Long Day’s Journey into Night

He can’t help being what the past has made him. Any more than your father can. or you. Or I.

O que acontece quando perdemos a esperança? Quando tudo parece sem sentido e não se acredita que se possa melhorar? Quando nossa vida se coloca de tal forma que simplesmente deixamos de esperar por uma melhora; apenas deixamos o tempo passar?

Eugene O’Neill foi um dos escritores que melhor encarnou o pessimismo e desencanto que tomou grande parte do mundo na primeira metade do século XX, especialmente após as duas Guerras Mundiais. Em um mundo sem sentido, como as pessoas poderiam encontrar um sentido para suas próprias vidas? O máximo permitido eram algumas alegrias, curtas e efêmeras, perdidas em um universo de desilusões e infelicidade.

Baseado em suas própria estória de vida, a peça Long Day’s Night Into Night se passa em um único dia, em 1912, em uma casa onde vive um ator famoso por encarnar um único papel há pelo menos 30 anos, sua esposa que retorna ao lar depois de um período de ausência e os dois filhos do casal, Jamie (33 anos) e Edmund (24 anos), o próprio Eugene.

No início parece que estamos diante de uma típica família “burguesa” como gostam de dizer os socialistas, mas aos poucos vai ficando claro que algo vai muito errado naquela casa.  A gripe de Edmund se revela a quase fatal tuberculose da época; a ausência de Mary do lar se deve a mais uma tentativa de tratar do vício de morfina; Jamie é uma alcóolatra; Tyrone, o ator, tem problemas sérios em gastar o dinheiro que ganhou, pois tem medo de retornar à pobreza da infância, além de também abusar do alcóol.

Imagem do filme homônimo, de 1962

Naquele dia da peça, Edmund tem confirmado sua doença, Mary sucumbe mais uma vez ao vício e os homens se entregam à bebida, tentando esquecer de tudo.

Be always drunken. Nothing else matters: that is the only question. If you would not feel the horrible burden of Time weighing on your shoulders and crushing you to the earth, be drunken continually. Drunken with what? With wine, with poetry, or with virtue, as you will. But be drunken.

Nem mesmo a bebida é suficiente; serve apenas para abrir a língua da família, assim como a morfina. É nos momentos em que se afastam da realidade que a família fala abertamente de seus ressentimentos, de seus ódios particulares. Nenhum deles parece assumir qualquer responsabilidade por sua condição e todos se acusam ao mesmo tempo. A frase de Mary no início deste texto sintetiza o pensamento da peça: ninguém tem culpa de ser como é. São todos vítimas do próprio passado.

A peça de O’Neill é pertubadora pois não permite nenhum caminho para a salvação. Os poucos vislumbres de esperança são logo enterrados pela realidade e tudo se revela inútil. No fundo, os quatro personagens são incapazes de se elevar das situações vividas, de transcenderem seus próprios problemas. Não é por acaso que uma das referências de Edmund, ou Eugene, é Nietzsche. Deus está morto e como afirma Tyronte “when you deny God, you deny hope”.

Trata-se de um texto brilhante, um testemunho contundente do pessimismo que pode tomar conta da vida das pessoas até o ponto de não retorno, onde a única alegria possível é se abstrair da realidade. “Who wants to see life as it is, it they can help it?”

Constantin Noica apresentou em seu indispensável pequeno livro As Seis Doenças do Espírito Contemporâneo a patologia de nossos tempos. Uma delas ela a carência do geral, que chamou de catolite. O homem é simplesmente incapaz de superar suas circunstâncias individuais e se colocar em um plano mais geral, de sentido para a vida. Um homem acometido de catolite vive uma existência sem sentido, de um vazio de realizações.

É o que acontece com os personagens da peça de O’Neill. Nenhum deles possui nada parecido com uma missão de vida, com algo que dê sentido a suas existências. Estão apenas vivendo, ou sobrevivendo, aos acontecimentos de cada dia. O horizonte temporal é curto, sempre de alguns dias para frente, o que limita qualquer esperança de felicidade real pois os problemas que atravessam são impossíveis de serem resolvidos no curto prazo.

Por isso o resultado é uma peça que mostra a insuficiência de uma vida nessas condições. O pessimismo é uma filosofia que só pode levar o homem para o desespero e desilusão; não por acaso dois dos personagens, e o próprio autor da peça, tentaram o suicídio. Long Day’s é realmente uma jornada, do dia para a noite, como promete o título.

Mas é uma jornada triste e sem esperanças.

 

Verdadeiro reconhecimento

Uma mamãe me diz algo perturbador: o único reconhecimento que peço a meus filhos, por tudo que fiz, é que façam o mesmo e assim continuem.

E assim continuem… Uma verdadeira ética do devir. A outra ética mantém o mundo no lugar. Se o irmão do filho pródigo tem filhos, com segurança lhes pede reconhecimento. É o tipo de homem que mantém o mundo no lugar. (Constantin Noica)

Aqui chegamos no centro do problema do mundo ocidental hoje, a recusa em fazer o mesmo que seus pais fizeram por eles. Como pode uma civilização ser considerada feliz e ao mesmo tempo negar à vida? Sempre que alguém vem da Europa deliciado com o mundo rico e quase perfeito eu me pergunto: onde estão as crianças? Se tudo é tão perfeito, tão limpinho e fácil, por que nem com incentivo pesado pelos governos não se quer ter filhos?

Desculpas não faltam. O problema é que justamente as famílias que teriam mais motivos para criar filhos, pois possuem as melhores condições para educá-los, são as que recusam este papel. Precisam viver o presente. Pobres almas; não percebem o que estão abrindo mão. Tudo se esvanece, assim como esse presente tão importante que nos obriga a não pensar no passado e no futuro. Somos felizes com nossos irmãos, mas recusamos muitas vezes ao nosso filho único a benção que tivemos. Como nossos pais eram irresponsáveis? Colocar filhos num mundo desses?

Chesterton ensinava que para manter algo como está era preciso estar sempre renovando. Dava o exemplo da cerca branca. Deixada à própria sorte, logo perderia sua cor, mas pintada regularmente seria sempre branca. Estamos fazendo o mesmo com o mundo, estamos deixando-o à sua própria sorte. Isso que Noica quer dizer com a ética do devir. Já o irmão do filho pródigo trabalha pela ética de manter o mundo no seu lugar. Justamente por isso esse mundo terminará se degradando.

A decadência já começou e os primeiros sinais apareceram, embora sejam constantemente ignorados, computados como resultados de alguma crise econômica qualquer. Não será uma decadência lenta como esperam, será explosiva e haverá muita destruição. Prestem atenção na Europa nos próximos anos. Nunca se viu igual fenômeno na face da Terra; nunca uma civilização decidiu por suicidar-se em uma velocidade tão extrema.

O materialismo cobra seu preço.