A escolha

Se pudermos escolher entre a felicidade garantida, o que implica na supressão de qualquer escolha que possa levar à infelicidade, e uma felicidade possível, através de nossas escolhas individuais, boas ou ruins, qual você escolheria? Em outras palavras, você trocaria uma liberdade de errar por uma certeza de escolher sempre certo?

Essa questão me chamou atenção seriamente pela primeira vez quando li o excelente livro de Eduardo Gianetti, Vícios Privados, Benefícios Públicos, há alguns anos atrás. Novamente chamou-me atenção no livro Admirável Mundo Novo, de Aldoux Huxley. Volta e meia penso sobre o assunto, principalmente a cada lei ou resolução governamental que tenta proteger o homem de si mesmo e que dão sustentação ao que ficou conhecido apropriadamente como estado babá.

Hoje mais um importante artigo do Pondé chama atenção para este ponto. Prestem atenção no que ele coloca neste parágrafo:

Isso cria o efeito de esmagamento típico do puritanismo de massa em que vivemos: saúde e felicidade. Fizéssemos um plebiscito, quase todo mundo escolheria uma gaiola feliz.

Uma gaiola feliz. Volta e meia surgem estes termos que conseguem compactar em uma imagem, poderosa como deve ser, toda uma idéia ou um recorte da realidade. Cada vez mais o homem moderno está feliz em sua gaiola, protegido de todas as situações que possam lhe trazer infelicidade. E o estado agradece a confiança e caminha implacável na concentração de poder que trará, não tenho dúvidas, trágicas consequências para a humanidade. O homem moderno é um homem feliz em abrir mão de sua liberdade e isso terá um preço.

O pior é que as pessoas não percebem isso. Acham que estão tirando a liberdade apenas daqueles irresponsáveis que insistem em não verem a luz. Em suas intolerâncias não entendem que deixando de defender um princípio colocam a si mesmas em perigo pois pode estar na próxima lista negra. E não haverá ninguém para defendê-las quando precisarem.

E você? Acha que a felicidade é mais importante do que a liberdade de fazer suas próprias escolhas? Quer realmente morar em uma gaiola feliz?

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Verdadeiro reconhecimento

Uma mamãe me diz algo perturbador: o único reconhecimento que peço a meus filhos, por tudo que fiz, é que façam o mesmo e assim continuem.

E assim continuem… Uma verdadeira ética do devir. A outra ética mantém o mundo no lugar. Se o irmão do filho pródigo tem filhos, com segurança lhes pede reconhecimento. É o tipo de homem que mantém o mundo no lugar. (Constantin Noica)

Aqui chegamos no centro do problema do mundo ocidental hoje, a recusa em fazer o mesmo que seus pais fizeram por eles. Como pode uma civilização ser considerada feliz e ao mesmo tempo negar à vida? Sempre que alguém vem da Europa deliciado com o mundo rico e quase perfeito eu me pergunto: onde estão as crianças? Se tudo é tão perfeito, tão limpinho e fácil, por que nem com incentivo pesado pelos governos não se quer ter filhos?

Desculpas não faltam. O problema é que justamente as famílias que teriam mais motivos para criar filhos, pois possuem as melhores condições para educá-los, são as que recusam este papel. Precisam viver o presente. Pobres almas; não percebem o que estão abrindo mão. Tudo se esvanece, assim como esse presente tão importante que nos obriga a não pensar no passado e no futuro. Somos felizes com nossos irmãos, mas recusamos muitas vezes ao nosso filho único a benção que tivemos. Como nossos pais eram irresponsáveis? Colocar filhos num mundo desses?

Chesterton ensinava que para manter algo como está era preciso estar sempre renovando. Dava o exemplo da cerca branca. Deixada à própria sorte, logo perderia sua cor, mas pintada regularmente seria sempre branca. Estamos fazendo o mesmo com o mundo, estamos deixando-o à sua própria sorte. Isso que Noica quer dizer com a ética do devir. Já o irmão do filho pródigo trabalha pela ética de manter o mundo no seu lugar. Justamente por isso esse mundo terminará se degradando.

A decadência já começou e os primeiros sinais apareceram, embora sejam constantemente ignorados, computados como resultados de alguma crise econômica qualquer. Não será uma decadência lenta como esperam, será explosiva e haverá muita destruição. Prestem atenção na Europa nos próximos anos. Nunca se viu igual fenômeno na face da Terra; nunca uma civilização decidiu por suicidar-se em uma velocidade tão extrema.

O materialismo cobra seu preço.

Advertência de Paulo

Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas especulações da “filosofia”, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo. (Colossenses 2,8)

Há algum tempo que me convenci que viver de acordo com doutrinas descoladas da realidade é uma forma de prisão mental que acaba por limitar completamente o indivíduo. A paste mais triste da revolta contra Deus é fechar nossa alma para a transcendência, nos limitar a algumas poucas teorias que procuram explicar o mundo por algumas proposições simples, e viver nessa limitação. Essa é uma doença puramente intelectual, mas que afeta todo o mundo porque se espalha como a peste, principalmente com a força da mídia moderna e da globalização. É a doença de gente como Eric Hobsbawn, Paul Krugman, Chico Buarque, Marilena Chauí, Richard Rorty, Luis Fernando Veríssimo. Essa gente é triste porque suas vidas são pequenas e limitadas.

Paulo usa a palavra escravizar pois é justamente esse o perigo que imaginava, até porque ele mesmo foi um escravo de idéias. Três foram os perigos apontados pelo apóstolo dos gentios.

O primeiro é as especulações enganosas da “filosofia”. As aspas são essenciais aqui; nada em suas cartas está sobrando. Sabia que existia uma coisa chamada filosofia e outra chamada “filosofia”. No primeiro caso, temos a reflexão sobre a condição humana e sua relação com o mundo e com Deus; na segundo, uma falsa filosofia mas que a ela se assemelha. A reflexão sobre o nada. Sobre o que não existe, sobre conceitos abstratos completamente desprovidos de fundamento e ligação com o real. Foi a armadilha que pegou a maior parte dos filósofos modernos e justamente por isso gerou sistemas vazios mas que até hoje geram discípulos seguidores, que tanto seduzem os intelectuais da modernidade.

O segundo perigo são os enganos da tradição dos homens. Esse perigo era muito conhecido de Paulo pois foi escravo justamente da tradição religiosa de seu tempo. Perseguiu Jesus e seus discípulos sem reflexão, baseado vagamente no que chamava de Lei. É o perigo de seguir qualquer coisa sem a verdadeira reflexão, de colocar a sabedoria de lado por algum código já estabelecido. O próprio Cristo foi enfático em dizer que não veio revogar a lei e sim para lhe dar entendimento e prosseguimento. Na parábola do Bom Samaritano, diante de um doutor da lei que o experimentava pergunta: o que está escrito na lei? Como lês? Esse “como lês” é fundamental! Cristo já mostrava que por mais clara que seja uma lei ela deve se interpretada. Esse é o perigo da tradição irrefletida, que perpetua as injustiça e enganos.

Por fim, o terceiro perigo, os elementos do mundo. Aqui temos o cientificismo, um dos produtos do materialismo que separa conhecimento de técnica e confunde o segundo pelo primeiro. Toda vez que alguém brada qua a ciência prova alguma coisa temos os elementos do mundo escravizando o pensamento. Aqui temos a real politics, o pensamento de Maquiavel, a recusa da possibilidade do homem superar a si mesmo e suas circunstâncias. O consumismo, esse outro produto nefasto do materialismo. As doutrinas panteístas que confundem o mundo com Deus; as religiões vazias de falso espiritualismo.

O pensamento intelectual de nossa época é em grande parte limitado pela revolta. Uma revolta que nos torna escravos pois impede a força libertadora de uma ligação com a transcendência, do entendimento que a realidade não é apenas o que podemos enxergar. Que nosso mundo é uma comunidade de almas, que já morreram, que vivem e que viverão. Que cada geração em uma responsabilidade com seu passado e com seu futuro. Tudo isso Paulo sabia; e por isso advertiu os colonossenses.

Nosso destino é ser livres, para isso temos que ter coragem de nos libertar das correntes da caverna. De seguir a luz e ver a realidade, mesmo que no início segue nossos olhos como aconteceu com o filósofo. Que a fé não pode ser sega, seja em Deus ou em sua negação. No fundo, o versículo de Paulo é um convite à reflexão, à verdadeira filosofia. Pobres intelectuais que movidos pela vaidade se deixam escravizar por falsas idéias e tanto mal fazem à humanidade. Já passou da hora de assumirem uma postura humilde e aprenderem com os verdadeiros mestres do passado, que sabiam há milhares de anos mais do que sabemos hoje; mas que foram capazes de nos deixar esse imenso legado para nos educarmos e prosseguirmos de onde pararam.

Liberdade

A conquista de nossa liberdade não consiste em deixarmo-nos vencer pelos impulsos, e fazermos tudo quanto nos vem à mente. (Mário Ferreira dos Santos, Convite à Psicologia Prática)

A modernidade consolidou a idéia de que a liberdade significa fazer tudo que se deseja. A raiz desse pensamento talvez seja Nietszche com seu super-homem, mas tenho dúvida se ele estava defendendo uma idéia ou constatando algo que já se mostrava real. Sartre também contribuiu com seu o “inferno são os outros”, que indicava que o próximo estava sempre interferindo na nossa liberdade.

Mas seria a liberdade absoluta um conceito possível? Me parece que fazer tudo o que queremos nos deixa em uma condição de estar subordinados aos nossos próprios desejos, algo muito comum nos dias de hoje. O que é a liberdade sexual senão seguir os próprios desejos sexuais, sem nenhum limite? Mas isso não nos coloca na condição de escravo de nosso desejo sexual? Por que uma pessoa que escolhe a monogamia, ou mesmo a abstinência sexual, é considerada menos livre do que alguém que transa com tudo que se mexe?

A coisa fica ainda mais embrulhada quando chegamos no feminismo. Uma mulher que escolhe não trabalhar fora e dedicar sua vida a cuidar de sua família é considerada uma vítima do machismo, uma reprimida. Liberdade é jogar a própria família as favas, como Nora fez na célebre peça de Ibsen, mesmo que não se tenha a menor idéia do que se pretende da vida. Parece que o conceito de liberdade não inclue determinadas decisões. Você só é livre se fizer determinadas escolhas já previamente definidas pelos progressistas de plantão.

Não vou nem comentar a questão do aborto e a tal liberdade da mulher dispor do próprio corpo.

Alguém já disse que muitos crimes são praticados em nome da liberdade.

Talvez a verdadeira liberdade seja a livre escolha de submeter a algo. Deus, o casamento, a família, um código moral, uma disciplina. Não uma submissão cega, ou fruto do desconhecimento, mas uma escolha racional, que vê a necessidade e o bem maior a se alcançar ao confiar em algo que julga superior e próximo da verdade. A submissão a um ideal transcendente à própria pessoa, a uma vontade de se aprimorar, de ser alguém melhor.

O mundo de hoje está cheio de falsos senhores. E falsos escravos.

O primeiro passo para a liberdade, segundo Mário, nosso maior filósofo, dentro de uma tradição que remonta alguns milhares de anos, desde Platão, passando pelo cristianismo, é controlar nossos próprios impulsos.

E isso é só o começo.