuidado do próxima vez.

O cão não se conformou. Tentou de todo jeito apanhar o pássaro para colocá-lo na janela; em vão. O pequeno animal sempre dava um jeito de escapar de suas mãos.

A coruja, que parecia alheia ao que acontecia, observou suavemente:

_ Talvez se abrisse as outras duas janelas ficasse mais fácil para ele sair.

_ Boa idéia! _ disse o cão, já seguindo a sugestão da coruja.

Ficou por alguns momentos observando, mas o pássaro ainda não acertava a saída. 

_ Paciência meu amigo _ observou a coruja _ ele logo acertará.

Mas o cão não conseguia esperar; era preciso resolver o problema de imediato. Pegou uma vassoura e passou a tocar o bicho em direção à janela. No entanto, por descuido, o pássaro esbarrou em um pesado lustre que tombou sobre si, matando-o. O cão olhou desolado.

_ Eu te disse para deixá-lo se virar sozinho _ disse o porco voltando pera o jornal.

_ Não pode ser! Ele deve estar apenas desacordado! Pegou um copo de wiskey e tentou reanimá-lo, tudo em vão. Como era possível que suas boas intenções pudessem ter matado justamente quem desejava tanto ajudar?

Eis toda a política econômica moderna.


Esta fábula foi criada a partir de estória contada por Stephen Kanitz em seu blog. Confira o original.

Uma reflexão sobre partidos políticos

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Stephen Kanitz chama atenção para uma das razões para a existência do mensalão. Particularmente, não gosto de explicações que retiram o livre arbítrio das pessoas, tornando-as refêns de acontecimentos ou como gostam de chamar, do sistema. Não nego a influência do meio, mas rejeito a tese que seja determinante. No final, é o homem com suas decisões.

No entanto, Kanitz parece ter razão quando chama atenção para a ingovernabilidade de uma democracia com 48 partidos políticos. O grande problema é que as pessoas honestas, que rejeitam a corrupção como forma de atuação, tendem a desistir e abandonar a política, deixando o campo livre para os imorais. O resultado é o Brasil de hoje. Na economia é o fenômeno em que a moeda ruim tira de circulação a moeda boa.

Deixando a corrupção de lado e não, o partido do trambique não é como todos os outros. Nenhum outro é capaz de se vangloriar da corrupção e querer transformar suas práticas como virtude como eles, mas isso é outra estória.

Tenho dúvidas se um sistema bipartidário, como o americano, é o ideal de uma democracia. Talvez o ideal seja um com três partidos, um conservador, um socialista e um terceiro liberal.

O primeiro tem por filosofia que a sociedade deve evoluir progressivamente através de pequenas e constantes mudanças. O segundo que ela deve ser transformada com mudanças radicais e definitivas e o terceiro, herdeiro do liberalismo clássico, que os indivíduos devem ter a liberdade total pois o próprio mercado se arranjará da maneira mais eficiente.

O equilíbrio e a composição entre esses três partidos pode ser uma aposta mais segura de soluções menos radicais e possíveis para a evolução de uma sociedade.

Há controvérsias de qual seria o partido do centro, conservadores ou liberais. Talvez não haja centro e os três sejam equidistantes, formando um triângulo. Não importa.

Creio que o bipartidarismo do regime militar estava mais próximo de uma democracia verdadeira do que esse monstro que temos aqui, onde mais de 90% dos deputados não são eleitos pelos próprios votos. Um regime sem representatividade não pode ser considerado democrático.

Independente do resultado do julgamento do mensalão, e espero que os culpados sejam devidamente punidos, é preciso que a quantidade de partidos políticos diminuam. É possível? Mais do que possível, considero inevitável, pois não há como continuar muito tempo dessa forma. Acredito que seremos forçados a isso, cedo ou tarde, pela própria realidade, que sempre cobra seu preço.